Um belo dia, estava viajando pelo estado de Alagoas, começando pela capital, Maceió. Daqueles dias em que o corpo desacelera antes da cabeça, sabe? Deslumbrada com o mar azul e com um horizonte que hipnotiza de tão perfeito. Até que, num impulso meio óbvio pra mim, decidi: vou ao centro da cidade. Chamei um motorista por aplicativo. Entrei no carro achando que seria só um deslocamento. Mas não foi. Foi conversa para refletir. “Para onde a senhora vai?”, ele perguntou. “Para o centro da cidade.” Ele fez uma pausa curta, daquelas que já dizem muita coisa.“Mas por quê?” Respondi sem pensar muito: “Porque toda cidade tem um centro que conta sua história. Porque ali, geralmente, mora um pouco do que ela foi, do que tentou ser e do que ainda pode virar”. Ele riu. Um riso sem deboche, mais resignado. Disse que a beleza da cidade não estava no centro. Estava nas praias. Em Maceió, em Maragogi, cada vez mais disputada por celebridades. “Aqui a graça é a praia. O centro não tem nada.” Perguntei o motivo. Ele respondeu com uma frase que ficou ecoando em mim até agora: “Sei não. Só sei que foi assim.” Segundo ele, o centro era feio. Casas não terminadas, coisas quebradas, nada funcionando direito. “Não vale a pena”, disse. “Eu não recomendo.” E o trajeto confirmou muito do que ele falou. À medida que o carro avançava, a paisagem mudava. Ruas sem asfalto, esgoto a céu aberto, construções interrompidas no meio do caminho, como se alguém tivesse desistido delas, ou das pessoas que moram ali. Não era bonito. Não era acolhedor. Não era digno, fato. Mas isso também conta uma história. Aquilo me atravessou porque não é sobre Maceió. É sobre o Brasil. E, arrisco dizer, sobre boa parte do mundo. Vivemos cercados por ilhas de prosperidade. Muros altos, piscinas de borda infinita e conforto garantido. Tudo, e, logo ao lado, às vezes a poucos quilômetros de distância, o nada. Não o “menos”, não o “pouco”. O nada mesmo: a ausência de dignidade. Não estou falando só de desigualdade econômica. Estou falando de uma lógica perversa que naturaliza a convivência entre o luxo absoluto e a precariedade extrema. E o que mais me inquietou naquela conversa foi a frase: “Só sei que foi assim”. Porque ela carrega uma espécie de anestesia coletiva. Como se o passado justificasse a permanência do absurdo. Mas não justifica. Não precisamos ensinar às próximas gerações que algumas vidas merecem tudo e outras quase nada. Não precisamos naturalizar o inaceitável. Minha esperança é que a gente use o que tem nas mãos para virar esse jogo. Que a gente vote não só por promessa, mas por compromisso. Que cobre. Que se indigne. Que não aceite ilhas de prosperidade cercadas por abandono como se fossem paisagem inevitável. Porque não são. Ainda que a gente não saiba exatamente como a realidade chegou a ser assim, a gente sabe, sim, que não precisa continuar sendo. Podemos, sim, deixar de normalizar o que não pode ser naturalizado.