O resort de luxo Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida, voltou ao centro das atenções após um homem armado ser morto por agentes do Serviço Secreto ao invadir o perímetro de segurança da propriedade. O episódio ocorreu na madrugada de domingo, enquanto o presidente Donald Trump estava em Washington. Dinamarca diz que Groenlândia 'não precisa' de navio-hospital enviado por Trump: 'População recebe a atenção que necessita' Demétrio Magnoli: Mundo vive ‘momento Groenlândia’ Segundo as autoridades, o suspeito, de cerca de 20 anos, portava o que parecia ser uma espingarda e um galão de combustível. Ele foi baleado após confronto com os agentes, e nenhum policial ficou ferido. O complexo, adquirido por Trump em 1985, é mais do que um refúgio pessoal: tornou-se peça central em uma das mais graves acusações criminais já enfrentadas por um ex-presidente dos Estados Unidos. Em junho de 2023, o Departamento de Justiça confirmou que Trump responderia a 37 acusações federais relacionadas à retenção de documentos sigilosos da Casa Branca após o fim de seu mandato. 'Plano de ataque' contra o Irã e outros arquivos ultrassecretos A denúncia, apresentada por um grande júri em Miami após investigação conduzida pelo promotor especial Jack Smith, detalhava 31 acusações de violação da Lei de Espionagem por retenção proposital de informações de defesa nacional. As demais imputações envolviam conspiração para obstrução de Justiça, ocultação de documentos em investigação federal e declarações falsas. De acordo com os investigadores, Trump manteve arquivos ultrassecretos — incluindo referências a programas nucleares dos EUA, vulnerabilidades militares e um “plano de ataque” contra o Irã — em diferentes áreas do resort, como salão de baile, banheiro, chuveiro, quarto e escritório. Parte das caixas ficou armazenada no palco do salão “Ouro e Branco”, no edifício principal do clube. Donald Trump AFP Pela Lei de Registros Presidenciais de 1978, todos os documentos oficiais produzidos por um presidente pertencem ao governo federal e devem ser encaminhados ao Arquivo Nacional ao fim do mandato. Em janeiro de 2022, 15 caixas foram devolvidas. Meses depois, diante da suspeita de que ainda havia documentos retidos, o FBI abriu investigação criminal. Uma intimação judicial foi emitida em maio daquele ano, e, em agosto, agentes federais cumpriram mandado de busca em Mar-a-Lago, apreendendo novos arquivos classificados. A acusação sustenta que Trump orientou assessores a remover e ocultar caixas para evitar que fossem entregues às autoridades. Seu auxiliar Waltine Nauta também foi denunciado por suposta participação na obstrução. O caso foi arquivado em julho de 2024. A decisão, proferida pela juíza Aileen Cannon, foi baseada na inconstitucionalidade da nomeação do promotor especial Jack Smith, que conduzia a acusação. Clube exclusivo Construída em 1927 pela socialite Marjorie Merriweather Post, herdeira da General Foods, a propriedade foi deixada ao governo americano como possível “Casa Branca de Inverno”, mas acabou vendida a Trump por cerca de US$ 10 milhões. Nos anos 1990, após dificuldades financeiras, o empresário transformou a residência em clube privado. Hoje, o resort conta com 126 quartos, restaurantes, spa, quadras esportivas e salões luxuosos com detalhes dourados. Associados já pagaram taxa de adesão de US$ 200 mil e anuidades de US$ 14 mil. O espaço abriga eventos sociais e políticos e tornou-se endereço oficial de Trump na Flórida desde 2019. Galerias Relacionadas Entre 2021 e 2022, enquanto centenas de eventos e milhares de convidados circularam pelo local, caixas com documentos confidenciais permaneceram armazenadas em áreas de acesso relativamente amplo. A convivência entre atividades sociais e materiais sensíveis tornou-se um dos pontos centrais da acusação, que sustenta risco potencial à segurança nacional. Agora novamente sob os holofotes após o incidente com o invasor, Mar-a-Lago sintetiza as duas dimensões que marcam a trajetória recente de Trump: o símbolo de poder e luxo que o acompanha desde os tempos de magnata imobiliário e o epicentro de uma crise judicial sem precedentes na história política americana.