O 'pezinho' do teclado pode destruir seu pulso, garantem especialistas

O pequeno suporte retrátil na base do teclado, popularmente chamado de “pezinho”, foi criado para melhorar a visualização das teclas. Mas, do ponto de vista ergonômico, ele pode fazer o oposto do que promete e comprometer a saúde dos punhos. Órgãos internacionais de segurança do trabalho alertam que a posição ideal para digitação é com o punho neutro, alinhado ao antebraço. Ao inclinar o teclado para cima, o usuário força a extensão do punho. Essa angulação aumenta a pressão interna no túnel do carpo. No longo prazo, o resultado pode ser dor, formigamento e afastamento do trabalho. Para dimensionar o impacto real do “pezinho” do teclado sobre a saúde dos punhos, o TechTudo ouviu quatro especialistas da área da saúde e ergonomia. A reportagem entrevistou a fisioterapeuta, doutora em Engenharia Biomédica e diretora acadêmica da Escola da Saúde da FMU Juliana Duarte Leandro; o ortopedista e chefe do serviço de residência médica em cirurgia da mão do Hospital Alvorada Moema João Carlos Belloti; a fisioterapeuta e coordenadora do curso de Fisioterapia da Uniasselvi Viviane Hadlich e a fisioterapeuta e massoterapeuta Raquel Furquim. As entrevistas explicam, com base clínica e científica, por que a inclinação do teclado força a extensão do punho, eleva a pressão no túnel do carpo e pode acelerar quadros de dor, formigamento e perda de força nas mãos. Confira! Melhor teclado mecânico custo-benefício para comprar em 2026: lista Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviews O suporte retrátil do teclado foi criado para facilitar a visualização das teclas, não para proteger seus punhos. Ao inclinar o equipamento, o usuário rompe o alinhamento neutro e pode acelerar quadros de LER/DORT ao longo do tempo Reprodução / Freepik Teclado para PC (com fio ou Bluetooth): qual comprar? Saiba mais no Fórum TechTudo Uso ou não uso? Entenda para que serve o "pezinho" do teclado Levantar o “pezinho” do teclado parece um detalhe inofensivo, mas especialistas afirmam que esse hábito pode alterar a biomecânica do punho e aumentar o risco de lesões por esforço repetitivo. A prática força a extensão da articulação, rompe o alinhamento neutro recomendado e eleva a pressão dentro do túnel do carpo. O problema não surge em um único dia, mas no acúmulo de horas, semanas e anos de digitação em postura inadequada. Em um país onde LER/DORT figuram entre causas relevantes de afastamento do trabalho, a ergonomia do teclado deixa de ser detalhe e passa a ser questão de saúde pública. De acordo com a Occupational Safety and Health Administration (OSHA), o alinhamento retilíneo do punho reduz a sobrecarga sobre nervos e tendões durante a digitação. Estudos de ergonomia conduzidos pela Cornell University indicam que a pressão no túnel do carpo cresce de forma significativa quando o punho ultrapassa 15 graus de extensão. Esse aumento pressórico comprime o nervo mediano, estrutura responsável pela sensibilidade e força em parte da mão. Em rotinas de oito horas diante do computador, o impacto é cumulativo. No Brasil, lesões por esforço repetitivo (LER/DORT) figuram entre causas recorrentes de afastamento profissional. A má regulagem do teclado é um dos gatilhos mais negligenciados. Confira tudo o que será abordado na matéria, a seguir! Índice: Por que o “pezinho” do teclado é um erro de ergonomia? O que acontece dentro do túnel do carpo quando o punho fica estendido? Formigamento e dormência: quando ligar o sinal de alerta? Apoio de punho ajuda ou piora o problema? Como ajustar teclado, cadeira e mesa da forma correta? 1. Por que o “pezinho” do teclado é considerado um erro de ergonomia? O suporte retrátil do teclado foi criado originalmente na época das máquinas de escrever, com a finalidade de melhorar a visualização das teclas. Segundo explica a professora Juliana Duarte Leandro, esse recurso não foi pensado para conforto biomecânico. Quando o teclado é inclinado para cima, o punho é obrigado a permanecer em extensão, ou seja, dobrado para trás. Essa posição foge do princípio central da ergonomia moderna, que recomenda manter a articulação em posição neutra. A consequência é sobrecarga contínua nas estruturas do punho durante a digitação. O ortopedista João Carlos Belloti afirma que a extensão do punho impõe estresse indevido às estruturas do túnel do carpo. Ao reduzir o espaço interno desse canal anatômico, a postura inclinada aumenta a pressão intracarpal e comprime o nervo mediano e os tendões flexores. Ele também destaca que essa postura pode gerar alterações vasculares, incluindo hipervascularização intraneural, interpretada como marcador de estresse fisiológico. Esse ambiente desfavorável aumenta o risco de desenvolvimento da Síndrome do Túnel do Carpo (STC). Criado na era das máquinas de escrever, o suporte de inclinação não atende aos princípios modernos de ergonomia. Ao elevar o teclado, o usuário aumenta a pressão intracarpal e expõe o nervo mediano a compressão Reprodução/Freepik A professora Viviane Hadlich reforça que muitas pessoas acreditam que a inclinação melhora a digitação, mas o efeito pode ser apenas uma falsa sensação inicial de conforto. Ao longo das horas, a extensão favorece sobrecarga tendínea, compressão nervosa e fadiga muscular. Ela explica que o ideal é manter o teclado plano, permitindo que o punho permaneça alinhado ao antebraço. A manutenção dessa linha reta é determinante para reduzir a pressão interna no túnel do carpo. Para a fisioterapeuta Raquel Furquim, o risco é ainda maior em rotinas prolongadas, como as de profissionais que digitam por horas seguidas. Ela afirma que o “pezinho” promove extensão constante do punho, aumentando o risco de dor, tendinites e compressões nervosas. Quando associado a mesas altas ou cadeiras mal ajustadas, o problema se intensifica. No cotidiano, o impacto não é imediato, mas cumulativo, tornando-se mais evidente com o passar do tempo. 2. O que acontece dentro do túnel do carpo quando o punho fica estendido? No punho existe um espaço anatômico chamado túnel do carpo, por onde passam o nervo mediano e os tendões responsáveis pela movimentação dos dedos. Juliana Duarte Leandro explica que, quando o punho permanece em extensão prolongada, o espaço dentro desse túnel diminui e a pressão interna aumenta. Como consequência, o nervo mediano sofre compressão e os tendões podem inflamar, quadro conhecido como tenossinovite. Esse processo reduz a circulação local e interfere na condução nervosa. João Carlos Belloti detalha que a fisiopatologia da STC está fundamentalmente ligada à compressão do nervo mediano no túnel do carpo. A extensão acima de 30 graus aumenta significativamente a velocidade do fluxo sanguíneo intraneural, fenômeno interpretado como hipervascularização. Essa alteração pode danificar a barreira hemato-nervosa, gerar edema e elevar ainda mais a pressão no interior do túnel. A compressão persistente também pode provocar congestão venosa e inflamação crônica. Belloti acrescenta que o aumento da pressão intracarpal pode levar a isquemia, estresse oxidativo, desmielinização e perda axonal. Com o tempo, isso resulta em déficits motores e sensoriais progressivos. Além disso, a extensão prolongada aumenta a tensão e o atrito dos tendões flexores, favorecendo inflamação de suas bainhas. O conjunto dessas alterações cria um ciclo contínuo de agressão ao nervo mediano. A extensão prolongada pode provocar hipervascularização, edema e inflamação das estruturas internas do punho. Com o tempo, a compressão contínua pode levar a alterações nervosas progressivas. Reprodução/Freepik Viviane Hadlich explica que, de forma didática, é como manter uma mangueira dobrada por muito tempo: o fluxo começa a ser prejudicado. Raquel Furquim reforça que o aumento da pressão interna comprime o nervo e reduz a circulação local. O resultado são sintomas típicos como dor, formigamento e perda de força. O problema não é apenas muscular, mas envolve estruturas nervosas e vasculares sensíveis. 3. Formigamento e dormência: quando ligar o sinal de alerta? Os sintomas clássicos de compressão do nervo mediano incluem formigamento, dormência e perda de força na mão e nos dedos. Segundo Belloti, a parestesia costuma ter predomínio noturno e afeta principalmente polegar, indicador, dedo médio e metade radial do anelar. A avaliação médica deve ser considerada quando os sintomas se tornam persistentes, recorrentes ou progressivos. O diagnóstico precoce é decisivo para evitar danos irreversíveis. Juliana Duarte Leandro afirma que sinais persistentes indicam compressão significativa do nervo mediano. Entre os alertas estão formigamento frequente, principalmente à noite, sensação de choque, dormência nos três primeiros dedos e dificuldade para segurar objetos. A queda involuntária de itens da mão pode indicar perda de força. Nesses casos, a intervenção precoce é fundamental para evitar dano permanente. Se os sintomas se tornam persistentes, progressivos ou passam a interferir na rotina, o alerta deve ser imediato. O diagnóstico precoce reduz o risco de danos permanentes à força e sensibilidade Reprodução/Freepik Viviane Hadlich acrescenta que sintomas que pioram com o tempo ou interferem nas atividades diárias exigem avaliação especializada. Dormência ao acordar e dificuldade para tarefas finas são indicativos importantes. Quanto mais cedo o tratamento for iniciado, maiores as chances de reversão sem necessidade de procedimentos invasivos. Ignorar a progressão pode levar a quadros mais complexos. Raquel Furquim ressalta que dor irradiada para o antebraço e sintomas persistentes por mais de duas semanas também são sinais de alerta. Mesmo quando os sintomas surgem após um dia intenso de trabalho, é preciso observar a frequência e a recorrência. A orientação é procurar avaliação médica ou fisioterapêutica antes que o quadro evolua. A síndrome do túnel do carpo instalada pode comprometer força e sensibilidade de forma significativa. 4. Apoio de punho ajuda ou piora o problema? Especialistas recomendam que o apoio sirva apenas para pausas. Durante a digitação, os punhos devem permanecer alinhados ao antebraço, sem compressão constante sobre a base da mão Reprodução/Freepik Os apoios de punho em gel ou espuma podem ser úteis apenas se utilizados corretamente. Juliana Duarte Leandro explica que o ideal é que sirvam para momentos de pausa, não como base constante durante a digitação. Quando associados ao teclado plano, podem oferecer suporte leve sem aumentar pressão. Contudo, se o teclado estiver inclinado, o apoio pode agravar a compressão. Belloti afirma que, com o teclado elevado, o apoio frequentemente posiciona o punho em extensão ainda maior. Isso intensifica a compressão do nervo mediano e aumenta a pressão intracarpal. A postura exacerba o estresse vascular e nervoso no túnel do carpo. Portanto, o suporte não corrige o erro biomecânico gerado pela inclinação. Viviane Hadlich reforça que o apoio não deve sustentar o peso das mãos durante a digitação. Se a pessoa digita pressionando o punho contra o gel enquanto o teclado está inclinado, pode ocorrer maior compressão e redução da circulação local. O recurso não compensa uma ergonomia inadequada. O alinhamento correto continua sendo indispensável. Raquel Furquim resume que o apoio pode ser benéfico apenas como suporte leve e em pausas. Se a digitação ocorre com punhos apoiados e teclado inclinado, a pressão sobre o túnel do carpo aumenta ainda mais. O problema biomecânico persiste e pode se intensificar. O princípio permanece o mesmo: manter o punho neutro é a prioridade. 5. Como alinhar teclado, cadeira e mesa corretamente? Teclado plano, cotovelos a 90 graus, ombros relaxados e punhos alinhados ao antebraço formam a base da ergonomia preventiva contra compressões e inflamações no punho Reprodução/Unsplash (ELLA DON) A orientação técnica central é manter o punho em posição neutra, alinhado ao antebraço. Juliana Duarte Leandro afirma que o teclado deve estar plano, sem o uso dos “pezinhos”, permitindo neutralidade articular. O ajuste isolado do teclado não é suficiente; é necessário organizar todo o ambiente de forma integrada. A posição neutra é o principal fator de proteção contra sobrecarga. Belloti destaca que intervenções ergonômicas devem promover posturas neutras do punho e reduzir a tensão no túnel do carpo. A cadeira deve ser ajustada para que pés fiquem apoiados no chão e joelhos em ângulo de 90 a 100 graus. Os cotovelos devem permanecer próximos ao corpo, também entre 90 e 100 graus. Ombros precisam estar relaxados, sem elevação. Viviane Hadlich recomenda que os antebraços fiquem paralelos ao chão, com punhos retos, sem flexão ou extensão. O teclado deve ficar centralizado e próximo ao corpo, evitando esticar os braços. A mão deve ser uma continuação do antebraço, formando uma linha reta. Essa referência simples ajuda a manter a postura adequada. Raquel Furquim acrescenta que o monitor deve estar na altura dos olhos para evitar compensações posturais. A cadeira deve permitir apoio completo dos pés e sustentação da coluna lombar. Pausas a cada 50 a 60 minutos são recomendadas para reduzir sobrecarga acumulada. Mesmo com ajuste ideal, o corpo não foi feito para permanecer estático por horas seguidas. Com informações da Cornell University Ergonomics Web, Occupational Safety and Health Administration (OSHA) Veja mais informações no TechTudo: Veja também: O QUE ACONTECEU COM O ORELHÃO? Veja a origem e fim do aparelho! O QUE ACONTECEU COM O ORELHÃO? Veja a origem e fim do aparelho!