Poucos coquetéis atravessaram um século com a mesma elegância e relevância cultural do Negroni. Ícone da coquetelaria italiana, símbolo da dolce vita e do ritual do aperitivo, o drink conquistou bares de Tóquio a São Paulo, e virou uma assinatura de sofisticação contemporânea. Mas o Negroni também é uma tela em branco: um manifesto líquido onde tradição, identidade e inovação se encontram. A origem do Negroni remonta a Florença, em 1919. Conta-se que o conde Camillo Negroni, habitué do Caffè Casoni, pediu ao bartender Fosco Scarselli uma versão mais forte do seu Americano favorito, substituindo a água com gás por gin. O resultado, servido com uma fatia de laranja, tornou-se imediatamente lendário. A receita clássica se mantém simples e elegante: partes iguais de gin, vermute rosso e Campari, servidas com gelo e perfume cítrico de laranja. O Negroni tornou-se símbolo da cultura do aperitivo italiano – o ritual de desacelerar, brindar e celebrar o encontro. O Negroni é, talvez, o coquetel mais instagramável e conceitual do século XXI. Sua cor rubi-âmbar dialoga com design, moda e fotografia; seu perfil agridoce conversa com paladares sofisticados; sua história carrega aristocracia, ritual e identidade cultural. É o drink do editor de moda, do chef intelectual, do artista urbano – e, hoje, da diáspora criativa que reimagina o mundo a partir do sul global. Negroni Chermoula: dendê, laranja amarga e herança afro-diaspórica Na minha cozinha e no meu bar, o Negroni ganhou uma nova narrativa. Ao incorporar o azeite de dendê – ingrediente ancestral africano profundamente presente na culinária afro-brasileira – criei um Negroni que fala de memória, território e identidade. O dendê traz gordura aromática, textura sedosa e notas profundas que dialogam com o amargor do Campari e os botânicos do gin. A laranja amarga conecta-se à tradição mediterrânea, criando uma ponte sensorial entre África, Brasil e Itália. Receita: Negroni de Dendê & Laranja Amarga O Negroni da chef Aline Chermoula leva azeite de dendê Acervo Pessoal Ingredientes (1 drink) 30 ml de gin London Dry 30 ml de Campari 30 ml de vermute rosso (italiano) 5 ml de azeite de dendê filtrado (ou 3 gotas em versão mais sutil) Twist de laranja amarga ou laranja bahia Gelo grande (1 cubo cristalino) Modo de preparo Em um mixing glass com bastante gelo, adicione o gin, o Campari e o vermute. Acrescente o dendê e mexa delicadamente por cerca de 20–30 segundos, até gelar e diluir levemente. Coe para um copo baixo (old fashioned) com um grande cubo de gelo. Expresse o óleo da casca de laranja sobre o drink e decore com o twist. Perfil sensorial Entrada: cítrica e herbal Meio: amargo elegante e floral Final: untuoso, profundo, com memória afro-diaspórica Negroni como manifesto cultural Aprenda a receita acima Getty Images Hoje, coquetelaria é narrativa. O Negroni, quando reinterpretado com ingredientes ancestrais, torna-se um manifesto líquido: uma conversa entre Europa e África, entre tradição e futurismo, entre técnica e afeto. Em um mundo que busca diversidade e autenticidade, reinterpretar clássicos é também uma forma de reivindicar presença – e brindar com consciência. Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!