Se dentro de campo a semana foi de cobranças para Filipe Luís, fora dele não foi diferente. Assim como a atuação do Flamengo na derrota (1 a 0) para o Lanús, pela partida de ida da Recopa, o comentário do treinador sobre o novo caso de racismo sofrido por Vini Jr repercutiu mal. O técnico, que na Argentina falou em "palavra de um contra de outro" e "caso isolado", chegou a mudar o tom em nota publicada no dia seguinte. Mas não evitou o desgaste perante a opinião pública. Neste domingo, agora no Maracanã, ele voltou a falar sobre o assunto. O episódio de racismo contra Vini Jr ocorreu na última terça-feira. Autor do gol da vitória do Real Madrid (1 a 0) sobre o Benfica, em Lisboa, o atacante celebrou numa das bandeirinhas do Estádio da Luz após balançar as redes. O gesto gerou confusão e rendeu um cartão amarelo para o brasileiro. Depois, ele denunciou que o argentino Gianluca Prestianni, do time da casa, o chamou de "mono" ("macaco", em espanhol), falando por baixo da camisa. O árbitro chegou a ativar o protocolo de racismo e paralisar a partida. O jogo ficou parado por cerca de dez minutos e uma confusão generalizada ocorreu no gramado entre os times e as comissões técnicas. Vini e outros jogadores do Real foram hostilizados até o final. O caso repercutiu em todo o mundo do futebol e gerou reações de treinadores e jogadores. Na Argentina, Filipe foi um dos que respondeu a uma pergunta sobre o assunto. — Sobre isso, sempre fui muito bem tratado, a Argentina me encanta. Sou muito feliz aqui, muito bem recebido. Só tenho boas palavras para a Argentina. Um caso isolado como esse não influencia em nada do que penso sobre este país, que é tão lindo — afirmou Filipe Luís na entrevista coletiva após o jogo contra o Lanús. Filipe também falou sobre o tema para uma TV argentina. O treinador não tomou partido da situação e resumiu o episódio à palavra de Vinicius Junior contra de Prestianni, uma vez que o argentino tapou a boca para falar com o brasileiro. — Bom, é um tema muito mais delicado do que pensamos, é um assunto que envolve muitas coisas e, para mim, é simples. O rapaz (Prestianni) tapou a boca, não deveria ter tapado a boca para dizer o que precisava dizer, e isso gera toda essa comoção. Agora é a palavra de um contra a do outro, e isso é muito delicado. A verdade é que, se ele disse, tem que pagar, mas é como eu repito: é a palavra de um contra a do outro, e não sou eu quem pode julgar — disse. Diante da repercussão negativa no Brasil, o técnico do Flamengo divulgou uma nota oficial no dia seguinte. O treinador do Flamengo reconheceu que suas declarações deram margem para "interpretações distintas" e negou que teve a "intenção de relativizar ou minimizar qualquer atitude racista". Veja a declaração na íntegra: "Após a partida de ontem contra o Lanús, durante a coletiva de imprensa organizada pela Conmebol, minutos após o fim do jogo, fui questionado por um repórter argentino. Ele iniciou seu raciocínio citando mais um caso de racismo sofrido por Vinícius Júnior, quando me perguntou como o Flamengo foi recebido nas últimas vezes em que esteve no país. Ao longo da resposta, procurei abordar minhas experiências pessoais na Argentina. Em momento algum tive a intenção de relativizar ou minimizar qualquer atitude racista. Reconheço que minha fala, diante da extrema sensibilidade do tema, pode ter aberto margem para interpretações distintas. Por isso, considero fundamental reforçar publicamente minha posição, que sempre foi inegociável: o racismo é crime no Brasil e deveria ser tratado com o mesmo rigor em todos os países. Trata-se de uma conduta inaceitável, que deve ser combatida e punida de maneira firme. O futebol, como espaço de diversidade e integração, não pode tolerar qualquer forma de discriminação. Reforço ainda que, antes da partida, em entrevista exclusiva ao detentor de direitos, expus minha visão sobre o episódio, classificando como covarde a atitude do jogador que tapou a boca para praticar atos racistas. Jamais colocaria em dúvida a palavra da vítima em um caso grave como esse. Por fim, reitero meu total apoio a Vinícius Júnior em mais um lamentável episódio envolvendo racismo no esporte, algo que já não deveria mais ocorrer, mas que infelizmente ainda se repete e, muitas vezes, passa impune".