Muito além do ouro: saiba quem é Eileen Gu, campeã olímpica que trocou os EUA pela China

A medalha de ouro veio com 94,75 pontos e uma descida que parecia suspensa no ar. No halfpipe do esqui estilo livre, Eileen Gu confirmou o favoritismo, garantiu o bicampeonato olímpico e liderou um pódio nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano-Cortina 2026 que teve dobradinha chinesa, com Li Fanghui na prata e Zoe Atkin no bronze. Mas, no caso dela, o ouro é só o começo da história. Aos 22 anos, Eileen Gu soma agora seis medalhas olímpicas na carreira. Já havia sido o grande nome dos Jogos de Pequim 2022, quando conquistou duas medalhas de ouro e uma de prata, tornando-se a primeira esquiadora acrobática a alcançar três pódios em uma mesma edição de Jogos de Inverno. Em Milão-Cortina 2026, além do título no halfpipe, também subiu ao pódio com duas pratas no slopestyle e no Big Air. Foi justamente após uma dessas medalhas de prata que ela voltou ao centro das atenções. Questionada se encarava o resultado como “duas medalhas de ouro perdidas”, reagiu com ironia e firmeza. Disse ser a esquiadora acrobática mais premiada da história e classificou como absurda a lógica de tratar medalhas conquistadas como fracassos. O trecho viralizou, dividiu opiniões e incendiou as redes sociais, houve quem criticasse o jornalista, houve quem a considerasse arrogante. Entre duas bandeiras Nascida e criada em São Francisco, Gu iniciou a carreira representando os Estados Unidos. Em 2019, ainda adolescente, anunciou que passaria a competir pela China, país natal de sua mãe. Na época, definiu a decisão como difícil e afirmou ter orgulho tanto da herança chinesa quanto da formação americana. Desde então, a escolha se tornou combustível para debates que extrapolam o esporte. Em meio à rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e China, a atleta passou a ser alvo de críticas, especialmente em ambientes políticos conservadores americanos. Foi chamada de “traidora” por comentaristas e ex-atletas, questionada por políticos e pressionada a se posicionar sobre direitos humanos. Ela afirma ter enfrentado ameaças, hostilidade online e até agressão física enquanto estudava na Stanford University, onde cursa física quântica. Ao falar sobre o tema, diz que aprendeu a se fortalecer com a pressão, e que amadureceu desde a estreia olímpica em Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022. Se nos Estados Unidos a recepção é dividida, na China a imagem é outra. Ali, Gu é celebrada como símbolo de excelência e inspiração, apelidada de “princesa da neve”. Em plataformas locais, internautas destacam que verdadeiros campeões não são definidos apenas por medalhas de ouro, uma defesa que ganhou força mesmo nas provas em que ela ficou com a prata. Marca própria Fora das montanhas, Gu construiu uma presença midiática rara no esporte de inverno. É modelo contratada pela IMG Models e acumula parcerias com marcas como Red Bull, Porsche e IWC Schaffhausen. Segundo a Forbes, foi a quarta atleta mais bem paga do mundo no último ano, com a maior parte da renda vinda de contratos publicitários, e não das competições. Fluente em mandarim, com trânsito confortável entre dois mercados gigantescos e identidade assumidamente híbrida, Gu se tornou também um fenômeno comercial. Sua imagem estampa outdoors e campanhas publicitárias na China, enquanto nos Estados Unidos segue como uma das figuras mais reconhecidas do esqui freestyle. O peso do ouro Na pista, a resposta continua técnica e objetiva, manobras executadas com precisão, altura, controle e notas altas. Fora dela, Gu admite que às vezes parece carregar “o peso de dois países” nos ombros.