A carioca Vera Valdez, morta no mês passado aos 89 anos, não foi apenas uma modelo de cabine de Coco Chanel. Ela foi peça-chave na recuperação da casa de moda daquela que foi uma das mais importantes, senão a mais importante, estilista do século XX. Em 1954, Chanel voltou à moda depois de um autoexílio na Suíça por causa da Segunda Guerra e de seu envolvimento — inclusive afetivo — com oficiais nazistas. A França ainda desconfiava dela, a imprensa torcia o nariz. Na concorrência, o New Look de Dior dominava as capas, Balenciaga erguia esculturas de tecido, e a silhueta enxuta de Mademoiselle parecia coisa de outra época. A coleção de retorno, entregue em 5 de fevereiro, foi recebida com frieza. O veredito era cruel: Chanel tinha envelhecido. A reviravolta começou longe das críticas oficiais, num território que a estilista sempre entendeu bem: a vida real. A roupa que parecia datada na passarela começou a ganhar corpo nas mesas de restaurante, nos coquetéis, nas calçadas de Paris. Jovens mulheres modernas passaram a vestir os tailleurs de tweed fora do ritual do desfile, misturando-os a pantalonas, sapatos baixos, uma nova ideia de liberdade. Entre elas estava uma brasileira recém-chegada do Rio, filha de diplomatas, criada entre Brasil, Portugal e França: sua manequim de provas Vera Valdez, nascida Vera Maria Tereza Barreto Valdez. Vera não usava Chanel como fantasia de elegante, mas como extensão do próprio corpo. Magra, elétrica, com humor insolente e liberdade que não pedia licença, virou rapidamente uma das modelos favoritas da maison. Aquelas fotos de Mademoiselle ajoelhada no ateliê, ajustando barras e colarinhos, precisavam de um contraponto: alguém que, do lado de fora, comprovasse que as roupas encontraram a rua. Vera era esse corpo de prova. Com os tailleurs, subia e descia escadas, atravessava salões, dançava, fumava, ria alto. Chanel entendeu que, naquele temperamento carioca, estava também o futuro da marca. No final dos anos 1950, quando surgiu a ideia da famosa “cabine de mulheres do mundo”, uma estratégia se consolidou. Em vez de apenas manequins profissionais, Chanel convocou jovens socialites, atrizes, meninas de cidades e países diferentes para encarnar sua moda. Vera, ao lado da também brasileira Mimi Ouro Preto, tornou-se o coração latino dessa turma. As duas rodavam as noites parisienses com tailleurs curtos, saias com fenda; elas eram “as jaquetas Chanel” personificadas, circulando pelas festas com alegre insolência. Copiá-las era pertencer ao futuro. O fotógrafo Willy Rizzo registrou tudo. Enquanto Mademoiselle reorganizava a casa por dentro, ele montava, quadro a quadro, o filme de uma retomada em que Vera atuou com uma das protagonistas. Décadas mais tarde, o curador de arte brasileiro Danniel Rangel teve a obstinação de juntar esses fios soltos. Vasculhou arquivos, ouviu Vera, a viúva de Rizzo, Dominique, e quem viu tudo de perto. Dessa pesquisa nasceram um livro e uma exposição que recolocaram o nome de Vera no mapa internacional da moda. Ela segurou na mão de Chanel até sua morte, em 1971. Vera voltou a Paris já senhora, reviu a Rue Cambon, conheceu Karl Lagerfeld, que escalou a também carioca Cristina Córdula para interpretá-la num curta-metragem. Isso tudo a divertia, mas o grande orgulho de Vera era sua carreira de atriz no cinema e nos palcos. Figura central do Teatro Oficina, presença magnética em cena, mulher que atravessou prisões políticas, internações psiquiátricas, amores intensos e renascimentos sucessivos, ela parecia feita de contradições luminosas pontuadas por humor, coragem e audácia. Libertina, libertária, libertadora. Livre. Vera Valdez, o sol da maison Chanel. A mulher que nos lembrou que a moda e a História são escritas não por quem as segue, mas pelos insubmissos.