A música já foi o ponto alto de qualquer viagem a Las Vegas. Nos anos 1960, astros e estrelas como Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Frank Sinatra se apresentavam nos salões de espetáculos acompanhados por uma orquestra de 70 músicos, enquanto os lounges — bares menores e mais discretos, com vista para o cassino — ofereciam um espaço para artistas menos conhecidos se soltarem. Uma jam session típica podia durar até as 5h. Um show sempre estava prestes a começar, não importava a hora em que você chegasse. Las Vegas: cidade é escolhida como a mais divertida para se visitar uma vez na vida, diz estudo 'Sabor Porto Rico': conheça bebida queridinha de Bad Bunny e prima da cachaça Esses dias de descontração já acabaram há muito tempo. Os lounges, contudo, continuam existindo; na verdade, estão passando por um renascimento. Do Pinky Ring, liderado por Bruno Mars, a clubes no estilo speakeasy (lugares secretos, íntimos e sofisticados que replicam a atmosfera dos estabelecimentos clandestinos da era da Lei Seca nos EUA na década de 1920), como o Easy's e o Count Room, há um foco renovado na Strip em bares e restaurantes que destacam cantores locais em ambientes intimistas e teatrais. Só não se esqueça de vir com pedidos. Christina Amato se apresenta no Delilah, um restaurante intimista no hotel-cassino Wynn Las Vegas, onde se mantém viva a tradição dos cantores de lounge na cidade Tag Christof/The New York Times No fim da década de 1970, Bill Murray fez uma paródia memorável de um cantor de lounge no "Saturday Night Live", e a caricatura continua verdadeira. Ao contrário dos cantores-compositores, os cantores de lounge não costumam incluir material original no repertório, transitam livremente entre gêneros e apostam no carisma. A essência do trabalho deles é criar o clima. — Não somos o foco principal. Criamos um ambiente que as pessoas querem frequentar — disse Christina Amato, cantora com apresentação regular no Delilah, o espaço do Wynn inspirado em clubes noturnos. Aqui estão alguns locais de destaque onde os cantores mantêm o estilo antigo. Delilah Mesa no Delilah, salão de jantar no hotel-cassino Wynn Las Vegas, onde acontecem apresentações de jazz Tag Christof/The New York Times Vale a pena reservar com antecedência uma mesa no Delilah, o templo do Wynn dedicado ao maximalismo da era do jazz. O salão de jantar elegante, com detalhes em esmeralda e latão, tem 160 lugares, mas as apresentações têm um ar intimista, como se fossem apenas para convidados. Em comparação com boates como a Omnia e a Drai's, o público do Delilah é menos tímido quando se trata de cantar junto. E esse é o objetivo. — Ouvíamos sempre que a música não era tão boa nas boates. As pessoas queriam sair para ouvir as canções que amam — afirmou Brian Toll, cofundador do h.wood Group, que opera o Delilah e outros espaços de diversão noturna. Um prato principal típico custa cerca de US$ 55, mas são os shows animados, que vão até altas horas da noite, com dançarinas usando penas e trompetistas passeando entre as mesas, que diferenciam o Delilah. E, é claro, os cantores. Amato é uma artista de destaque no clube desde que ele foi inaugurado em 2021. (Existem outras unidades em Miami e Los Angeles; uma versão em Nova York será inaugurada em maio.) Nascida em Las Vegas e com uma predileção por vestidos brilhantes e saltos altos, Amato descreveu o Delilah como um trabalho dos sonhos. Como quase sempre há celebridades na plateia, todas as noites reservam uma surpresa. — Na primeira noite em que trabalhei aqui, pude cantar Dua Lipa para Dua Lipa — ela contou. Não são apenas os visitantes que esperam conseguir um lugar ali: o Delilah também se tornou um local cobiçado pelos artistas. Segundo Amato, essa competição é o que mantém a qualidade da música tão alta. — Todos os meus amigos músicos querem uma boa recomendação no Delilah — acrescentou. Nowhere O baterista Michael Bradford faz parte da banda de Mikalah Gordon no Nowhere, bar no segundo andar do Fontainebleau Las Vegas Tag Christof/The New York Times O Fontainebleau anuncia seu bar no segundo andar, o Nowhere, como um speakeasy, embora o local se pareça mais com a Park Avenue do que com o PDT, o antro subterrâneo no East Village de Nova York que ajudou a dar início à moda dos bares secretos em 2007. Ao entrar, os clientes passam por um amplo saguão antes de chegar à sala principal, com suas colunas altíssimas, suas banquetas envolventes e seus tampos de mesa espelhados. Você quase espera que Truman Capote esteja espreitando atrás das cortinas. O Nowhere é essencialmente um clube de jazz, com várias bandas residentes se apresentando toda noite. A entrada gratuita e os coquetéis chamativos (a partir de US$ 21) fazem dele um lugar ideal para um encontro romântico ou para viajantes solitários que querem socializar. A cantora Mikalah Gordon garante que o ambiente seja descontraído. — Você quer que ele se sinta parte do show — ela disse a respeito do público. A cantora Mikalah Gordon se apresenta no Nowhere, bar no segundo andar do Fontainebleau Las Vegas Tag Christof/The New York Times Dona de uma voz poderosa, Gordon não tem medo de misturar o antigo com o novo. (Uma das músicas é um medley de "Georgia on My Mind" e "Peaches", de Justin Bieber.) Quando vê recém-casados na plateia, canta "At Last", de Etta James. É claro que os hinos do Rat Pack (apelido dado a um grupo de artistas populares muito ativo entre meados da década de 1950 e meados da década de 1960) também têm grande destaque no repertório. — Sinatra nunca vai sair de moda — ela comentou. Indigo Lounge Você não vai encontrar lantejoulas ou dançarinas no Indigo Lounge, bar despojado que se abre para o piso do cassino do Hotel Horseshoe. O cardápio de bebidas acessível (cervejas nacionais por US$ 5) e o ambiente despretensioso atraem uma mistura de turistas e viajantes a negócios em seus momentos de folga; se eles aparecerem entre 19h e 23h em um fim de semana, assistirão a um show. Em uma sexta-feira recente, o cantor e pianista Barraque Monfils-Evangelista cantou sucessos como "Fast Car", "Careless Whisper" e "As Long as You Love Me", enquanto duas mulheres dançavam nas proximidades. "Adoramos bares com piano!", exclamou Kelly Holmes, de 56 anos, que estava na cidade com sua irmã para assistir a "O Mágico de Oz" no Sphere. Monfils-Evangelista encarou com naturalidade o entusiasmo delas. Desde que se mudou de Houston para Las Vegas em junho, tem trabalhado constantemente em saguões de hotéis, restaurantes e bares. Reconheceu que a natureza transitória desses espaços significa que seu público muitas vezes está distraído ou não presta atenção. Mas ele prefere assim: — Gosto porque posso ser um artista, mas também consigo ser um pouco anônimo. As pessoas dão mais gorjetas aqui (em Las Vegas), e adoro isso. Italian American Club O cantor Nick Cole no Italian American Club, um bar e restaurante na Sahara Avenue, em Las Vegas Tag Christof/The New York Times Em vez de gastar US$ 100 em ingressos para um show em homenagem ao Rat Pack, considere visitar o Italian American Club, que oferece o dobro da história pelo preço de um coquetel (US$ 12,50). O restaurante e bar fora da Strip, na Sahara Avenue, existe desde 1960 e tem fotos autografadas de Joe DiMaggio e Tony Bennett para provar isso. A clientela do jantar é composta quase exclusivamente de moradores locais, que vêm para comer pratos fartos de penne rustica (US$ 25) e costeletas de porco com osso duplo (US$ 33). John Ilyko, comissário de bordo de 66 anos da Southwest Airlines, que é frequentador assíduo do local desde os anos 1980, considera o ambiente tradicional um grande atrativo: — Quando você entra, eles perguntam se você quer ficar no salão de jantar ou no lounge. Prefiro o segundo. A partir das 18h na maioria das noites, o cantor Nick Cole, de 45 anos, reina como o crooner oficial do restaurante. Nascido e criado em Las Vegas — seu pai era pianista de Buddy Greco —, ele começou a carreira aos 22 anos com uma apresentação no Galleria Lounge, dentro do Caesars Palace. E, embora o público mude, as músicas permaneceram praticamente as mesmas. — Depois do jantar, as pessoas se viram na cadeira; querem ouvir "One for My Baby" e "Unforgettable". Ficam emocionadíssimas com isso — ele contou. Havana 1957 O palco do restaurante cubano Havana 1957, dentro do Flamingo Las Vegas Tag Christof/The New York Times A cantora cubana Noybel Gorgoy se apresenta na Strip desde 2004, incluindo uma participação no "Havana Night Club", espetáculo de revista de Siegfried & Roy no Stardust, que já encerrou suas atividades. Quando lhe pediram que criasse um show para o Havana 1957, novo restaurante no Flamingo que serve ropa vieja clássica (US$ 32) e empanadas (US$ 18), ela viu uma oportunidade. — Recorri a tudo que sei, todas as experiências que tive como cantora em Las Vegas, além da minha origem cubana — disse a cantora, que escolheu clássicos cubanos, incluindo "Guantanamera" e "Quizás, Quizás, Quizás", bem como chá-chá-chá, reggaeton e sucessos americanos modernos. Agitando um leque de penas de avestruz e desfilando em frente a um piano vermelho, Gorgoy sabe como fazer um show. Durante uma apresentação recente, brincou com o público e convidou membros da plateia para dançar no palco. Contou que as pessoas costumam comentar que a experiência foi muito importante para elas. — Dizem: "Adoro que isso ainda exista. Você vem jantar e assiste a um show ao vivo. Deveríamos ter mais programas desse tipo!" O show de Gorgoy no Havana 1957 recentemente entrou em hiato. Você pode vê-la no Bootlegger Italian Bistro's Copa Room, apresentando-se com Santa Fe & the Fat City Horns em 27 de abril. Um novo espetáculo focado em música latina está sendo planejado para o Havana 1957.