A história real por trás de 'Portobello', minissérie sobre erro judicial que marcou a Itália

Entre 1977 e 1983, 28 milhões de italianos ficavam diante da TV nas noites de sexta-feira na esperança de ver um papagaio falar o título do programa do qual era mascote: “Portobello”. O desafio, imposto a um dos participantes da atração da RAI, era o ponto alto do show de variedades conduzido por Enzo Tortora, que oferecia números musicais, concurso de invenções e servia de ponto de encontro de jovens em busca do par perfeito. Mas o apresentador caiu em desgraça quando um de seus fãs, um integrante da Camorra (a máfia napolitana) preso e pressionado, o associou ao tráfico de drogas, dando início a um dos mais estrondosos erros judiciais da Itália. O caso é recriado em tom de saga moral na minissérie “Portobello”, que chegou à grade da HBO Max no dia 20. 'Feito pipa': Filme brasileiro com Lázaro Ramos ganha dois prêmios no Festival de Berlim Crítica: Bad Bunny dá baile no país que se orgulha de comandar o baile Dirigida por Maco Bellocchio, veterano diretor de filmes políticos, a série é também um retrato de uma Itália em transição, marcada pelo assassinato do primeiro-ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, a ascensão de novas forças políticas, e o início da disputa da TV pública com conglomerados de comunicação. “Portobello” é a segunda experiência em uma minissérie do cineasta de 86 anos, conhecido por filmes como “De punhos cerrados”, de 1965, que inspirou o novo filme do brasileiro Karim Aïnouz, “Rosebush pruning”. Tem como protagonista o ator Fabrizio Gifuni, que também liderou o elenco de “Noite exterior” (2022), sobre o sequestro de Moro, sua minissérie anterior, e está se firmando como intérprete de figuras públicas de vida trágica da história da Itália recente. — O programa funcionava como uma válvula de escape, um conforto semanal para uma sociedade em franca fragmentação — resumiu Bellocchio, ao lado de Gifuni, no Festival de Veneza, onde “Portobello” ganhou première mundial. Trouxe algo de sua experiência com “Noite exterior” ou dos seus filmes para “Portobello” ? Marco Bellocchio: As duas séries de assemelham, começando pelo número de episódios: seis. Mas a elaboração de “Portobello” foi mais complicada. Na série anterior a ideia central era contar a tragédia de Aldo Moro e, em torno disso, construir retratos de personagens externos ao caso de sua prisão. Era uma arquitetura cinematográfica mais sólida, clássica. Desta vez, havia a necessidade recriar o mundo da televisão daquela época e construir o caminho da autodefesa do protagonista, em uma realidade jurídica complexa. Vários mundos precisavam ser unidos, sintetizados em uma única trama e, para contá-la, precisaríamos de mais tempo. Acho que, por tanto tempo que esse trabalho demanda, e por causa da minha idade, nunca mais farei uma série de TV. Segunda e última: diretor Marco Bellocchio acredita que, com a idade, não voltará mais a fazer uma série de TV Divulgação O quanto do roteiro de “Portobello” é fiel ao processo real de Tortora? O senhor tomou alguma liberdade em relação aos fatos? Bellocchio: Ter liberdade é obrigatório. Em todo tipo de história há áreas de escuridão que precisam ser cobertas por sua imaginação. É preciso intervir com movimentos, palavras, comportamentos, com gestos. Mas sempre começando com fatos, com dados comprovados. Apesar de ter lido muitos livros, ouvido muitos especialistas e pessoas ligadas a Torora e ao seu caso, lançamos mão da imaginação. Um historiador pode até dizer que isso é errado, mas acho esse tipo desobediência necessária. O que o motivou a resgatar a história de Tortora? Bellocchio: Tortora deveria ser um personagem mais atraente para o público do que para mim, porque lida com elemento universais. O que você me diz, Fabrízio? Fabrizio Gifuni: Há dois aspectos fascinantes relacionados. O primeiro é ligado à história do nosso país porque, durante os sete anos em que o programa esteve no ar, entre 1977 e 1983, a Itália mudou de cara, de política, e em como fazer televisão popular: o programa é uma espécie de fronteira entre essas duas Itálias. Mas há também de mais abrangente, ligado a um grande incômodo do ser humano, que é o trauma de ser acusado de algo que não cometeu. Franz Kafka já escreveu sobre isso. Freud também. É um dos nossos medos mais profundos, inconscientes, como o medo do escuro para as crianças. Para os adultos, o medo maior é acabar no tribunal, na prisão. Bellochio: Acho que a citação a “O processo” de Kafka bastante pertinente. Ele fala desse labirinto inconsciente e legal melhor que ninguém. Assistiam ao programa do Tortora? Ele teve algum impacto na vida de vocês? Bellocchio: Eu não acompanhava o programa, até porque já fazia cinema naquela época. Mas sabia de sua popularidade, porque ele também escrevia em jornais suas opiniões sobre juízes, políticos e fatos que aconteciam na Itália. Minha ligação acontecia de modo indireto, por intermédio da experiência de outras pessoas que acompanhavam. Minha relação a ele não era de reprovação, mas de indiferença, porque minha pesquisa intelectual estava indo em outra direção. Gifuni: Eu acompanhava, sim. Era inevitável sentar na frente da TV todas as noites de sexta-feira. Não porque o achava fascinante, mas havia algo nele que o tornava muito popular entre os jovens da minha idade — eu tinha 11 anos quando “Portobello” estreou — por causa dos jogos, das roupas extravagantes, do papagaio. Havia ali muitos elementos do formato que seriam desenvolvidos por redes de TV independentes e comerciais nos anos 1990 e início dos 2000. Como vocês descreveriam a Itália antes e depois de “Portobello”? Bellocchio: Até os anos 1970, a Itália era mais compacta do ponto de vista do sistema político. A televisão eram um monopólio do estado; e a RAI, portanto, uma emissora pública. Foi durante os anos do programa que tudo começou a mudar: o Partido Socialista começou a ganhar poder e aconteceu a chegada dos canais de TV privados. Não havia concorrência, e isso ficava explicitado no nível do que era oferecido pela TV pública, com “Portobello”. Foi esse cenário que preparou a chegada de (Silvio) Berlusconi, que criou o primeiro grande grupo de TV na Itália, antes de se tornar primeiro-ministro. A mentalidade dos italianos foi mudando com o tempo, com forte desinteresse por política, o que explica o cenário de hoje. Como isso pode ser medido? Bellocchio: Hoje, 50% dos italianos não querem mais votar. Acho que isso também acontece em outros países da Europa. Já tivemos percentuais muito altos de adesão no passado, que chegaram a 80%, 85%. Um conhecido sociólogo usou uma expressão um pouco depreciativa para resumir essa fragmentação italiana: “os restos de uma sociedade”, que veio se fragmentando ao longo das décadas, mas que se acalmava diante da TV numa noite da semana assistindo a “Portobello”. Até a TV se fragmentou nesse meio tempo. O programa do Tortora chegava a 28 milhões de espectadores. Agora, um sucesso como esse, capaz de unir a população, é inimaginável.