Flamengo: Danilo telefonou para Filipe Luís após comentário polêmico sobre caso de racismo contra Vini Jr

Nos últimos dias, Filipe Luís vivenciou uma situação inédita. O técnico do Flamengo foi alvo de uma enxurrada de críticas. Mas não aquelas relacionadas ao desempenho do time. E, sim, aos seus primeiros comentários sobre o novo caso de racismo sofrido por Vini Jr. As declarações repercutiram mal e o deixaram desgastado perante à opinião pública. Até mesmo jogadores do elenco rubro-negro conversaram com ele. Principalmente Danilo. Briga na Justiça: Scarpa, do Atlético-MG, fala de reencontro com Willian Bigode e faz cobrança Vasco: Fernando Diniz é demitido após derrota para Fluminense Conhecido pela forma como se expressa sobre temas que vão além do futebol, o zagueiro já havia feito uma postagem nas redes sociais que foi lida como indireta a Filipe Luís. Menos de um dia após a fala do técnico, Danilo compartilhou uma declaração de três anos atrás na qual afirmava que "as pessoas brancas precisam escutar". Mas a verdade é que o jogador teve a oportunidade de dizer o que pensa para o treinador, já que os dois conversaram sobre o episódio. Após Filipe Luís minimizar racismo a Vini Jr, Danilo faz postagem: 'As pessoas brancas precisam escutar' Reprodução Segundo Filipe, Danilo lhe telefonou no dia seguinte à entrevista na Argentina, onde o Flamengo enfrentou o Lanús, pela Recopa, para conversar sobre o assunto. O zagueiro o ajudou a entender a repercussão em torno de sua fala. O técnico do Flamengo ainda conversou com outros jogadores do elenco. - Nós chegamos de viagem (da Argentina) às 9h da manhã, mais ou menos, sem dormir. O trânsito que tinha até chegar em casa foi de duas horas. Cheguei em casa, dormi, acordei à tarde e vi tudo que estava acontecendo. Falei com o (Rodrigo) Paiva (diretor de comunicação do Flamengo) para escrever uma nota (divulgada horas mais tarde pelo clube). Obviamente é melhor falar. Mas eu não gosto de gravar vídeo em rede social. Vi o que estava acontecendo, o Danilo me ligou para explicar a situação que aconteceu. Falei com os jogadores, com os capitães. Expliquei tudo exatamente o que aconteceu. Eu não tenho problema nenhum de explicar. E fui muito claro, como eu sempre trato as questões com os meus jogadores - contou Filipe, neste domingo, no Maracanã. O técnico iniciou a entrevista coletiva deste domingo se explicando. Ele manifestou apoio a Vini Jr, repudiou o racismo e explicou que, ao chamar o episódio de "caso isolado", na verdade queria dizer "caso específico". - Eu sei que, como treinador, a minha postura pública gera muita expectativa. E realmente pode ser que eu não tenha me explicado com suficiente clareza sobre o assunto. Eu repudio o racismo, eu condeno o ato racista. Racismo é crime, é crime. Como eu falei um dia antes, num meio de comunicação (argentino): se ele (Gianluca Prestianni, do Benfica) fez isso, não cabe a mim julgar, mas se ele fez que ele pague. Que pague com força. Porque eu chegar aqui e falar é fácil. Fazer camiseta "não ao racismo" é fácil. Usar pulseira antirracismo é fácil. Tudo isso é muito fácil. O difícil é punir. Se ele fez, que ele pague, que fique bem claro - disse Filipe, que continuou: - Outra coisa que eu quero deixar bem claro foi a palavra que eu usei na pergunta do companheiro de vocês. A pergunta dele foi como o Flamengo foi tratado nas visitas que fez na Argentina. E eu quis dizer daquele caso isolado dentro do campo, que foi aquele caso que aconteceu naquele jogo. Existem mais casos? Existem mais. Muitos mais. Na Argentina, no Paraguai, na Espanha, na Inglaterra, no Brasil. Existem muitos casos de racismo no Brasil. E eu amo o meu país. Existem casos de racismo, de homofobia, de machismo, de corrupção. E, (apesar de) todos esses problemas, não quer dizer que eu não tenha que amar o meu país. E que eu não possa gostar da Argentina. Eu gosto, amo o Brasil, e que fique bem claro que eu quis me expressar de um caso específico. Entenda o caso Vini Jr e Filipe Luís O episódio de racismo contra Vini Jr ocorreu na última terça-feira. Autor do gol da vitória do Real Madrid (1 a 0) sobre o Benfica, em Lisboa, o atacante celebrou numa das bandeirinhas do Estádio da Luz após balançar as redes. O gesto gerou confusão e rendeu um cartão amarelo para o brasileiro. Depois, ele denunciou que o argentino Gianluca Prestianni, do time da casa, o chamou de "mono" ("macaco", em espanhol), falando por baixo da camisa. O árbitro chegou a ativar o protocolo de racismo e paralisar a partida. O jogo ficou parado por cerca de dez minutos e uma confusão generalizada ocorreu no gramado entre os times e as comissões técnicas. Vini e outros jogadores do Real foram hostilizados até o final. O caso repercutiu em todo o mundo do futebol e gerou reações de treinadores e jogadores. Na Argentina, Filipe foi um dos que respondeu a uma pergunta sobre o assunto. — Sobre isso, sempre fui muito bem tratado, a Argentina me encanta. Sou muito feliz aqui, muito bem recebido. Só tenho boas palavras para a Argentina. Um caso isolado como esse não influencia em nada do que penso sobre este país, que é tão lindo — afirmou Filipe Luís na entrevista coletiva após o jogo contra o Lanús. Filipe também falou sobre o tema para uma TV argentina. O treinador não tomou partido da situação e resumiu o episódio à palavra de Vinicius Junior contra de Prestianni, uma vez que o argentino tapou a boca para falar com o brasileiro. — Bom, é um tema muito mais delicado do que pensamos, é um assunto que envolve muitas coisas e, para mim, é simples. O rapaz (Prestianni) tapou a boca, não deveria ter tapado a boca para dizer o que precisava dizer, e isso gera toda essa comoção. Agora é a palavra de um contra a do outro, e isso é muito delicado. A verdade é que, se ele disse, tem que pagar, mas é como eu repito: é a palavra de um contra a do outro, e não sou eu quem pode julgar — disse na ocasião. Diante da repercussão negativa no Brasil, o técnico do Flamengo divulgou uma nota oficial no dia seguinte. O treinador reconheceu que suas declarações deram margem para "interpretações distintas" e negou que teve a "intenção de relativizar ou minimizar qualquer atitude racista". Veja a declaração na íntegra: "Após a partida de ontem contra o Lanús, durante a coletiva de imprensa organizada pela Conmebol, minutos após o fim do jogo, fui questionado por um repórter argentino. Ele iniciou seu raciocínio citando mais um caso de racismo sofrido por Vinícius Júnior, quando me perguntou como o Flamengo foi recebido nas últimas vezes em que esteve no país. Ao longo da resposta, procurei abordar minhas experiências pessoais na Argentina. Em momento algum tive a intenção de relativizar ou minimizar qualquer atitude racista. Reconheço que minha fala, diante da extrema sensibilidade do tema, pode ter aberto margem para interpretações distintas. Por isso, considero fundamental reforçar publicamente minha posição, que sempre foi inegociável: o racismo é crime no Brasil e deveria ser tratado com o mesmo rigor em todos os países. Trata-se de uma conduta inaceitável, que deve ser combatida e punida de maneira firme. O futebol, como espaço de diversidade e integração, não pode tolerar qualquer forma de discriminação. Reforço ainda que, antes da partida, em entrevista exclusiva ao detentor de direitos, expus minha visão sobre o episódio, classificando como covarde a atitude do jogador que tapou a boca para praticar atos racistas. Jamais colocaria em dúvida a palavra da vítima em um caso grave como esse. Por fim, reitero meu total apoio a Vinícius Júnior em mais um lamentável episódio envolvendo racismo no esporte, algo que já não deveria mais ocorrer, mas que infelizmente ainda se repete e, muitas vezes, passa impune".