Uma viagem à Bahia, um novo relacionamento e a realização de uma exposição de arte. As metas traçadas pelo publicitário João Laurindo, de 25 anos, para 2025 não ficaram apenas no papel: todas se concretizaram ao longo do ano e tiveram como ponto de partida uma ferramenta já conhecida nos campos da criação artística e estratégica, mas que, nos últimos tempos, ganhou contornos quase ritualísticos — o vision board. Sexo ficou em segundo plano? Geração Z valoriza sono, carreira e momentos a sós, aponta estudo Milton Cunha relembra sexo com amigas da faculdade: 'Fazíamos até na escada' Embora hoje figure como trend entre millennials e a geração Z — impulsionada por tutoriais nas redes e muitas vezes associada à fé, à manifestação e à lei da atração —, a prática não é nova. Popular nos anos 2000 em formatos mais intuitivos de colagem, ela ressurge agora com outro sentido. Diferentemente do mood board, usado na publicidade, no marketing e na moda para definir a estética de projetos, o vision board saiu dos escritórios criativos e passou a integrar o cotidiano. Tornou-se uma ferramenta de planejamento pessoal para quem atua como “manager” da própria vida, organizando desejos, metas e intenções em painéis visuais — digitais ou de papel — que combinam imagens, palavras, frases e símbolos para orientar escolhas no dia a dia. “Ele traz clareza e também uma sensação maior de controle. Como fica na tela de bloqueio do notebook, ao longo do ano consigo acompanhar o que já foi concretizado”, conta João Laurindo. Vision board digital Reprodução/Redes sociais Para o designer e diretor artístico Gringo Cardia, a força das colagens está justamente na capacidade de dar forma ao abstrato. Com experiência no Cirque du Soleil, onde vision boards coletivos orientavam processos criativos, ele pondera que, sem critério, o acúmulo de referências pode virar dispersão. “Funciona como uma ferramenta de curadoria num mar de imagens”, afirma. E resume: “Curadoria é pensamento”. Na avaliação da psicanalista Michèle Mayer, o gesto pode ser entendido como um processo de simbolização, no qual desejos difusos ganham forma. Ela pondera, no entanto, que, embora a prática manual possa funcionar como uma atividade positiva fora das telas, as redes sociais representam um risco nesse percurso, por serem produtoras constantes de desejos e comparações diárias. “Na psicanálise, o desejo nunca é totalmente individual; ele é atravessado pela cultura, pela família e pela sociedade.” O vision board saiu dos escritórios criativos e passou a integrar o cotidiano Reprodução/Redes sociais Para Michèle, o valor do vision board está em questionar a origem e o sentido desses desejos, responsabilizando o sujeito por eles, e não em esperar que forças externas os concretizem. É assim que a maquiadora Talita Dias, de 26 anos, se relaciona com o próprio vision board. Para ela, o painel não é uma promessa de realização automática, mas um lembrete de que nada acontece sem ação. Formada em Administração, ela conta que, desta vez, optou por um painel físico mantido na cabeceira da cama. No ano passado, tentou usá-lo como tela de bloqueio do celular, com metas ligadas à alimentação saudável e à rotina de exercícios, mas acabou ignorando o recurso. O movimento dialoga com o que o terapeuta e pesquisador na área de emoções, Renato Caminha, define como ambientação: “Quando você vê a mesma imagem todos os dias, o cérebro se dessensibiliza. Sem conexão emocional, vira só mais uma tarefa.” Para terapeutas e psicanalistas, à luz de Freud, o pensamento mágico oferece uma sensação momentânea de controle diante da incerteza, funcionando como um recurso psíquico de segurança num mundo cada vez mais caótico. O risco surge quando o vision board se apoia apenas na crença de que o “universo vai conspirar”, sem elaboração crítica ou ação. Como alerta Renato: “Se isso for feito só por modismo, vira mais uma trend que não muda nada na vida da pessoa”.