Agências de inteligência dos Estados Unidos concluíram que entre 15 mil e 20 mil pessoas, incluindo afiliados do Estado Islâmico (EI), estão agora foragidas na Síria, após um êxodo de um campo que mantinha familiares de jihadistas, disseram autoridades americanas familiarizadas com o assunto ao Wall Street Journal (WSJ). Após aproximação com governo: EUA pretendem retirar todas as tropas da Síria, segundo relatos da imprensa Operação: EUA afirmam ter lançado ataques em larga escala contra Estado Islâmico na Síria Há anos, especialistas em segurança alertam que as esposas de combatentes do EI vinham, na prática, criando a próxima geração de militantes nas amplas instalações de al-Hol. Nas últimas semanas, porém, a estrutura de vigilância do campo ruiu, depois que o governo sírio derrotou as Forças Democráticas Sírias apoiadas pelos EUA, responsáveis pela guarda do local. O colapso reacendeu o temor de que pessoas potencialmente radicalizadas tenham sido soltas. Localizado no deserto oriental da Síria e com dimensão comparável à de uma pequena cidade, o campo chegou a abrigar mais de 70 mil pessoas após forças apoiadas pelos EUA destruírem, em 2019, o o que restava do autoproclamado califado do EI no país. Em 2025, mais de 23 mil pessoas permaneciam no local, segundo relatório do Pentágono. A vasta maioria deixou al-Hol depois que o governo sírio assumiu o controle da área, no mês passado. Diplomatas ocidentais em Damasco estimaram que mais de 20 mil pessoas fugiram em poucos dias, em meio a tumultos e a uma onda de tentativas de fuga. Ao Wall Street Journal, um diplomata disse sob anonimato, que apenas entre 300 e 400 famílias permaneciam no campo no início desta semana. Avaliação dos EUA A avaliação dos Estados Unidos atribuiu as fugas à má gestão do governo sírio e à ausência de vigilância rigorosa ao longo do vasto perímetro de segurança. A administração síria, liderada pelo presidente Ahmed al-Sharaa, ex-jihadista, reconheceu que muitos deixaram o campo rumo a outras regiões do país e afirmou que pretende monitorar possíveis extremistas e reintegrá-los à sociedade. Mulheres e crianças no campo de detenção de al-Hol, no nordeste da Síria, em 5 de fevereiro de 2026; retirada de forças curdas apoiadas pelos EUA deixou o sistema em caos. Nanna Heitmann/The New York Times Autoridades do governo, porém, responsabilizaram as Forças Democráticas Sírias pelo caos, alegando que as tropas abandonaram o local na ofensiva de janeiro, deixando-o sem vigilância por horas e dificultando a retomada do controle. A administração informou nesta semana que está transferindo as últimas famílias remanescentes do campo, situado em uma área próxima à fronteira com o Iraque, para outro centro de deslocados no noroeste da Síria. A dissolução desordenada de al-Hol reacendeu questionamentos dentro do governo americano, no Congresso e entre analistas de segurança sobre a decisão da gestão do presidente Donald Trump de repassar rapidamente aos novos líderes sírios os esforços de contraterrorismo, em meio à retirada das forças dos Estados Unidos do país. Em janeiro: EUA começam transferência de até 7 mil detidos do grupo Estado Islâmico da Síria para o Iraque Embora Sharaa, um ex-líder rebelde que comandou a derrubada do ditador Bashar al-Assad em dezembro de 2024, tenha se distanciado de grupos extremistas e combatido o EI por anos, suas forças militares e de segurança incluem islamistas de linha dura. Ignorando as advertências dos EUA, ele seguiu com uma ofensiva relâmpago que levou ao fim de uma zona controlada por curdos que representava um desafio aos seus esforços para consolidar o controle nacional. O braço de inteligência do Pentágono concluiu que o governo de Sharaa demonstrou disposição para cooperar com os EUA no combate a grupos terroristas, mas ressaltou limitações. Segundo relatório publicado em 19 de fevereiro pelo inspetor-geral do Departamento de Defesa americano, os esforços de Damasco são “limitados pela falta de pessoal treinado e qualificado pelo estado incipiente das instituições de segurança”. — Eles têm algum tipo de experiência e infraestrutura para isso — disse Alexander McKeever, analista independente baseado em Damasco, ao WSJ. — Mas definitivamente não para 20 mil pessoas, e uma parcela significativa delas sendo não sírias. ‘Praticamente vazio’ Além de familiares de combatentes, o campo também abrigava civis comuns que acabaram detidos no caos que marcou o fim do domínio do Estado Islâmico, segundo uma autoridade de defesa dos EUA e especialistas. Um estudo das Nações Unidas publicado em outubro apontou que até um quarto dos detidos não tinha vínculos com o grupo. Os suspeitos considerados mais perigosos em al-Hol permaneciam em um anexo separado e em uma rede de prisões espalhadas por todo o país. Após a retomada do nordeste pelo governo, em janeiro, militares americanos transferiram cerca de 5.700 prisioneiros afiliados ao Estado Islâmico de campos de detenção na Síria para o Iraque. Prisão de Shaddadi vazia após fuga em massa de detentos do Estado Islâmico, em al-Shaddadi, Síria, em 7 de fevereiro de 2026, após retirada de forças curdas apoiadas pelos EUA Nanna Heitmann/The New York Times No início do mês, protestos e tumultos dentro do campo deixaram um trabalhador humanitário ferido. Também houve aumento no contrabando e abertura de buracos na cerca que delimitava a área. O chefe da agência global de refugiados da ONU na Síria, Gonzalo Vargas Llosa, afirmou na sexta-feira que a organização ajudou a coordenar o retorno de 191 iraquianos de al-Hol ao Iraque, enquanto prosseguem os esforços para retirar famílias remanescentes. “O campo de al-Hol agora estará praticamente vazio”, escreveu ele nas redes sociais.