Mais do que Jane, a escolhida para a vice de Eduardo Paes (PSD) na eleição de outubro é Reis. Anunciada na semana passada como futura companheira de chapa do prefeito que tentará o governo, a advogada desponta como a nova faceta da expansão política de um clã da Baixada Fluminense que busca colocar tentáculos em diferentes esferas do poder — sempre sob a batuta do ex-prefeito de Duque de Caxias e presidente do MDB no estado, Washington Reis. Leia também: Bolsonaro prepara lista de pré-candidatos do PL ao Senado e a governos estaduais, diz Carlos Palanques de Lula: Presidente já trata Pacheco como candidato em Minas e tenta destravar alianças no Sudeste Com nome de batismo Jeannie Mayr, Jane Reis tem 50 anos e leva para a aliança alguns elementos celebrados pelo grupo de Paes, que tenta diversificar a imagem do prefeito, muito ligada à capital. É mulher, evangélica e com base na Baixada, região que concentra mais de um a cada cinco eleitores fluminenses. Na esfera religiosa, o Rio conta com 32% de fiéis, acima dos 26,9% da média nacional. Jane marca a nova tentativa dos Reis de integrar uma candidatura majoritária em busca do Palácio Guanabara. O próprio Washington chegou perto em 2022, quando era o vice escolhido por Cláudio Castro (PL) e foi barrado pela Justiça Eleitoral. A família pilotada politicamente pelo cacique emedebista é cria de Xerém, distrito de Caxias. Desde que Washington assumiu a prefeitura pela primeira vez, em 2005, são recorrentes as nomeações de parentes na estrutura do poder local, o que já causou decisões contrárias a ele por nepotismo, assim como a entrada de familiares em eleições. Hoje, dois irmãos do dirigente são deputados — Rosenverg, estadual, e Gutemberg, federal — e um sobrinho, Netinho, governa a cidade que representa o segundo maior colégio eleitoral do estado. Outro irmão, Júnior, está na Câmara do município desde 1997. — Minha vida sempre foi na política, nos bastidores. Faço a prestação de contas de todas as campanhas dos meus irmãos desde a primeira do Washington para deputado estadual, em 1994 — afirma Jane. Paes anunciou escolha de Jane como candidata a vice-governadora em evento na sede do MDB Caio Sartori/Agência O Globo Conhecida por atuar em projetos sociais e pelo vínculo com igrejas, a vice de Paes está envolvida em uma das vitrines da prefeitura do irmão: o projeto de reabilitação de dependentes químicos Fazenda Paraíso, no qual diz organizar, de forma voluntária, “saraus, cultos e encontros com famílias” dos pacientes. O discurso religioso apareceu no evento em que foi anunciada vice — disse que, “como evangélica”, sempre coloca Deus em primeiro lugar, e que a candidatura era “missão”. Com origem na Igreja Presbiteriana e hoje frequentadora de um templo Batista em Xerém, Jane tem ainda ligação com a Assembleia de Deus por meio do marido, o pastor Rafael Corato. Nascido na região Nordeste, ele atuou na igreja no estado de Sergipe e iniciou carreira missionária antes de conhecer a atual mulher. Foi pastor na Europa, com passagens por Portugal e França. Em solo francês, paralelamente a bicos como guia de turismo, Corato passou a pregar para jogadores de futebol brasileiros do Paris Saint-Germain. Batizou o atacante Lucas Moura e o zagueiro David Luiz, que jogavam no PSG, e teve um encontro em 2017 com Neymar, então recém-chegado ao clube parisiense. O pastor Rafael Corato (de azul), marido de Jane Reis, com os jogadores brasileiros Lucas Moura (à esquerda) e Neymar, em foto de 2017 Reprodução/Redes sociais Ensaio em Magé Em 2020, quando Jane foi escalada pela família para estrear na política eleitoral, ela percorreu igrejas ao lado do marido em Magé. A estratégia, reforçada por vídeos de apoio de pastores como Marco Feliciano e Claudio Duarte, era uma tentativa de se tornar mais conhecida na cidade vizinha a Duque de Caxias, onde concorreu à prefeitura e terminou em terceiro lugar. A campanha em Magé serviu como ensaio da tentativa da família de estender seus domínios. — Aquilo foi um teste. Fizemos uma campanha bonita, mas o contexto de pandemia me prejudicou, porque eu fazia questão de usar máscara e evitava andar na rua — diz Jane, cujo irmão Washington, então prefeito, se notabilizou por causar aglomerações em Caxias durante a Covid-19. A advogada ganhou ainda um cargo na Câmara de Vereadores de Caxias no primeiro mandato de Washington como prefeito, entre 2005 e 2008. À época, outro irmão, Júnior, era o presidente do Legislativo. As nomeações em cargos comissionados são praxe no clã: outros irmãos, sobrinhos e correlatos foram alocados em secretarias, na Câmara e até no gabinete do prefeito durante as gestões do líder da família, que retornou à administração municipal em 2016 e se reelegeu em 2020. Infográfico mostra os parentes de Washington Reis que ocuparam cargos públicos Editoria de Arte Washington chegou a ter mais de 40 parentes nomeados na cidade, segundo levantamento do GLOBO feito em 2008, e parte deles precisou ser exonerada por decisão da Justiça, que apontou a prática de nepotismo. À época, ele alegou que, dentro do universo de 12 mil servidores no município, o número de familiares empregados era modesto — e que todos eram “de confiança”. Nos anos de ouro do lulismo, Washington Reis chegou a ser aliado do presidente Lula, que até hoje, segundo Paes, nutre “muito carinho” pelo político da Baixada. Mas, quando o bolsonarismo promoveu uma reconfiguração no mapa de votos do estado, o cacique do MDB virou um parceiro irredutível de Jair Bolsonaro. Sob a gestão dele, Caxias virou notícia como epicentro da suposta falsificação do cartão de vacinas do ex-presidente, investigada pela Polícia Federal. Quando Reis promoveu um comício com Bolsonaro no município durante o segundo turno de 2022, lá estava Jane, que postou diversas fotos e vídeos favoráveis ao então presidente que tentava a reeleição. Agora, Washington já deixou claro que estará com Flávio Bolsonaro (PL) na próxima disputa, o que causa uma anomalia na campanha: um candidato a governador ligado a Lula com uma vice que deverá pedir votos para o bolsonarismo, o que serve aos interesses de Paes de não ficar totalmente vinculado ao petista. — Era natural (prestigiar o comício em 2022). Agora, estou focada na aliança estadual. Vou aguardar as orientações do Washington e da direção do partido sobre a eleição nacional — esquiva-se Jane, perguntada sobre fazer campanha para Flávio nos próximos meses.