Para todas as mulheres que já ouviram a frustrante resposta "é tudo coisa da sua cabeça" em relação a problemas de saúde, um novo estudo divulgado nesta sexta-feira compreende a sua dor. Uma pesquisa publicada na revista Science Immunology mostra que as mulheres de fato experimentam dores crônicas exacerbadas em comparação aos homens – uma diferença que pode ser explicada por diferenças biológicas no sistema imunológico. Dermatilomania: o que é o transtorno psiquiátrico enfrentado por Giulia Costa, filha de Flávia Alessandra Mounjaro: Lexa diz ter queda de cabelo causada pela droga; veja os efeitos colaterais mais comuns das canetas emagrecedoras Leia também: vírus recém-descoberto é ligado ao câncer colorretal "A dor das mulheres tem sido negligenciada na prática clínica", disse o autor principal, Geoffroy Laumet, à AFP, "com a ideia de que é algo mais psicológico, ou que se deve ao fato de as mulheres serem mais sensíveis e emotivas. Mas, aqui, nosso estudo mostra que a diferença é real [...] não é uma construção social. Há um mecanismo biológico real por trás disso." A dor ocorre quando os neurônios reagem a estímulos: bater o dedão do pé ou tropeçar e ralar o joelho, por exemplo. Mas a dor crônica persiste mesmo com pouca ou nenhuma estimulação – e as mulheres representam de 60 a 70 por cento dos pacientes que a sofrem, disse Laumet. O cientista da Universidade Estadual de Michigan disse que sua equipe se propôs a explorar como as células imunológicas reguladas por hormônios, conhecidas como monócitos, impactavam a resolução da dor. Os pesquisadores descobriram que esses monócitos desempenham um papel fundamental na comunicação com os neurônios que detectam a dor e, em seguida, atuam para desligar esses neurônios sensíveis à dor, produzindo a interleucina 10 anti-inflamatória, ou IL-10. Inicialmente, seus estudos não visavam explorar possíveis diferenças relacionadas ao sexo, mas os dados eram claros: a dor demorava mais para passar em camundongos fêmeas, e os monócitos produtores de IL-10 eram menos ativos nelas. Segundo o estudo, essas células são mais ativas nos homens e os níveis mais elevados de hormônios sexuais, como a testosterona, são apontados como uma explicação para esse fenômeno. Laumet espera que a nova pesquisa possa abrir novas portas para um melhor tratamento da dor. A longo prazo, ele afirmou que a pesquisa pode investigar como estimular os monócitos e aumentar a produção de IL-10 para "melhorar a capacidade do corpo de resolver a dor". E, a curto prazo, ele vê potencial para que a testosterona tópica se revele uma opção viável para aliviar o sofrimento localizado. 'Cuidados mais equitativos' Elora Midavaine, pesquisadora da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que também estuda dor crônica, disse à AFP que o novo estudo acrescenta "nuances importantes" à compreensão das interações entre hormônios e o sistema imunológico, e sua influência na dor. Elora, que não participou do estudo, disse que ele se encaixa em um movimento mais amplo focado nas interseções da neurociência com a imunologia e a endocrinologia – uma abordagem que, segundo ela, "tem potencial para avançar nossa compreensão da dor crônica em mulheres". Laumet disse esperar que uma melhor compreensão e novas vias de tratamento possam reduzir as prescrições de analgésicos opioides, que apresentam altos riscos de efeitos colaterais e dependência. De forma mais ampla, ambos os pesquisadores expressaram otimismo de que, à medida que nosso conhecimento sobre a saúde da mulher melhora, elas receberão um tratamento melhor. "Espero que possamos contribuir para eliminar essa ideia comum de que a dor das mulheres é exagerada", disse Laumet. "O padrão de atendimento deve ser adaptado ao sexo." Mas por que demorou tanto para começarmos a entender o funcionamento dos corpos de metade da população? Durante décadas, as mulheres foram excluídas dos ensaios clínicos e a maioria dos estudos sobre dor em animais utilizou apenas machos, observou Midavaine – um viés médico que se baseava na noção de que os hormônios femininos criavam "variabilidade excessiva". O diagnóstico da dor depende quase que inteiramente do relato dos pacientes — mas os sintomas das mulheres são "frequentemente interpretados como emocionais ou relacionados ao humor, em vez de terem origem biológica", disse Midavaine. Mas "o cenário está mudando", disse Midavaine. "À medida que a ciência avança, acredito que isso ajudará a transformar crenças culturais ultrapassadas e levará a um atendimento mais equitativo para as mulheres."