“Não quero, não.” “Eu gosto assim.” “Pode ir, prefiro ficar.” “Não concordo, mas está tudo bem.” Poderia ficar aqui ad aeternum dando exemplos de como passou a ficar fácil dar minha opinião sincera — sem pensar no que os outros iam achar, sem ter que agradar —, depois de uma certa idade. Claro que as pessoas notaram a mudança. E claro que acharam que eu estava irritada, sem paciência, esquisita… só porque passei a dar atenção (e verbalizar) as minhas preferências. Culparam até a terapia. Mas depois de ler o best-seller O Cérebro e a Menopausa, da neurocientista italiana Lisa Mosconium, e um artigo da neuropsiquiatra estadunidense Louann Brizendine, autora de O Cérebro Feminino, tudo fez mais sentido. As duas especialistas descrevem como o estrogênio amplifica circuitos ligados à empatia e à conexão social ao longo da vida reprodutiva da mulher. Quando os níveis desse hormônio começam a oscilar — e depois a cair, o que ocorre com o climatério — o cérebro passa a priorizar a energia emocional de outra forma. E é aqui que as amarras do comportamento social começam a se desfazer. Outras prioridades Durante décadas, o cérebro feminino foi altamente treinado para interpretar sinais sociais, equilibrar emoções e manter as relações funcionando. A gente foi ensinada a cuidar dos outros, do clima da casa, do trabalho… Nossa vontade ia sempre para o final da fila. Mas, com a transição hormonal da perimenopausa e da menopausa, esse sistema passa por uma reorganização profunda. O professor José Maria Soares Júnior, chefe do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da FMUSP e Coordenador do Setor de Climatério do Hospital das Clínicas (HCFMUSP), explica que há evidências científicas de que a queda do estrogênio impacta diretamente áreas cerebrais ligadas à aprovação social. “Estudos de neuroimagem sugerem que a flutuação e a redução deste hormônio afetam regiões como o córtex pré-frontal medial e a amígdala, envolvidas no processamento de recompensas sociais e no medo de rejeição.” Na prática, isso significa que o cérebro passa a reagir menos ao julgamento externo. Além disso, ocorre uma mudança natural associada ao amadurecimento emocional. “Com a percepção de tempo de vida mais limitado, há uma tendência a priorizar relações significativas e diminuir o investimento emocional em situações superficiais”, explica o especialista. Entramos na era da seletividade. Menos necessidade de agradar O estrogênio atua diretamente em neurotransmissores como serotonina, dopamina e ocitocina — todos relacionados ao humor, vínculo social e sensação de recompensa emocional. A professora Isabel Cristina Esposito Sorpreso, da Faculdade de Medicina da USP, explica que essas alterações comportamentais fazem parte de uma reprogramação natural. “Os esteroides sexuais atuam como neuromoduladores centrais que interagem com regiões cerebrais relacionadas à tomada de decisão e aos processos emocionais. Na perimenopausa e na pós-menopausa ocorre uma reorganização desses circuitos.” Com o hipoestrogenismo (baixa produção de estrogênio), a integração desses sistemas pode diminuir — e o resultado aparece no comportamento. “Existe um período de transição e reorganização em que sensibilidade emocional, empatia e vinculação social passam por ajustes, somados ao próprio processo de maturidade e experiência de vida”, diz. É biologia e história pessoal caminhando juntas. Outro fator que se soma a esse quadro de “independência” é o chamado desgaste emocional acumulado. Décadas conciliando trabalho, família, expectativas sociais e autocobrança deixam, sim, marcas neurobiológicas. Esse estresse crônico impacta o eixo hormonal ligado ao cortisol — o sistema de resposta ao estresse. “Muitas mulheres chegam ao climatério com o ‘copo cheio’. A queda do estrogênio pode ser a gota que transborda, amplificando sintomas emocionais e comportamentais”, explica o professor José Maria. Sem filtro, coisa nenhuma Uma das dúvidas mais comuns é se essa mudança representa perda de controle emocional. Na verdade, a ciência aponta o contrário. “Essa redução da resposta à aprovação social pode ser vista como ganho de autonomia emocional, e não como déficit”, afirma José Maria. O cérebro passa a priorizar o que tem significado real. Vontade e desejos pessoais deixam de ser negociáveis. E por mais paradoxal que possa parecer, não é simples sair do modo “cuidar dos outros” e entrar no de “cuidar de mim”. Há muita crítica, estranhamento, rupturas. Mas a verdade é que é libertador. Depois de anos priorizando o externo, o cérebro passa a priorizar o interno. E a gente vai aprendendo a lidar com isso. E gostando disso. Apesar de ser uma mudança esperada, os especialistas alertam para a importância de observar o contexto. Isabel Sorpreso, diz que é essencial diferenciar autonomia emocional de sofrimento psíquico. “Sintomas intensos de humor, alterações importantes de sono ou perda de prazer nas atividades devem ser avaliados. O cuidado precisa ser individual e contínuo.” O autoconhecimento faz toda a diferença no processo do amadurecimento.