Livro reúne 300 fotos inéditas do Centro do Rio antes da demolição para a passagem da Avenida Presidente Vargas

Poucas décadas após a Reforma Pereira Passos, um novo “bota-abaixo” mudou novamente o Centro do Rio e, apesar de ser menos lembrada que a primeira, foi uma transformação urbana igualmente impactante, deixando marcas sociais e culturais profundas na cidade. Entre 1941 e 1944, durante o Estado Novo, 525 prédios foram destruídos para a construção de uma larga avenida, que seria batizada como 10 de Novembro, data do autogolpe com o qual Getúlio Vargas consolidou seu poder nos moldes de uma ditadura, mas que acabou recebendo o nome do presidente após sua conclusão. Ao mestre, com carinho: Mulambö conta como é pintar o retrato de Heitor dos Prazeres durante desfile da Vila Isabel Van Gogh: Obsessão pelo amarelo é tema de nova exposição do artista em Amsterdã Da antiga Praça Onze até a Igreja da Candelária (um dos poucos monumentos preservados por clamor popular), habitações populares, espaços públicos, escolas, igrejas e até prédios do governo, como o antigo Paço Municipal, sede da prefeitura entre 1892 e 1942, foram abaixo. Toda essa reestruturação urbanística empreendida na gestão de Henrique Dodsworth, interventor municipal nomeado por Vargas, foi registrada por Aristógiton e Uriel Malta, filhos de Augusto Malta, o primeiro fotógrafo oficial da cidade, entre 1903 e 1936, e que, por sua vez, documentou a Reforma Pereira Passos. As mais de 14 mil imagens feitas pelos irmãos Malta foram redescobertas há cerca de três anos no acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), preservadas em 11 álbuns, em negativos e positivos em nitrato de prata. Após dois anos de restauração, identificação e catalogação, 300 fotos foram selecionadas para o recém-lançado livro digital “Achados & perdidos — Imagens inéditas do Rio de Janeiro” (2026, Aprazível Edições), projeto contemplado pelo edital Pró-Carioca da Secretaria Municipal de Cultura (SMC). Com direção editorial de Leonel Kaz e gráfica de Sula Danowski, a publicação, que pode ser acessada gratuitamente no site do AGCRJ, irá ganhar uma versão impressa em dois meses, com tiragem de mil exemplares. — Essas imagens pertenceram à antiga Secretaria de Viação e Obras e vieram para o Arquivo. Mas trabalhar em um acervo com oito milhões de documentos é descobrir e redescobrir coisas o tempo inteiro. Ao nos depararmos com esse material, tivemos a dimensão do verdadeiro tesouro que ele é, que precisava chegar ao público — destaca Elizeu Santiago de Sousa, presidente do AGCRJ. — Não havia nenhuma identificação além do que está nas fotos. Primeiro, fizemos uma checagem com a documentação do próprio Arquivo, de textos, processos, correspondência. Depois, buscamos na hemeroteca tudo o que saiu na imprensa relacionado a esse período. Praça Onze: Rara imagem do berço do samba, com o Canal do Mangue ao fundo Acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro Não é possível precisar a autoria de cada irmão na maioria das fotos, à exceção do sobrenome “Malta” escrito na vertical em algumas imagens por Aristógiton (que, à época, chefiava o antigo Gabinete Fotográfico da Prefeitura), como explicam em seu texto no livro os pesquisadores Rafael Martins e Pedro Marreca, diretores do Centro de Documentação e do Centro de Ensino e Pesquisa do AGCRJ, respectivamente. Galerias Relacionadas A publicação traz registros raros como a casa da Tia Ciata, no número 117 da Rua Visconde de Itaúna; um dos berços do samba carioca; a Praça Onze e o Canal do Mangue ainda margeado por palmeiras imperiais, cartão-postal do Rio de Janeiro até a primeira metade do século XX; o Campo de Santana, antes e depois da derrubada de 18 mil metros quadrados de área verde; e templos como a Igreja de São Pedro dos Clérigos, de 1733, joia do barroco nacional, com seus interiores decorados por Mestre Valentim. A obra ainda mostra transformações urbanísticas em outras áreas da cidade, tanto na ocupação da Zona Sul, por vezes registrada como uma área quase rural, quanto no avanço para o subúrbio, com a abertura da Avenida Brasil. — São Pedro dos Clérigos estava na primeira lista de tombamento do Iphan, em 1938, pouco tempo depois da sua criação, como uma das igrejas mais importantes do país. Para, em seguida, ser destombada e demolida, mesmo com um manifesto contrário assinado por Manuel Bandeira, Portinari, Vinicius de Moraes. Foram destruídos prédios históricos e outros inaugurados poucos anos antes, na Reforma Pereira Passos — ressalta Leonel Kaz. — Vemos fotos que parecem cenários da guerra que estava acontecendo do outro lado do Atlântico. E é uma coisa recorrente no patrimônio histórico do Rio, parece uma cidade que é refundada a cada manhã. Esse é um livro importantíssimo, que não fala só de arquitetura e urbanismo, mas de como as pessoas viviam, de como esses espaços eram ocupados. Imagem da casa que abrigava o terreiro de Tia Ciata, na Rua Visconde de Itaúna Acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro Para o Secretário Municipal de Cultura, Lucas Padilha, a importância do livro vai além de revelar um tesouro iconográfico até então desconhecido do grande público. — Conhecendo o passado podemos planejar melhor o presente e o futuro. No livro, vemos imagens de utopias que duraram dez anos, a cidade que Vargas imaginou deixou de ser a capital do Brasil — comenta Padilha. — Memória é um serviço público, é como ter acesso a um posto de saúde, a uma escola. Uma instituição como o Arquivo pode e deve auxiliar à pesquisa, à academia, mas também revelar parte de seu acervo a um público maior, interessado na memória da cidade.