Xi terá mais poder de barganha para negociar com Trump em cúpula de abril, após decisão da Suprema Corte

O presidente chinês, Xi Jinping, está indo à mesa de negociações com Donald Trump com um reforço em seu poder de barganha, depois que o líder americano perdeu a capacidade de aumentar rapidamente tarifas por praticamente qualquer motivo. Após Trump anunciar tarifa de 15%: Veja em mapa os países que serão mais ou menos taxados Seções 122 e 301: As leis que Trump planeja usar para driblar decisão da Suprema Corte Semanas antes de Trump desembarcar em Pequim, em 31 de março — a primeira viagem de um presidente americano desde sua última visita em 2017 — a Suprema Corte invalidou suas amplas tarifas de emergência, um importante ponto de pressão sobre a China. Isso eliminou as tarifas impostas por Trump em seu segundo mandato contra a segunda maior economia do mundo e deixou Pequim sujeita à mesma taxa global de 15% aplicada aos aliados dos EUA, uma alíquota que tem prazo de validade de 150 dias. A remoção das ameaças tarifárias, que no ano passado chegaram a escalar até 145%, tornará mais difícil para Trump pressionar Xi Jinping a realizar compras maiores de soja, aeronaves da Boeing e energia. Também o deixa sem uma arma importante para retaliar caso os negociadores chineses façam novas exigências em troca de permitir um fluxo constante de metais de terras raras, vitais para a indústria manufatureira dos EUA. — Em última análise, essa decisão da Suprema Corte coloca a China em uma posição de negociação muito mais forte — afirmou Wu Xinbo, diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Fudan, citando o exemplo do compromisso da China de comprar cerca de 25 milhões de toneladas de soja, que estava condicionado às negociações tarifárias anteriores. — Se essas tarifas agora forem consideradas ilegais, a ‘carta da soja’ volta para as mãos da China. Initial plugin text A equipe de Xi também provavelmente pressionará com mais intensidade por acesso a semicondutores avançados, pela remoção de restrições comerciais impostas a empresas chinesas e pela redução do apoio dos EUA à autogovernada Taiwan, onde o foco de Pequim está nas vendas de armas e em uma linguagem mais firme contra a independência da ilha, acrescentou Wu, que anteriormente assessorou o Ministério das Relações Exteriores em Pequim. Na Índia: Lula se diz confiante em acordo com EUA após nova taxação de Trump O Partido Comunista Chinês considera a democrática Taiwan como parte de seu próprio território, apesar de nunca tê-la governado. Embora o revés de Trump represente uma vitória para Xi, autoridades chinesas, assim como outras ao redor do mundo, têm sido cautelosas em sua reação. O Ministério das Relações Exteriores em Pequim não respondeu a um pedido de comentário durante um longo feriado público, e a mídia estatal tem sido comedida ao noticiar a decisão. Pequim avaliará medidas correspondentes se os EUA continuarem a impor novas tarifas usando outros instrumentos legais, segundo Cui Fan, ex-consultor do Ministério do Comércio da China. O inverso também é verdadeiro, e não se pode descartar a possibilidade de ajustes caso os EUA de fato reduzam tarifas, afirmou ele, citado pelo Yuyuantantian, uma conta de mídia social ligada à emissora estatal chinesa. Na mira: EUA mantêm investigação contra o Brasil mesmo após Suprema Corte declarar ilegalidade das tarifas Os mercados da China continental estão fechados devido aos feriados do Ano Novo Lunar e reabrirão na terça-feira, e os investidores podem reagir positivamente às notícias sobre as tarifas. — O consumo permaneceu robusto durante o feriado, o que impulsionará o sentimento do mercado por meio do setor de consumo — disse Shen Meng, diretor do banco de investimento Chanson & Co., em Pequim.— Algumas empresas voltadas à exportação também adotarão um tom otimista, impulsionadas pela decisão tarifária de curto prazo e pela visita de Trump à China. Trump pode recorrer às Seções 301, 232 e 122 da Lei de Comércio para avançar com seu regime tarifário, afirmou Wendy Cutler, vice-presidente sênior do Asia Society Policy Institute e ex-representante comercial adjunta interina dos EUA. A tarifa global de 15% estabelecida por Trump se enquadra na Seção 122. As outras duas autorizações permitem que o presidente imponha tarifas unilateralmente, mas apenas após investigações que normalmente duram meses. Initial plugin text A China ainda enfrenta uma investigação com base na Seção 301 sobre o cumprimento do acordo comercial da Fase Um, firmado no primeiro mandato de Donald Trump, quando Pequim não conseguiu cumprir os compromissos de compra. Essa investigação pode ser uma “característica central do plano alternativo para Pequim”, disse Cutler. Além disso, Trump poderia ampliar o uso de controles de exportação caso a China restrinja ímãs de terras raras. O acordo de Pequim para restabelecer o fluxo desses materiais vitais ocorreu depois que os EUA interromperam as vendas de software de design de chips, motores a jato e peças de reposição para aeronaves. Corrida aos tribunais: Mais de mil ações já pedem reembolso de tarifas nos EUA. Entenda como as empresas podem obter o dinheiro de volta A China provavelmente continuará honrando o atual consenso comercial bilateral, em vez de forçar os EUA a fazer correções imediatas, afirmou Shen Dingli, especialista em relações internacionais em Xangai. —Autoridades chinesas provavelmente manterão um perfil discreto para garantir que a visita de Donald Trump à China, em abril, transcorra sem problemas — disse Shen. — Embora o público chinês possa comemorar, as autoridades provavelmente exercerão certo controle sobre a narrativa. Ameaça de novas tarifas Embora o lado chinês possa ter mais margem para negociar, Donald Trump já ameaçou impor novas tarifas para ganhar vantagem antes de reuniões importantes — e fez isso antes de sua última cúpula com Xi Jinping, em outubro. Embora não tenha se concretizado, sua ameaça inicial de uma tarifa adicional de 100% sobre a China abalou os mercados de ações e de commodities. Colaboração: Acordo Brasil e Índia sobre terras-raras prevê investimentos recíprocos e uso de IA para análise de dados A decisão da Suprema Corte não resultará em uma reversão fundamental das relações econômicas e comerciais entre China e EUA, afirmou Zhou Mi, pesquisador sênior de um think tank ligado ao Ministério do Comércio da China. — Claro que tal decisão não impede o governo Trump de usar outras formas de autoridade executiva para atingir seus objetivos comerciais e de outras políticas — disse Zhou. Ainda assim, acrescenta, “isso serve como um lembrete a todos os países de que o poder executivo não pode, em nenhuma circunstância, ser exercido além do escopo originalmente autorizado”. Autoridades comerciais chinesas devem se reunir com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, antes da visita de Trump, para definir entregas concretas para a viagem, embora nenhuma data ou local tenha sido divulgado até o momento. Míriam Leitão: O poder da moeda e a democracia Mesmo enquanto a Casa Branca busca restabelecer as tarifas sob outra forma, a decisão do tribunal de remover a tarifa de 10% relacionada ao fentanil, juntamente com as chamadas tarifas “recíprocas”, elimina um importante ponto de atrito entre os dois países. Eles começaram a flexibilizar restrições de segurança nacional em rodadas de negociações no ano passado, chegando a um acordo sobre as operações do TikTok nos EUA, ao mesmo tempo em que o governo Trump autorizou a venda dos chips H200 da Nvidia — uma versão mais avançada do que a permitida anteriormente. Na preparação para as conversas entre Trump e Xi, o principal executivo da Ford Motor conversou com altos funcionários do governo Trump sobre um possível modelo no qual montadoras chinesas poderiam fabricar carros nos Estados Unidos, oferecendo ao mesmo tempo alguma proteção para as empresas domésticas, informou a Bloomberg no início deste mês. Alívio: Setores econômicos mais atingidos pelo tarifaço de Trump comemoram suspensão, mas mantêm cautela Embora tal medida provavelmente enfrente oposição no Congresso à medida que se aproximam as eleições de meio de mandato, qualquer acordo que permita mais investimento chinês nos EUA representaria um avanço significativo em um tema sensível. Exportadores chineses podem optar por acelerar embarques para os EUA enquanto as tarifas estão baixas e antes que novas mudanças ocorram, afirmou Zhiwei Zhang, economista-chefe da Pinpoint Asset Management. — O governo dos EUA provavelmente buscará formas alternativas de manter altas as tarifas sobre importações da China — disse Zhang. —Mas buscar e implementar essas tarifas alternativas pode levar tempo. Se for esse o caso, nos próximos meses poderemos ver empresas antecipando suas exportações para os EUA para aproveitar tarifas mais baixas, já que elas podem ser apenas temporárias. Zheng Tao, um exportador chinês de autopeças com mais de 70% da receita proveniente de empresas americanas, disse que, embora a decisão seja uma “boa notícia” e deva estimular mais pedidos, ele não tem certeza se há mais poder de barganha nos preços, depois de tê-los reduzido no ano passado para manter clientes dos EUA. Outros enxergaram a decisão da Suprema Corte como mais um episódio de instabilidade em um ano marcado por ambiguidade e turbulência nas políticas. Lin Qian, que administra fábricas de brinquedos voltadas principalmente para clientes americanos na cidade industrial de Shenzhen, no sul da China, e no Vietnã, mostrou-se indiferente à decisão da Suprema Corte. Ele afirmou que as mudanças constantes nas políticas confundem os empresários. Embora suas fábricas na China ainda processem a maior parte dos pedidos, ele aumentou a produção em sua nova unidade no Vietnã em setembro passado, à medida que as tensões sino-americanas persistiam. — Temos que ter Plano A, B e C para condições tão dinâmicas — afirmou. Viagem adiada A Índia adiou os planos de enviar uma delegação comercial a Washington nesta semana, principalmente devido à incerteza após a decisão da Suprema Corte dos EUA derrubar tarifas impostas por Trump, disse neste domingo uma fonte do Ministério do Comércio do país. Esta é uma das primeiras reações concretas entre as nações asiáticas à decisão, a medida ocorre após Trump anunciar no sábado a imposição de uma tarifa temporária de 15% — o máximo permitido por lei — sobre as importações dos EUA provenientes de todos os países, após a rejeição da Corte. Initial plugin text