Nos últimos dias, a neurocientista brasileira Tatiana Sampaio passou a circular como uma forte candidata ao Nobel de Medicina, a partir de pesquisas que avançam na medicina regenerativa ao demonstrar a possibilidade de reorganizar o tecido nervoso e recuperar movimentos em casos de lesão medular. Professora e pesquisadora da UFRJ, seu trabalho não apenas produz efeitos clínicos concretos, mas também incide sobre algo menos visível e igualmente decisivo, o campo das imagens que sustentam o que pode ser pensado como possível. Há um ponto em que ciência e psique se encontram, não no conteúdo, mas no efeito. Quando uma figura como essa emerge, ela não apenas ocupa um lugar, ela reconfigura um repertório simbólico. Isso se torna evidente quando olhamos para o estudo “Draw-A-Scientist Test: Changes Over Time”, publicado na revista Child Development, que analisou milhares de desenhos infantis ao longo de cinco décadas. Durante muito tempo, a figura do cientista apareceu quase exclusivamente masculina, não por decisão consciente, mas porque era essa a imagem disponível para identificação. A partir de Sigmund Freud, sabemos que o sujeito se constitui por identificações, isto é, por meio de imagens que oferecem contorno ao eu e orientam o desejo. Mais tarde, em Jacques Lacan, essa ideia se radicaliza ao pensarmos que o eu é, em grande medida, uma construção imaginária, sustentada pelo olhar do outro e pelos lugares que esse outro autoriza ou interdita. Não se trata apenas de desejar algo, mas de poder se reconhecer nesse lugar sem que ele apareça como estranho ou inacessível. Os dados mais recentes do estudo indicam que, entre meninas mais novas, a maioria já desenha cientistas do próprio gênero, o que sugere que, em um momento inicial, o campo imaginário ainda comporta essa possibilidade. No entanto, ao longo do desenvolvimento, essa imagem se enfraquece, como se o simbólico operasse uma espécie de correção silenciosa. Não há uma interdição explícita, mas há uma diminuição das referências que sustentariam essa identificação. O que está em jogo não é apenas representatividade, mas a consistência das imagens que estruturam o desejo. Quando certas figuras não ganham presença no mundo, elas perdem força também na economia psíquica. Entre os meninos, esse movimento aparece de forma ainda mais rígida, já que a figura feminina como cientista quase desaparece, indicando que o campo do possível se organiza a partir de referências que se repetem e se estabilizam. Nesse sentido, a emergência de Tatiana Sampaio não deve ser lida apenas como um avanço científico, mas como um deslocamento no campo do visível. Ao ocupar esse lugar e produzir conhecimento que impacta diretamente a vida de milhões de pessoas, ela não apenas transforma a realidade material, mas também amplia o campo das identificações possíveis. O desenho de uma criança, portanto, não é apenas expressão, é também leitura de mundo. Ele revela não só o que a criança imagina, mas aquilo que lhe foi permitido imaginar. E talvez seja nesse ponto que a questão se torne mais delicada, porque o limite da imaginação não está na criança, mas no mundo que a antecede e que, pouco a pouco, vai ensinando o que deve ou não ser visto como viável.