O processo de venda de carteiras de crédito do BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, tem chances relevantes de impactar negativamente as condições de capital da instituição, ou seja, a sua capacidade de enfrentar os compromissos de longo prazo e ser sustentável. Resgate: Governo do DF propõe projeto de lei para capitalizar BRB e oferecer imóveis públicos como garantia Caixa: Banco negocia comprar carteiras de crédito do BRB, após escândalo do Master O movimento de venda está em curso para melhorar as condições de liquidez (disponibilidade de recursos no curto prazo) da instituição. Os dados sobre o esforço para se desfazer dos ativos, sobretudo os decorrentes de operações de financiamento, não estão públicos. Nos bastidores, pessoas a par da situação do banco apontam que, dadas as desconfianças do mercado sobre os ativos que o BRB recebeu do Banco Master, a vasta maioria das operações de venda está concentrada em ativos do próprio BRB, de melhor qualidade, como empréstimos consignados e créditos imobiliários. Com esse movimento o banco tem conseguido estabilizar sua situação de curtíssimo prazo, enquanto coloca de pé sua estratégia. O processo tem seguido acompanhado passo a passo pelo Banco Central, que vê de fato uma melhora nas condições de disponibilidade de recursos. Parceria: Acordo Brasil e Índia sobre terras-raras prevê investimentos recíprocos e uso de IA para análise de dados Como O GLOBO mostrou na edição de ontem, uma das frentes de negociação é com a Caixa Econômica Federal, além de constantes negociações com instituições financeiras do setor privado, algumas já concretizadas. Descontos elevados Porém, esse movimento tem potenciais efeitos colaterais na estrutura patrimonial do banco. De um lado, com o banco pressionado a garantir sua liquidez de curto prazo, o mercado acaba pedindo descontos para adquirir os ativos, mesmo sendo de boa qualidade. Nesse contexto, a transformação de um crédito a receber em disponibilidade financeira tende a ocorrer com redução do total do valor que estava contabilizado como ativo. E isso tem que ser registrado como perda, prejuízo que reduz o capital do banco. Por exemplo: o banco vende uma carteira de crédito que vale 100 por 80. A diferença de 20 é a perda que precisa ser contabilizada, reduzindo o capital do banco. Vale: Empresa assina acordo estratégico com Adani Ports e NMDC para complexo de minério de ferro na Índia Outro efeito é que, ao vender as carteiras de maior valor de mercado, o balanço da instituição ficará com maior peso de ativos de menor qualidade do ponto de vista da composição de capital do banco. Como o índice de Basileia, o mais importante indicador de solidez de uma instituição, pondera os ativos pelo seu risco de perda, esse quadro tende a piorar a situação patrimonial do banco. Assim, a corrida pela liquidez, ainda que seja necessária para manter o banco funcionando, eleva os riscos de ser necessário um aporte de capital pelo acionista controlador ainda maior do que o indicado pelo Banco Central. A autoridade monetária detectou sinais de que a instituição precisará de aporte da ordem de R$ 5 bilhões para cobrir um provável desenquadramento das regras de Basileia relativos aos ativos do Master. A instituição brasiliense, porém, não confirma os números e tem dito que pode não ser necessário um aporte caso consiga vender os ativos do Master com um deságio menor do que o que foi originalmente contabilizado quando entraram no balanço, tese que não tem sido comprada pelo mercado e por diversas pessoas a par do caso. Milei: Reforma trabalhista será capaz de gerar empregos na combalida indústria argentina? Terras-raras e minerais críticos: por que eles são importantes? Empréstimo do FGC O BRB ainda não apresentou seu balanço relativo ao segundo semestre do ano passado, o que deve ocorrer até o fim de março. Já os resultados das vendas de carteiras em 2026 só aparecerão no balanço do primeiro trimestre, a ser divulgado em meados do ano. No início do mês, a instituição apresentou um plano de recomposição de capital para o Banco Central, a ser implementado caso seja efetivamente constatada a necessidade de se cobrir um desenquadramento das regras de Basileia. O avanço disso, porém, depende em grande medida do governo do Distrito Federal (GDF), o principal acionista do banco. Criticado pela demora em agir, o GDF enviou na última sexta-feira um projeto de lei à Câmara Legislativa em que pede autorização para tomar medidas que permitam a capitalização do banco. A principal aposta é em um empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em que o GDF aparece como tomador e transfere os recursos para o banco. Porém, a sobrecarga causada pelo Master torna as negociações mais complexas. No PL enviado, há previsão de entrega de 12 imóveis em garantia para esse crédito. Inteligência artificial: OpenAI prevê que sua receita ultrapassará US$ 280 bilhões em 2030 Procurado, o BRB afirmou que “o plano de reforço de capital segue em curso desde o momento em que foi apresentado ao Banco Central um conjunto de alternativas preventivas, que inclui tanto soluções de mercado quanto, se necessário, o aporte do controlador”. A instituição destacou que a venda de ativos “permanece como uma das alavancas possíveis passando por rigorosa análise técnica caso a caso, avaliando as condições comerciais e ponderando todos os indicadores regulatórios”. O banco também reforçou que segue operando normalmente, “com rigoroso acompanhamento de seus indicadores prudenciais e preservando a continuidade das operações e a proteção de clientes, investidores e parceiros”.