Troca de farpas afasta Kassab da chapa de Tarcísio, em meio a crise envolvendo vice do PSD

Os recentes atritos públicos entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o presidente do PSD, Gilberto Kassab, aprofundaram as dúvidas sobre o papel do partido na chapa à reeleição estadual. O diagnóstico entre aliados é que Kassab ficou para trás na corrida para ser vice de Tarcísio, posto que hoje é de Felício Ramuth, também do PSD. Visto até então como favorito a seguir na chapa, Ramuth sofreu um abalo nesta semana com a revelação de que é investigado, no exterior, por suposta lavagem de dinheiro, o que ele nega. Leia também: Bolsonaro prepara lista de pré-candidatos do PL ao Senado e a governos estaduais, diz Carlos Palanques de Lula: Presidente já trata Pacheco como candidato em Minas e tenta destravar alianças no Sudeste O PSD de Kassab foi um dos principais fiadores da campanha de Tarcísio em 2022. Além de filiar o vice de Tarcísio, o dirigente foi alçado ao posto de secretário de Governo, uma espécie de braço-direito do governador. A relação entre Tarcísio e Kassab, que vinha tendo desgastes devido à leitura de que o dirigente cumpria “agenda própria” no governo para expandir o próprio partido, piorou no início deste ano. No mesmo dia de uma visita de Tarcísio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão, Kassab afirmou que “gratidão é uma coisa, outra coisa é submissão”. O governador declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, enquanto Kassab, que já estimulou o próprio Tarcísio a concorrer, vem formando no PSD uma espécie de “terceira via” alternativa ao bolsonarismo e ao presidente Lula (PT). Tarcísio rebateu a declaração de Kassab, na última quinta-feira, com uma indireta: disse que “as pessoas, às vezes, querem rotular lealdade como submissão”, e alfinetou o raciocínio. — Infelizmente, amizade e lealdade na política viraram atributos raros. As pessoas agem por interesse próprio, deixam de ter o pé no chão — declarou. Na sexta, Kassab divulgou nas redes sociais uma mensagem que foi entendida como tréplica a Tarcísio. Além de reafirmar que o PSD terá candidatura presidencial, citou ter feito “bons amigos e conselheiros na política”. Ao citar Tarcísio e outros candidatos que apoiou no passado, disse ter acertado nas disputas eleitorais que venceu, e pontuou que “não foram poucas”. As falas de Kassab circularam nos gabinetes da administração estadual como um “desabafo” do dirigente do PSD com os rumos eleitorais de Tarcísio, mas também como um exemplo de “fogo amigo”. Não à toa, o dirigente depois afirmou, nas redes sociais, que não considerava Tarcísio submisso, e que seu comentário havia sido distorcido por “incompreensão textual ou má-fé”. Nova crise Ramuth, por sua vez, vem trabalhando para seguir como vice de Tarcísio em meio à possibilidade de mudança de partido. O atual vice-governador tem dito a interlocutores que prefere seguir no PSD, mas pode ser obrigado a trocar de legenda caso Kassab crie obstáculos. Dessa forma, Kassab pode se deparar com o dilema de ceder o posto a Ramuth ou vê-lo assumir o posto em outro partido, como o MDB. O prazo para troca de legenda termina em 4 de abril. Tarcísio, Ramuth e Kassab foram procurados, mas não comentaram. A situação do atual vice-governador foi abalada por uma nova crise nos últimos dias. Como noticiado pelo GLOBO na sexta-feira, Ramuth e sua esposa, Vanessa, são investigados em Andorra, um paraíso fiscal europeu, por suspeita de lavagem de dinheiro. O tribunal local bloqueou US$ 1,4 milhão (R$ 7,2 milhões na cotação atual) de uma conta atribuída ao casal. O vice de Tarcísio alega que os valores são lícitos e declarados à Receita Federal brasileira. Caso o desgaste do vice-governador se aprofunde, outra possibilidade para compor a chapa de Tarcísio é o deputado estadual André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa do Estado (Alesp). O GLOBO apurou que um grupo de parlamentares prepara uma carta aberta de apoio a ele. — Passado o momento das filiações, e o que cada um vai definir de projeto em nível nacional, vamos ter a escolha do vice. Sempre, claro, respeitando o outro, para a gente não se dividir e continuarmos remando para um lado só, o da reeleição do governador Tarcísio — desconversou Prado. Conta a favor de Prado o fato de ter trabalhado para aprovar os principais projetos enviados pelo Executivo, como a desestatização da Sabesp. Além disso, o PL tem uma bancada com 19 deputados. Tarcísio, porém, pretende abrir espaço para outras siglas aliadas reivindicarem a vaga de vice. Devido ao descontentamento de Tarcísio com a postura de Kassab, o governador já havia mudado sua articulação política no início deste ano, conforme a leitura de políticos com trânsito no Palácio dos Bandeirantes. Na Casa Civil estadual, Tarcísio substituiu Arthur Lima pelo presidente do Republicanos no estado, Roberto Carneiro. Nos bastidores, a nomeação de Carneiro é vista como um recado direto de que ele, e não Kassab, comandará a articulação no ano eleitoral. Procurados pela reportagem, Carneiro e Lima não retornaram os contatos.