La Liga aposta em base humanizada na formação de talentos e colhe crescimento financeiro sustentável

Messi, Raúl, Iniesta, Casillas, Yamal... Uma série de craques geracionais já saiu das categorias de base do futebol espanhol, principalmente de Barcelona e Real Madrid. Mas, muito além dos dois gigantes, a La Liga — responsável pela primeira e segunda divisões nacionais — tem trabalhado no desenvolvimento de jovens talentos com iniciativas que ultrapassam o âmbito esportivo e influenciam diretamente o rendimento do atleta em formação. O trabalho da entidade nas canteras (categoria de base, em espanhol) tem se refletido em números. Segundo os dados mais recentes, a liga espanhola lidera em valor de mercado dos jogadores formados em seus próprios clubes (1,477 bilhão de euros — R$ 6,10 bilhões), desbancando outros grandes campeonatos europeus, como Premier League (1,005 bilhão), Bundesliga (563 milhões), Serie A (415 milhões) e Ligue 1 (471 milhões). Cobrança: PSG decide não recorrer e pagará quantia milionária a Mbappé por férias não remuneradas Jogos de Inverno: Campeã olímpica no esqui freestyle halfpipe bate a cabeça na aterrissagem e fica desacordada Além do valor de mercado, a La Liga também lidera as competições europeias na quantidade de minutos jogados por atletas revelados nas categorias de base, chegando a quase 19,8% do total na temporada 2024/25. Por trás do desenvolvimento de jovens talentos está a busca pelo crescimento sustentável dos clubes. Juan Florit, chefe de projetos de futebol da La Liga, explica que o modelo reduz a dependência por contratações caras. A proporção da participação de atletas da base na receita de vendas quase dobrou nos últimos cinco anos: passou de 27% para 45%. — Esse modelo contribui para a sustentabilidade financeira dos clubes. Mitiga a pressão sobre os tetos salariais e os custos dos elencos dentro dos parâmetros de controle econômico estabelecidos pela LaLiga e pelas regulamentações nacionais e internacionais — explica. Com centros de treinamento de primeira linha, a La Liga tem como proposta oferecer uma formação humanizada do atleta que, antes de tudo, precisa amadurecer como cidadão. Com o sonho de chegar ao profissional, os jovens da base já convivem com a pressão desde cedo, o que aumenta a importância de uma rede de apoio também fora das quatro linhas. Ciente disso, a entidade busca valorizar o bem-estar social dos garotos, fortalecendo a associação indivíduo/atleta. Centro de Treinamento do Espanyol, em Barcelona Divulgação/Espanyol Por outro lado, a formação pode afetar o nível de escolaridade dos jovens. Para evitar prejuízo nessa área, a La Liga enxerga a formação acadêmica como aliada antes e durante a transição ao profissional, até porque apenas uma parcela se tornará jogador. Quem sabe disso é o atacante Eloi Tost, de 18 anos, que prioriza a carreira na “La 21”, base do Espanyol, mas, ao mesmo tempo, não larga o curso de Engenharia Aeroespacial. — Vou continuar com a faculdade. Se eu terminar em nove ou dez anos, não importa, o que vale é concluir. Por isso, procuro manter os pés no chão, porque preciso ter uma alternativa. Talvez eu nunca trabalhe como engenheiro aeroespacial, mas, se não der certo no futebol, pelo menos terei essa formação — afirma Eloi. Para estimular os estudos, o Espanyol, por exemplo, aproveita a vontade dos garotos de jogar futebol para incentivá-los na escola. Além de dar suporte aos alunos com notas mais baixas, o clube avalia o esforço acadêmico de cada um, o que impacta o percentual de tempo do atleta em campo. — Se o jogador vai à escola, é uma oportunidade de ele melhorar sua atitude. Senão, deixamos claro: “Você disse que está se esforçando 60%. Portanto, seus minutos com a comissão técnica terão como limite esses mesmos 60%”. Não é uma ameaça, mesmo que possa parecer — diz Álex Garcia, ex-jogador do Espanyol e hoje responsável pela proteção à criança e ao adolescente no clube. Outro aspecto que pode interferir diretamente na formação de base é o entorno pessoal do jovem. Para Álex, o conhecimento do âmbito familiar é fundamental para entender as particularidades daquele futuro talento e, a partir disso, aplicar as metodologias necessárias ao caso. — Sem dúvida, alguns pais acabam prejudicando seus filhos. Às vezes, sem perceber e, em outros casos, mesmo após serem orientados, optam por não mudar. Nós nos reunimos com as famílias e apresentamos todo o conhecimento que temos sobre os atletas: relatório do treinador, avaliação psicológica, notas na escola. Também mostramos os minutos jogados e o desempenho para que cada jogador tenha um panorama claro e possa ser avaliado de forma justa e completa — ressalta Álex. Com responsabilidades e sonhos em jogo, a saúde mental dos garotos também recebe atenção. Uma das recentes iniciativas da La Liga é o serviço de apoio psicológico 24 horas, que possibilita conversas com mais de 600 profissionais especializados na Espanha, com as primeiras consultas gratuitas. O acesso ao serviço é por meio de um aplicativo, já baixado por mais de mil jogadores até aqui. Mas a ideia é que a psicologia não apareça só nos momentos de dificuldade, mas também como parte essencial do desenvolvimento na base. *O repórter viajou a convite da La Liga