Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky, o casal Loquinha de 'Três Graças', fala sobre spin-off nas redes e luta contra a homofobia e o machismo

O primeiro beijo entre as personagens Lorena e Juquinha, interpretadas por Alanis Guillen, de 27 anos, e Gabriela Medvedovsky, de 33, na novela “Três Graças”, da TV Globo, não só “quebrou” a internet como ultrapassou fronteiras geográficas. Meninas na faixa dos 20 anos de países como Estados Unidos, Portugal, França, Rússia e Suécia discutiam eufóricas na rede social X sobre o romance do casal Loquinha, como foram apelidadas na web. De lá para cá, a comoção só aumentou: a história de amor sáfico tem risos, beijos de verdade, declarações apaixonadas e momentos cômicos, mas também enfrenta preconceito familiar e homofobia. Situações universais vividas por mulheres que amam mulheres. “Normalmente, vemos muitas histórias estereotipadas que mais se distanciam do que se aproximam do público. Esse é um romance bem-construído desde o primeiro encantamento entre elas, o interesse, o toque. A força está nisso, porque há identificação”, diz Alanis. “Vejo como um grande passo na dramaturgia, faltava uma representatividade fidedigna. O fato de serem duas mulheres é revolucionário e político em uma novela do horário nobre. Mostramos como esse amor é tão importante quanto qualquer outro”, afirma Gabriela. Camisa, saia e calça jeans, tudo Isabel Marant, sapatos Aquazzura, brincos Tatiana Queiroz e pulseira Nádia Gimenes Bruna Sussekind Outra prova de que a “febre” Loquinha se tornou global é a existência de um site que representa o mapa múndi, no qual as fãs do casal se cadastram para mostrar sua força. Até agora, elas somavam cerca de 4 mil inscritas em 108 países. A escritora americana Rachael Lippincott, autora de livros como “Meu presente é você”, “Ela fica com a garota” e “Natal das garotas” (todos da Editora Alt), escritos em parceria com a esposa, Alyson Derrick, acompanha a trama de perto, comanda discussões abertas e replica cenas exaltando as personagens nas redes sociais. "Estive no Brasil duas vezes para a Bienal do Livro e aprendi português aos poucos. Já assisti a muito conteúdo sáfico, mas o que torna a história delas bem-sucedida é que tudo é muito real”, comenta Rachael. “Vejo a maneira como Juquinha beija Lorena ao se despedir e lembro que faço o mesmo com minha esposa. É uma autêntica experiência lésbica”, descreve. Jaqueta, sutiã, short e botas, tudo Dolce & Gabbana Bruna Sussekind Na vida real, Alanis também vive um romance com outra mulher. Em 2022, conheceu a produtora e gerente de projetos carioca Giovanna Reis, de 28, por meio de amigos em comum. Entre idas e vindas, decidiram assumir o namoro em janeiro do ano passado. “Eu já estava de olho nela. A Gi tem o olhar forte, algo que eu nunca mais me esqueci (risos). Nos reencontramos e pensei: ‘Por que não estamos juntas? A gente se ama’”, relembra a intérprete da estudante Lorena. “Temos uma relação de admiração, amor e muito desejo, de querer bem. Isso nos fortaleceu.” Alanis explica que, apesar de Giovanna ter se assustado com o assédio do público no início, comemorou a repercussão e a representatividade do casal Loquinha. “Somos discretas, mas sem medo. A gente ainda precisa se posicionar e falar sobre esse assunto, porque vivemos em um país onde ainda há muito preconceito”, acredita a atriz. Com sete anos de carreira, Alanis está em sua quarta novela e acumula 1,4 milhão de seguidores nas redes sociais. Nome querido por marcas como Ferragamo, Gucci e Ellus, tornou-se conhecida do grande público ao viver Juma Marruá no remake de “Pantanal” (2022), também exibido pela TV Globo. Em “Três Graças”, repete a dobradinha com o ator Pedro Novaes, seu irmão no folhetim, com quem contracenou ainda em “Malhação: Toda forma de amar” (2019). “Desde então, cultivamos uma amizade, com amor e respeito. Alanis tem uma forma muito leve de ver a vida. Ela e Gabi são excelentes atrizes, encontraram-se em um ritmo muito bom. A força delas está neste fogo e amor puro, com vitalidade”, ressalta o ator. Alanis veste blazer Saint Laurent Bruna Sussekind Nascida em uma família de classe média de Santo André, na Grande São Paulo, a atriz, cujo nome é inspirado pela cantora Alanis Morissette, foi, ao contrário de sua personagem, acolhida na adolescência ao expor a sexualidade fluida à família. “Meus pais sempre foram amorosos e progressistas. Morava em uma casa onde existia o diálogo e o acolhimento comigo e com meus dois irmãos”, explica. Filha de um engenheiro e músico já falecido, trocava muitas figurinhas com a mãe, arquiteta. Por isso, “sair do armário” não foi um grande drama. “Mesmo quando eu ainda não sabia se estava apaixonada por uma garota, ela já sacava tudo. Fazia questão de acompanhar, se interessava. Às vezes, até num tom de fofoca (risos).” Apesar da proteção em casa, o mesmo não aconteceu na rua. Ainda na adolescência, viveu uma situação homofóbica em um parque enquanto conversava com a companheira. “Meninos na faixa dos 14 anos nos abordaram de forma agressiva. Pedimos respeito e saímos de perto. Mas me marcou muito porque eles eram bem jovens e já reproduziam uma misoginia, um machismo.” Em um país onde, segundo dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero de 2025, quatro mulheres são mortas por dia, Alanis reforça a importância de educar os homens. “O número de feminicídios não é normal. Temos que combater com informação, boas histórias e dados. As redes sociais também têm uma força positiva de informar e transformar”, diz. Mãe de Lorena na ficção, Andréia Horta entende o foco da trama como algo certeiro para 2026. “As meninas brilham. É um momento constrangedor para os preconceituosos, e quem não está de acordo com essa relação é que precisa se adequar”, diz a atriz. Gabriela usa jaqueta Dolce & Gabbana Bruna Sussekind Até mesmo quem se autoafirma heterossexual, como Gabriela Medvedovsky, é atravessado pelo preconceito. Em certa ocasião, a atriz estava com uma amiga almoçando em um quiosque na praia, no Rio, quando ambas foram assediadas por um senhor. “Ele mexeu com a gente, querendo flertar. Pedi para não invadir meu espaço. E aí ele disse que eu era ‘sapatão’. Nenhuma mulher está ilesa”, afirma. A química na ficção entre Gabi e Alanis é tão forte, que atriz teve sua sexualidade colocada em xeque nas redes sociais. E esta não foi a primeira vez. Em 2023, a amizade entre ela e a atriz Mariana Ximenes levantou “suspeitas” dos fãs, que chegaram a torcer por um romance. Mas isso, diz Gabriela, nem de longe é um problema. “Não me incomodou porque sabíamos que não é verdade. Mas as pessoas não conseguem naturalizar uma relação de amizade verdadeira, honesta e profunda entre duas mulheres”, pontua a policial Juquinha de “Três Graças”. Em uma sociedade misógina e machista, reforça , não há espaço para a construção da força feminina. “Veem duas mulheres juntas e só as sexualizam ou as rivalizam.” Embora esteja namorando — ela foi flagrada por paparazzi ao lado do rapaz saindo da academia — prefere manter o assunto na intimidade. “É uma questão muito pessoal. Como uma boa canceriana, esse é um tema para ficar dentro de casa”. Mesmo sem nunca terem trabalhado juntas, Alanis e Gabriela já tinham se cruzado nos Estúdios Globo. Enquanto a primeira estava no ar na novela “Mania de você” (2024), a outra finalizava a série “As five”, spin off de “Malhação: viva a diferença” (2017). Paulistana e filha única, a atriz foi criada em Porto Alegre e, desde a infância, se viu envolvida com as artes. “Fiz balé a vida toda. Mas, pelo meu pai, eu teria sido tenista. O meu nome é inspirado na (ex-tenista argentina) Gabriela Sabatini. Acompanho os torneios, sei jogar, mas é um esporte que hoje está apenas em um lugar afetivo”, conta. Formada em Publicidade, sabia que seu futuro seria nos palcos. Alanis usa regata Calvin Klein, sobreposta a regata Animale e calça Isabel Marant. Gabriela usa camiseta e calça Aläia na NK Store. Ambas usam joias Bvlgari Bruna Sussekind Em 2016, de volta a São Paulo, decidiu estudar teatro e foi escolhida para participar do musical “Godspell: Em busca do amor”. “Entrei na profissão ainda jovem, aos 25, mas um pouco mais madura, já tinha vivido outras experiências no anonimato. Sinto que a Juquinha é um marco: minha atuação não é mais tão ‘teenager’”. O colega de cena Rômulo Estrela, o policial Paulinho do folhetim, elogia sua disponibilidade e atenção. “Gabi é supercarinhosa, educada e gentil. Ela e Alanis estão fazendo um trabalho lindo e de extrema importância. Fico feliz ao ver jovens atrizes tao conscientes.” Para o papel, Gabriela também enfrentou o medo no processo de caracterização. Pintou os cabelos pela primeira vez, com todo o cuidado, porque sofre de alopecia areata, condição genética que provoca queda crônica dos fios. “Nunca tive muito volume capilar, mas isso começou a me incomodar quando meu couro cabeludo ficou mais aparente. Faço acompanhamento com uma médica desde 2018, com remédio e microagulhamento. E todo o processo de mudança de visual foi feito com autorização dela.” “Três Graças” deve terminar só em maio, mas, enquanto isso, as fãs da história de amor poderão curtir o casal Lorena e Juquinha em dose dupla. Em breve, as atrizes começam a gravar um spin-off das personagens no formato vertical, para ser exibido no Instagram da Globo. “Ainda não sabemos detalhes, mas é um pedido das fãs, um presente”, adianta Gabriela.