'Ainda perdemos oportunidades de tratar os fatores de risco do AVC', diz professora de Yale

Prevenção é a palavra-chave para barrar o avanço de casos de acidente vascular cerebral (AVC), de acordo com Lauren Sansing, líder da International Stroke Conference (ISC), que aconteceu no começo deste mês em Nova Orleans, nos Estados Unidos. O evento médico é ligado à Associação Americana do Coração (American Heart Association) e apresentou inovações na identificação, no tratamento e na reabilitação do AVC. Apesar dos avanços, impedir que as pessoas cheguem ao estágio emergencial desse problema ainda figura como um ponto decisivo que precisa de mais atenção, diz a especialista. — Ainda estamos perdendo oportunidades de tratar os fatores de risco do AVC. De fazer, por exemplo, o manejo dos casos de hipertensão — afirma Lauren, que também é professora de neurologia da Universidade de Yale. — Muitos pacientes têm uma pressão arterial que não é tratada adequadamente por resistência própria, porque a pessoa não sabe que tem o problema ou porque não consegue tomar os medicamentos. O vice-líder da conferência, médico e professor da Universidade de Calgary, no Canadá, Bijoy Menon, lembra que, apesar do cenário global ainda pedir mais esforços na prevenção, os avanços do tratamento do AVC nos últimos 25 anos foram grandes. — Lembro quando eu era um jovem estudante de medicina e meu primo disse: “você está entrando em uma área onde não há nada para se fazer [pelo paciente], certo?” Agora posso dizer para ele que temos muito a fazer — relata o especialista. No entanto, a questão do acesso permanece: — De todo modo, considerando todos os avanços que temos hoje, incluindo o que vimos na conferência, o objetivo é realmente conseguir levar esses tratamentos aos pacientes. Temos um atraso nessa área. Os pacientes ainda não chegam ao hospital a tempo do atendimento ou os medicamentos ainda não são acessíveis em países de média e baixa renda. Temos de reduzir os custos. Bijoy ainda lembra que a detecção do quadro de saúde também figura como um grande desafio para os países de baixa e média renda. — A detecção dos casos de AVC ainda é um grande problema e, em alguns casos, o paciente depois de detectado ainda tem que ser transferido para um hospital onde é possível fazer os cuidados de saúde — conta. Nova molécula Ambos comentam que, no evento, houve muito entusiasmo ao redor da nova molécula chamada loberamisal, um medicamento neuroprotetor que foi estudado em cerca de mil pacientes, na China. A droga, oferecida de maneira intravenosa e ainda em estudo, pode ser ministrada 48 horas após o acidente vascular e pesquisas indicam que pode ter impacto na recuperação funcional. O prazo de 48 horas é boa notícia, uma vez que o atendimento para AVC precisa ocorrer em tempo bastante curto para ter redução de sequelas. — É algo que tem potencial para mudar o jogo — afirma Lauren. Os dois especialistas também comemoram que o acesso a novos tratamentos, embora ainda precise melhorar, avança mais rápido do que em outros tempos. — Todo o conhecimento que produzimos na conferência será disponibilizado globalmente. Tivemos, por exemplo, sessões especiais com entidades internacionais, inclusive do Brasil — afirma Bijoy. O professor diz ainda que é importante motivar pesquisadores locais a investir em estudos regionais, como forma de inspirar governos locais a acompanhar o que há de mais recente nos protocolos médicos. — A melhor maneira de realmente cuidar dos pacientes é fazer a pesquisa clínica local. Realizar estudos brasileiros é a melhor forma de influenciar políticos e fazer mudança. Os cientistas locais precisam ser encorajados. A doutora Sheila Martins [do Hospital Moinhos de Vento, no Rio Grande do Sul] é um exemplo disso. Seu trabalho transformou a saúde no Brasil — afirma. — Precisamos de mais pessoas como ela. Os especialistas também demonstraram preocupação com o rejuvenescimento do público que passa por AVCs — um problema de saúde que está ligado ao estilo de vida e à falta de monitoramento dos fatores de risco, além de outros indicadores. — Vemos um cenário de pessoas que no auge de suas vidas viverão com deficiências pós-AVC e que se prolongarão por décadas. Melhoramos o atendimento ao acidente vascular cerebral, o que é uma coisa boa, mas isso aumenta o número para incluir pessoas que ficaram com deficiências — afirma Lauren. A médica enumera causas para o fenômeno do rejuvenescimento de casos: — Acho que estamos em uma sociedade mais sedentária. Em alguns locais nem há boas calçadas para caminhar, é preciso dirigir para todo canto. Estamos sentados o tempo todo e isso nos leva ao aumento de casos de diabetes, obesidade e síndrome metabólica. Há mais comida processada também. Além disso, há a barreira de ir ao médico com um desses fatores de risco e ser efetivamente tratado [como deveria ocorrer]. Tratamento Ao longo dos três dias de evento houve a divulgação de importantes soluções ou de novas formas de tratar AVC e seus efeitos, com terapias e adaptações. Uma análise apresentada por Ángel Chamorro, professor de Neurologia na Universidade de Barcelona, mostrou que há benefício na combinação da trombectomia (cirurgia minimamente invasiva para AVC) e com a rápida infusão de um medicamento já conhecido e comum no tratamento do AVC, chamado alteplase, usado para dissolver coágulos. Tanto a operação quanto o medicamento são liberados no Brasil. A abordagem foi avaliada em pacientes que sofreram bloqueios de grandes artérias, que são 1 em cada 4 AVCs isquêmicos. — O material da pesquisa deveria já ser o suficiente para os médicos tomarem suas decisões de mudar suas práticas e decidir se essa abordagem deveria ser incorporada em guidelines. Minha opinião é que eles vão incluir, talvez leve um tempo — afirmou. Outra novidade do evento foi o resultado de uma nova pílula de uso diário que mostrou capacidade de reduzir em 26% novos casos de AVC isquêmico. Trata-se do primeiro tratamento do tipo para evitar a repetição de um acidente vascular sem aumentar o risco de sangramentos, algo bastante comum nesses pacientes. A droga é chamada de Asundexian e foi desenvolvida pela Bayer. A farmacêutica planeja submeter a pílulapara análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mas ainda não deu prazo para realizar o pedido. — É muito fácil de usar. Não há grupo em que não tenha funcionado. Isso quer dizer que nós, médicos, não precisamos ser muito seletivos — afirmou Mike Sharma, professor de neurologia na Universidade de McMaster, no Canadá, investigador principal do estudo. —Outra coisa que nos chamou a atenção é que a droga não aumenta o risco de sangramentos [o que acontecia com outros tratamentos]. Alguns deles são visíveis, por hematomas, que faziam as pessoas deixar de usar shorts. São aspectos que causam ansiedade e podem levar à pausa do tratamento. *A repórter viajou para o International Stroke Conference, ligado à Associação Americana do Coração, a convite da Bayer.