‘A caixa de Moacyr, legado do Mestre Caveira/ Sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você/Ciça, gratidão pelas lições que eu pude aprender”. 'Vai que a gente conversa': Em bloco no Rio, Anitta confirma que está solteira, mas deixa portas abertas para ex Bembé, costeiro, baluarte, mulungu: saiba quais são os termos mais buscados por internautas em pesquisas relacionadas ao carnaval Ciça, Mestre Ciça, Mestre Caveira, Moacyr, “o velho”... Em quase 40 anos à frente de baterias, o homem que personifica o enredo campeão de 2026 da Unidos do Viradouro tem muitas alcunhas e discípulos. — Ele formou muita gente — diz o ritmista e supervisor de basquete do Fluminense Erick Cardoso, que desfila com Ciça há 31 anos. — Tem uma galera que começou com ele lá atrás, na Estácio, e até hoje desfila na Viradouro. Ou nas duas. Curiosidade: No dia seguinte ao desfile da Viradouro, buscas por "Mestre Ciça" no Google foram as mais altas em 20 anos Unidos de São Carlos Criado no Estácio, Ciça “foi passista e brincou em ala”, como diz um antigo samba-enredo, antes de se tornar ritmista. Em 1988, assumiu a bateria da antiga Unidos de São Carlos (agora Estácio de Sá), onde esteve em sua fase mais gloriosa: sob a regência dele, a escola do berço do samba — fundada em fevereiro de 1955, pouco mais de um ano antes do nascimento do menino Moacyr da Silva Pinto — tornou-se frequentadora do Desfile das Campeãs, no qual se apresentou em 1990 e 1991, como quinta colocada, além da principal glória de sua história, o título de 1992 com “Pauliceia desvairada”, sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, com os carnavalescos Mário Monteiro e Chico Spinoza. A velha Estácio ainda chegou em sexto em 1993, mas apenas as cinco primeiras colocadas voltavam à Sapucaí no sábado seguinte. — Antes do Ciça, quem comandava a bateria da Estácio era Nelson Galinha — lembra o mestre Odilon Costa, antigo maestro de baterias como a da União da Ilha do Governador e a da Grande Rio, professor e integrante do júri do Estandarte de Ouro. — Eles sempre foram bons de caixa. Carnaval 2026: buscas por Viradouro aumentaram mais de 40 vezes após desfile no Sambódromo e título no Grupo Especial Aí entra a “caixa de Moacyr” mencionada no samba-enredo. Para os menos entendidos do mundo da percussão, não é uma caixa de bombons ou um objeto para se guardar qualquer coisa. A caixa é aquele instrumento pequeno, que se toca com duas baquetas e pode ser pendurado no pescoço ou colocado acima de um dos ombros. — A caixa de guerra do Ciça tem o toque do partido alto. Essa é a assinatura sonora das baterias que ele comanda — diz Juan Rangel, um dos diretores de bateria da Viradouro, que assumiu, ao lado de Marquinhos de Souza, o grupo quando Ciça começou o desfile, sambando com a comissão de frente. — Seguramos enquanto ele estava lá se divertindo e recebendo as merecidas homenagens, até pegar a motoca e voltar para reger a bateria na subida ao carro alegórico. Carnaval 2026: novo som, marketing e profissionalização na Avenida ganham elogios de quem faz a festa Juan explica que são dois tipos de caixa, a de 12 e a de 14 polegadas. A primeira, mais leve, é a que normalmente é tocada sobre o ombro do ritmista. — Tem uma história que diz que uma bateria tinha muita gente com problemas com a polícia — conta Juan, de apenas 34 anos, jovem demais para ter vivido os tempos terríveis em que sambistas eram presos à toa. — Então, o pessoal subiu a caixa para o ombro para não aparecer na transmissão da televisão. Mas deve ser lenda. Thiago Gomide: Reduto da campeã Viradouro, Niterói é terra boa de samba e de episódios históricos A caixa de 12 polegadas, ou caixa de guerra — usada por fanfarras tradicionais para imprimir aquele ritmo marcial, daí o nome — do Estácio, que Ciça leva consigo, é tocada em levada de partido-alto, diferente da tradicional. — É um ritmo mais sincopado, menos reto do que a levada tradicional da caixa — ensina o mestre Odilon, fazendo o “tum-tum-pá” no papo por telefone. A ascensão — literal e metafórica — da caixa, que se deve muito às baterias de Ciça, acabou levando um primo dela quase ao esquecimento completo: o tarol. O instrumento um pouco maior e mais pesado praticamente não aparece mais nas baterias. — Algumas escolas ainda usam o tarol, como a Vila Isabel e o Salgueiro — afirma o ritmista Erick Cardoso. — Mas acho que ele acabou sublimado por causa do volume. A caixa, como é mais aguda, é mais audível. 'Velas apagadas' e 'canto insuficiente': os detalhes que tiraram o título de Vila Isabel e Beija-Flor Erick é um dos que exaltam o professor Ciça. — Quando cheguei ao Estácio, eu tocava tamborim — lembra ele. — Um dia, ele chegou para mim e disse: “Já te vi tocando caixa nos ensaios, você não quer trocar?”. Foi um orgulho, porque é o instrumento dele. Todas as escolas pelas quais o Ciça passou têm uma herança do toque de caixa dele. Ao lado de Ciça desde a adolescência, Juan é outro a aplaudir a relação do mestre com os ritmistas. — Comecei a ensaiar com ele na bateria da Viradouro quando tinha 15 anos — conta ele. — Mas naquele ano, 2007, não pude desfilar porque fui reprovado na escola, e a Viradouro só deixava quem passasse de ano, pedia para ver o boletim e tudo. Quer dizer, saí numa ala: a Disse Me Disse, porque meus pais não tinham com quem me deixar, e me botaram para desfilar na ala deles. Mocidade 'canetada': dos memes de Rita Lee à crítica de Anitta, confira as reações Apesar desse ligeiro contratempo escolar, Juan seguiu por anos ao lado de Ciça, saindo também na Unidos do Porto da Pedra, escola de São Gonçalo, seu município natal. — Ciça é um cara superpaciente, totalmente voltado para a pessoa — define ele. — O cara tocar pra caramba é um detalhe. Ele diz que a gente precisa só tocar 50% do que sabe que o desfile será perfeito. Os outros 50% são comprometimento, lealdade, respeito. Soberana: Rainha de bateria novata na Sapucaí, Virgínia Fonseca fica no topo das buscas no Google após polêmicas durante desfile Na batida da vida Assim, o mestre formou músicos como o próprio Juan, que por anos integrou o Bloco da Preta, viajando pelo Brasil e pelo mundo, e o grupo de pagode Estrelato, também de São Gonçalo: — Na época da pandemia, eu estava duro, com uma banca de salgados na porta de casa. Eles me chamaram para tocar e me ensinaram muito. Carnaval: além do Brasil, buscas pelo nome da festa aumentaram em 46 países, segundo levantamento do Google Outros profissionais do batuque, como Gabriel Policarpo e Thiago Carvalhal, também saíram das fileiras de Ciça para os palcos. O primeiro, que entrou para a bateria da Viradouro aos 13 anos, acumula shows e gravações com artistas como Marcelo D2, Martinho da Vila e Maria Bethânia. Carvalhal, também formado por Ciça, já integrou o grupo Sambaí, comanda sua roda e é um dos compositores da escola. Com a vitória, veio uma discussão sobre uma possível aposentadoria de Ciça, que já disse que a decisão está “nas mãos de Deus” e que, por enquanto, só pretende parar de fumar. — Nem falamos disso, por respeito, afinal ele é o cara — diz Juan. — Mas, se a oportunidade chegar, estarei pronto.