Emmanuel Macron, presidente da França, chocou o total de 0% do mundo ao classificar a defesa da liberdade de expressão nas redes sociais como “pura besteira” ( pure bullshit ) durante visita à Índia, na quarta-feira 18. O querido “liberal” francês do establishment , o progressista mor da Europa fofa e colorida de nossos dias, parece acreditar que a liberdade de expressão nas redes só existe para falar gostosuras progressistas e pronomes neutros em grupos de adolescentes militantes. Para ele, parece-me claro, a verdadeira liberdade não reside na ausência de censura, mas em algoritmos “totalmente transparentes” que guiem os usuários para longe do ódio ‒ veja que homem fofo. Essa visão não é apenas um equívoco técnico ‒ temo dizer ‒, é antes uma traição filosófica aos valores ocidentais que Macron, ironicamente, invoca para justificar sua crítica. Ao relativizar a liberdade de expressão como um bem negociável em nome de uma suposta “proteção”, ele enterra o próprio solo fértil da crítica que permite, entre outras coisas, a sua fala de quarta contra as “permissivas” redes sociais. A liberdade de expressão não é um luxo periférico dos ideais ocidentais, mas o núcleo irredutível de seu próprio espírito. Pelo menos desde John Stuart Mill, em Sobre a Liberdade , sabe-se que a proteção ao discurso aberto e sem censura ‒ mesmo o odioso ‒ é o preço da verdade, da liberdade e do progresso. Mill argumentava que silenciar opiniões, por mais erradas que elas sejam, impede o embate dialético essencial à sociedade aberta. Macron, suposto herdeiro dessa linhagem francesa, que outrora dizia amar até à morte a liberdade, agora propõe trocá-la por uma utopia de higienização tecnológica, isto é, por algoritmos curadores de discursos permitidos, e por dados computacionais encarregados de limpar nossas fraldas emocionais, afagar nossos egos ralados e passar talco em nossas bundas moles. Mas quem programa esses algoritmos? Quis custodiet ipsos custodes? ‒ diria, eternamente, Juvenal. Seriam as tais plataformas americanas, reguladas por burocratas europeus? Faça-me o favor, querido presidente fofo... A transparência prometida é ilusória, pois o controle algorítmico é, por natureza, opaco e manipulável ‒ um cavalo de Troia para a censura estatal. Aqui, reside a contradição mortal: Macron exerce sua liberdade de expressão para atacar... a liberdade de expressão. Trata-se de uma espingarda com cano torto apontado para a testa do próprio atirador. Ele critica as plataformas por “guiarem” usuários ao ódio, mas usa o púlpito público ‒ amplificado por essas mesmas redes ‒ para impor sua visão regulatória. Os progressistas fazem amor com a contradição! Essa é a ironia suprema do nosso fofo francês: a relativização da liberdade de expressão nas redes (em prol algoritmos “seguros”) destrói, em última instância, o direito de criticar o poder. Bom, me questiono: se a expressão alheia pode ser “guiada” por um Estado mais bondoso e colorido que os donos das redes sociais, ou até mesmo censurada por um suposto bem maior, por que a opinião de Macron também não deveria, vez ou outra, ser mutada também? Sua retórica ecoa o relativismo pós-moderno que é a cara do presidente francês. Os valores ocidentais como liberdade de expressão ampla tornam-se condicionais, sacrificados em altares tecnocráticos de um Estado provedor de bem-estar. Como alerta o filósofo Roger Scruton em Tolos, Fraudes e Militantes , tal erosão leva à “cultura do cancelamento” institucionalizada, onde o Estado dita o discurso aceitável aos seus cidadãos/escravos/pupilos retardados. Relacionando ao contexto transatlântico, Macron ignora o choque geopolítico com os EUA de Trump, que veem na DSA europeia (Lei de Serviços Digitais) uma censura extraterritorial. Ao defender proibições para menores (como a França planeja para 2026), ele não protege, mas infantiliza a sociedade, pois troca o dever parental por uma patria potestas digital; isto é, transforma o Estado em um pai ao invés de servidor dos indivíduos. A história ensina incansavelmente que regimes que relativizam a liberdade de expressão ‒ da Revolução Cultural chinesa à URSS stalinista ‒ acabam silenciando toda dissidência, inclusive o líder. O presidente francês, ao posicionar-se contra a liberdade de expressão nas redes ‒ por meio das mesmas redes sociais ‒, cava sua própria sepultura política enquanto bochecha com os goles de sua incoerência. A verdadeira “besteira pura” não é a defesa irrestrita da livre expressão, mas fingir que podemos negociá-la sem perecer. Ditadura é ditadura, mesmo que feita em nome do amor e do governo fofo, mas, principalmente, em nome da “segurança”. Macron é uma piada progressista. Leia também: "O NYT e a 'estrategista' Delcy Rodriguez" , artigo publicado na Edição 308 da Revista Oeste O post Quando a liberdade vira ‘pura besteira’: a censura fofa de Macron apareceu primeiro em Revista Oeste .