Como drones de US$ 600 estão desafiando o exército bilionário da Colômbia

Soldados colombianos que defendiam uma operação de extração de petróleo estatal perto da fronteira com a Venezuela estavam sob ataque. Dois poderosos grupos insurgentes que lutam contra o Estado colombiano há décadas vinham roubando combustível regularmente do local. Os soldados estavam acostumados a lidar com franco-atiradores e emboscadas, mas agora tinham que lidar com uma nova arma que seus adversários possuíam aos milhares: enxames de pequenos drones, amadores podem comprar na Amazon, equipados com garras e ganchos carregando granadas. Guerra na Ucrânia: Como uma professora de dança ucraniana se tornou sniper no conflito contra a Rússia Ao longo de 15 dias, os soldados abateram 50 deles, segundo quatro autoridades de segurança do governo familiarizadas com a operação. No 16º dia, um drone muito maior, comumente usado para pulverizar pesticidas, apareceu carregando quatro granadas. O batalhão não o detectou a tempo, e as granadas explodiram, matando um soldado, disseram as autoridades. O episódio ilustra uma tendência preocupante: o acesso barato a drones facilmente modificáveis ​​está desestabilizando a guerra de décadas do país contra grupos insurgentes e colocando o governo na defensiva. Território cobiçado: Trump anuncia envio de navio-hospital à Groenlândia e eleva tensão com a Dinamarca A Colômbia agora está adotando uma linha mais dura de negociação, depois de anos buscando a paz com grupos armados, incluindo o Exército de Libertação Nacional (ELN), que é especialmente ativo em Catatumbo, a região fronteiriça onde o soldado foi morto e um dos campos de batalha mais ferozes do país. Assim como outros países da América Latina, a Colômbia está sob pressão do presidente Trump para combater grupos como o ELN envolvidos no tráfico de drogas. A alternativa pode ser enfrentar punições, incluindo tarifas, sanções e até intervenção militar. Drones de uso militar tornaram-se essenciais para a guerra moderna, inclusive na Ucrânia, Gaza e Darfur, no oeste do Sudão. A guerra com drones na Colômbia é amplamente caracterizada pelo uso de drones comerciais facilmente disponíveis. Na Colômbia, a rápida proliferação de drones armados cada vez mais sofisticados entre grupos insurgentes tornou-se um desafio formidável para o governo. “Os narcotraficantes têm a vantagem aérea”, disse o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, em um discurso para soldados no final do ano passado, pouco depois de drones terem matado 58 soldados e policiais, além de ter ferido outros 300 em poucos meses. Drones usados ​​por grupos criminosos armados podem ser comprados em sites como o Temu, afirmam uma autoridade baseada em Catatumbo, referindo-se ao site de compras chinês. Esse funcionário, que não revelou seu nome, descreveu como era difícil impedir que grupos armados adquirissem drones. Alguns são comprados na Colômbia, enquanto outros são contrabandeados da Venezuela, disse ele, cruzando centenas de quilômetros de fronteira porosa, grande parte da qual é coberta por densa floresta. O uso de drones por insurgentes, disse o funcionário, estava aumentando a um ritmo alarmante. Pedro Sánchez, ministro da Defesa da Colômbia, admitiu que criminosos começaram a usar drones “indiscriminadamente”, causando mais de 100 baixas entre policiais e militares em 2025. Sánchez disse que as Forças Armadas conseguiram frustrar a grande maioria dos ataques com drones no ano passado, mas que sofreram o “equivalente a 333 ataques bem-sucedidos, causando enormes danos não apenas às forças de segurança, mas também à população civil”. Sánchez viajou recentemente a Washington para se encontrar com autoridades de segurança dos EUA, uma visita que ocorreu após o anúncio do governo colombiano de que gastaria mais de US$ 1,6 bilhão em equipamentos antidrone. O Ministério da Defesa da Colômbia, em um comunicado à imprensa, descreveu o investimento como “sem precedentes” e “a estratégia de defesa aérea mais ambiciosa e audaciosa” da história do país. Não está claro se a viagem de Sánchez a Washington, seguida por uma visita de Petro a Trump, resultou em algum acordo para tais equipamentos, que podem incluir radares, inibidores de sinal e outros. Nas últimas três décadas, a Colômbia recebeu bilhões de dólares em ajuda militar dos Estados Unidos. Este mês, recebeu 11 veículos blindados americanos. O objetivo do governo é proteger locais críticos em toda a Colômbia, incluindo 13 mil locais de votação que serão usadas nas eleições nacionais agendadas para maio. Ruptura com Israel O governo de esquerda de Petro rompeu com seus antecessores ao prometer não comprar novos equipamentos militares de Israel, incluindo drones. Os israelenses eram a principal fonte de drones armados da Colômbia antes dessa ruptura, ocorrida em protesto contra a guerra em Gaza. Sánchez disse que o governo procuraria outras opções e, no mês passado, representantes de mais de uma dúzia de países participaram de uma reunião na qual autoridades colombianas solicitaram propostas para equipamentos antidrone. Apesar do senso de urgência na Colômbia, é improvável que novos equipamentos antidrone possam ser implantados até a realização das eleições, afirmam quatro autoridades de segurança e outros especialistas consultados de forma anônima. Uma dessas fontes de informação, que está na região de Cauca, disse que o próprio equipamento antidrone provavelmente se tornaria um alvo. Além disso, o equipamento precisaria de monitoramento constante e estar em locais com iluminação e acesso à internet, algo que não existe em todo o país. Outra autoridade, em Catatumbo, disse estar desanimada com a aparente facilidade com que grupos armados adquirem drones, usando o dinheiro do tráfico de drogas, em comparação com a dificuldade que os militares encontram para obter equipamentos de proteção. Em seu discurso aos militares em dezembro, Petro reconheceu que o governo estava com dificuldades para acompanhar a capacidade dos grupos insurgentes de se armarem. Eles podem comprar milhares de drones "com dinheiro vivo", enquanto o governo "reage lentamente". 'Abutres no ar' Duas das autoridades de segurança disseram que grupos armados, incluindo o ELN, também tinham acesso a drones de fibra óptica, que usam cabos ultrafinos em vez de sinais de rádio, tornando-os imunes à interferência da maioria dos equipamentos antidrone. Um estudo realizado no ano passado pelo Instituto Latino-Americano de Paz e Segurança, um grupo independente de consultoria técnica, constatou que “grupos armados já estão utilizando” drones de fibra óptica na Colômbia e que versões da China “com mais de 30 quilômetros de bobina podem ser entregues em qualquer grande cidade colombiana por menos de 600 dólares”. Embora os drones de fibra óptica ainda sejam relativamente raros na Colômbia, drones comerciais comuns, como o DJI Mavic 3 Pro, familiar a qualquer fotógrafo aéreo, são amplamente utilizados, rápidos e capazes de transportar uma carga útil significativa. Em um único município de Cauca, uma autoridade local afirmou que mais de mil drones pertencentes a grupos criminosos armados e usados ​​para coletar informações foram identificados em 2024. Para os soldados que combatem o grupo armado, a proliferação de drones aumentou o medo e o estresse. Os militares foram treinados a gritar "abutre no ar" quando detectam um drone se aproximando, disse ele. Depois disso, em bases militares, um alarme soa e qualquer pessoa ao ar livre sabe que deve procurar abrigo imediatamente, pois significa que um drone está vindo com armamento potencialmente letal.