O inverno do hemisfério Norte de 2025–2026 não tem dado trégua. O frio não apenas atingiu fortemente as terras continentais das altas latitudes, mas também alcançou vastas áreas de latitudes mais baixas, ultrapassando facilmente o Trópico de Câncer em diversos locais. Além da Rússia, da Europa e da América do Norte, parte da Ásia, em especial, tem sofrido intensamente com o frio e as tempestades de neve. É o caso do Japão. Enquanto os EUA recebiam uma das maiores massas de ar frio dos últimos 40 anos, entre os dias 23 e 25 de janeiro de 2026, algumas áreas do Japão já estavam sob a influência de temperaturas próximas ou abaixo de zero grau Celsius desde praticamente a virada do ano. Isso era esperado para o período, tendo em vista que, climatologicamente, janeiro é considerado o mês mais frio no país. Novamente, o que se destacou foi a severidade verificada no período, expressa tanto pela persistência dos fenômenos quanto pela intensidade. A estação sazonal de inverno no Japão fica sob a influência de massas frias provenientes do Ártico, via Sibéria, ou seja, a mais fria do hemisfério Norte e uma das mais frias do mundo. Isso torna o inverno particularmente rigoroso na ilha norte do país, Hokkaido, entre as latitudes de 42° a 47° N, pois a temperatura média da região oscila ao redor de –8,5°C em janeiro, com registros de –41,0°C. Analogamente a outras regiões do hemisfério Norte, observou-se que a quantidade de neve precipitada nessa região do Japão também foi uma das maiores dos últimos 40 anos. Em alguns locais, os totais alcançaram 183,0 centímetros, ultrapassando a marca de 175,0 cm de 1986. Extraoficialmente, há registros de alturas muito maiores, cobrindo ruas inteiras até a metade dos postes de iluminação pública. Na grande ilha central de Honshu, entre 32° e 42° N, onde se localiza a capital Tóquio, as condições climáticas do inverno se destacam mais na região norte. Embora essas áreas sejam normalmente as mais atingidas, na temporada atual a persistência do frio e das nevascas durou três semanas ininterruptas, até o fechamento desta análise, iniciando por volta de 15 de janeiro, quando começaram as primeiras pancadas de neve. A capital Tóquio pode registrar temperaturas abaixo de zero grau Celsius ocasionalmente, mas neste início de ano essa condição foi recorrente. Por dias seguidos, os termômetros marcaram valores negativos persistentes, especialmente entre 7 e 9 de fevereiro, quando as temperaturas oscilaram entre –3,0°C e –1,0°C. Mesmo a região sul (ilhas Kyushu e Shikoku), onde janeiro costuma apresentar frio mais ameno, também não escapou das baixas temperaturas. Suas áreas montanhosas registraram precipitação de neve. Os sucessivos quadros meteorológicos entre janeiro e o início de fevereiro mantiveram o vento soprando persistentemente de noroeste, atingindo principalmente as ilhas do norte. Um dos casos mais interessantes ocorreu no dia 5 de fevereiro, quando um pronunciado centro de baixa pressão em superfície, localizado no mar interior do Japão, forçou uma circulação anti-horária sobre as ilhas. Uma circulação como essa pode transportar umidade do Pacífico que, ao se chocar com a massa fria, ocasiona precipitação de neve também na face leste das ilhas, situação de caráter mais esporádico. Com o escoamento veloz oriundo das regiões mais frias da Rússia Oriental, padrão típico de inverno, o ar frio atravessa o mar interno do Japão. Embora as águas estejam frias, ainda há considerável carga de umidade disponível para ser transportada pela atmosfera em direção às ilhas, precipitando-se na forma de neve. A evolução atingiu seu clímax entre os dias 7 e 10 de fevereiro de 2026, quando as temperaturas na ilha do norte caíram para –11,0°C. Foram registradas novas e intensas nevascas em vários locais do Japão. Observou-se a formação de diversas bandas de nuvens de baixa e média altitude que depositaram parte dessa carga de neve sobre as ilhas durante esses dias. De fato, a continuidade do frio por três semanas foi notável. Mesmo regiões já habituadas à presença de neve no inverno foram surpreendidas, pois os totais superaram, de longe, o dobro esperado de neve acumulada para o período. A estação de esqui no Monte Fuji, que vinha registrando nevascas diárias entre 2,0 e 4,0 cm, acumulou 9,0 cm de neve em cada um dos dias 7 e 8. Aliás, o Monte Fuji, com 3.776 metros de altitude, localizado na ilha central de Honshu, apresentou, em 2024, seu maior período sem precipitação de neve desde o início dos registros, em 1894. Isso se tornou propaganda para os “adoradores de Baal-Gaia”. Contudo, tratou-se de um evento excepcional, e não de um “novo normal”. No período atual, a primeira nevasca ocorreu dentro da normalidade, no mês de outubro, com grande intensidade, iniciando o processo de cobertura branca do cume, característico da estação de inverno, já que no verão o gelo pode desaparecer completamente. Quem define a primeira precipitação oficial de neve é o Observatório Meteorológico de Kofu. A avaliação é visual, quando o cume se torna branco ao ser observado diretamente da cidade de Kofu, na província de Yamanashi. O clima definido pelos dados dessa estação meteorológica é marcado por extremos sazonais: verão curto, seco e quente; inverno longo, mais úmido, chuvoso e bastante frio. As temperaturas podem ficar abaixo de –9,0°C ou acima de 32,0°C. No Monte Fuji, a mínima pode atingir –23,0°C em janeiro e chegar a 9,5°C em agosto, permitindo o derretimento total do gelo. Leia também: "O fazendeiro de Deus" , artigo publicado na Edição 310 da Revista Oeste O post O shogunato do gelo apareceu primeiro em Revista Oeste .