Catira: como dança se transformou em representação da cultura caipira

Catira: como dança se transformou em representação da cultura caipira O som da viola marca o compasso. Duas fileiras se formam. Palmas sincronizadas, sapateado forte no chão. A batida ecoa como se contasse uma história antiga — e conta. A catira, também conhecida como cateretê, atravessa séculos e hoje é um dos símbolos mais reconhecidos da cultura caipira no interior do Brasil. Mais do que uma dança, ela é memória viva. Raiz indígena, viola portuguesa e formação histórica Praticada desde o Brasil colonial, a catira tem origem pluricultural. Segundo o antropólogo e historiador Túlio Fernando, embora seja fortemente associada ao universo caipira, sua principal proveniência é indígena. Entre povos originários, era praticada com diferentes ritmos e movimentações corporais. Com os jesuítas, passou a ser utilizada como instrumento de catequização. A viola, introduzida pelos portugueses, consolidou a estrutura que hoje conhecemos: duas fileiras, palmas ritmadas, sapateado marcado e canto acompanhando. Ainda assim, o ritmo e os passos variam conforme a região. ✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp “Ela é raiz, é identidade” Para Suzzi Nunes, do Grupo de Catira Nunes, a manifestação ultrapassa qualquer definição técnica. “A catira, para nós, é muito mais do que uma dança. Ela é raiz, é identidade, é herança viva, herdada dos nossos antepassados. Bate forte no peito e emociona o coração.” Ela afirma que cada apresentação carrega memória e respeito. “Quando dançamos, temos em cada batida uma saudade, um olhar atencioso e um coração grato por estar honrando essa tradição familiar.” Mas Suzzi faz um alerta: o interesse dos jovens tem diminuído. Segundo ela, mesmo em famílias tradicionalmente ligadas à Folia de Reis, poucos descendentes seguem na dança. Foi essa preocupação que motivou a criação de um grupo feminino na família. “Os mais velhos ainda tentam passar a cultura. Você vê o brilho no olhar deles quando assistem. Mas infelizmente os jovens estão cada vez mais alheios a essa tradição.” Criado por mulheres da família, o Grupo de Catira Nunes reforça o protagonismo feminino na preservação da catira em Goiás Reprodução/Instagram de Grupo de Catira Nunes LEIA TAMBÉM: Folia de Reis: como celebração religiosa e cultural atravessa gerações, em Goiás Conheça a história de famílias que fizeram a fama da cidade conhecida como a Capital do Doce Capital da Logística: conheça cidade goiana onde se concentram mais de 15 centros de distribuição de varejo, como Amazon e Shopee “Marco da tradição goiana” Quem também aprendeu a dançar ainda na infância foi Joaquim de Sousa Viana. Ele começou aos cinco anos, seguindo os passos do pai, em São Francisco de Goiás. “Eu comecei a dançar catira com uns cinco anos de idade. Quem me ensinou foi meu pai. Ele já dançava e aprendeu com os mais antigos da nossa região.” Para ele, a catira está diretamente ligada à Folia de Reis, manifestação que sua família realiza todos os anos entre 1º e 6 de janeiro. “Na nossa folia, o catira é o marco da tradição. É a cantoria e o catira.” Mesmo após sofrer um acidente que o impediu de continuar dançando, ele segue participando da parte musical da folia e ajudando na formação dos mais novos. “A gente está treinando os meninos mais novos para não acabar a tradição.” Quando convidado a definir a catira em uma palavra, ele não hesita: “Marco da tradição goiana.” Na primeira imagem, Joaquim participa na viola e na cantoria — mesmo sem dançar, segue mantendo viva a tradição que aprendeu ainda na infância. Na segunda, o sapateado marca o compasso da catira, expressão que atravessa gerações. Arquivo Pessoal/Joaquim de Sousa Viana Catira que nasce dentro da folia No Grupo de Catira João Nogueira, de Bela Vista de Goiás, a tradição começou na década de 1970, com João de Sousa e Geraldinho Nogueira. Hoje, quem está à frente é o neto, João José de Oliveira, de 48 anos — 40 deles dedicados à dança. Ele aprendeu ainda criança, dentro de casa. “Quem ensinou para a gente foram nossos pais, tios e avós. É uma dança que vem da família, do nosso passado.” Segundo ele, o primeiro contato da maioria dos integrantes com a catira aconteceu dentro da Folia de Reis. “O primeiro contato deles foi nas folias de reis. Foi aí que ela se firmou e se espalhou.” O grupo mantém tanto formação masculina quanto feminina, e João ensina os mais novos. "A gente tenta manter aquela tradição raiz, a essência mesmo do grupo.” Ele reconhece mudanças ao longo dos anos, principalmente com a influência da internet e o contato com outros grupos, mas ressalta que a identidade original é preservada nas apresentações. Quando questionado sobre o que a catira representa em sua vida, responde em uma palavra: “Felicidade.” Um dos primeiros registros do Grupo de Catira João Nogueira, tradição iniciada na década de 1970 e mantida até hoje por filhos e netos Arquivo Pessoal/João Nogueira Entre fé e cultura popular A catira é típica do interior paulista, mineiro, goiano e mato-grossense, marcada pelo sapateado e pelas palmas organizadas em fileiras. É o que explica Izabel Signoreli, historiadora, folclorista e Presidente da Comissão Goiana de Folclore. “Ela é uma dança folclórica brasileira, típica do interior paulista, mineiro, goiano e mato-grossense. É uma tradição repassada de pais para filhos, acompanhada pela viola, uma expressão da cultura sertaneja.” Segundo ela, como grande parte das manifestações populares brasileiras, a catira reúne influências indígenas e portuguesas. Tradicionalmente executada por homens, hoje também conta com grupos femininos. Apesar disso, reconhece que a prática está mais concentrada dentro das Folias de Reis e menos presente fora desse contexto. Tradição que resiste Em comum entre todos os entrevistados está a ideia de continuidade. A catira é dança, é fé, é família. É a batida que ensina respeito, religiosidade e pertencimento. Para muitos, não é apenas performance: é legado. E enquanto houver alguém disposto a bater palmas e marcar o sapateado no chão, a cultura caipira seguirá ecoando. Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias de Goiás