Tal qual uma Fênix, o grupo canadense Rush reapareceu ano passado com uma novidade que iria sacudir o mundo do rock: o celebrado trio canadense, que não fazia shows desde 2015 (e que acabou com as esperanças dos fãs em 2020, dada a morte do baterista Neil Peart por um câncer no cérebro) anunciou uma turnê pelos EUA, Canadá e México, com um total de sete shows, começando em Los Angeles em 7 de junho de 2026. No lugar de Peart, Geddy Lee (baixo, teclados e voz) e Alex Liefson (ambos de 72 anos), viria a alemã Anika Nilles, 30 anos mais jovem, que já tocara com o mago da guitarra Jeff Beck. Os ingressos para as 22 datas iniciais se esgotaram imediatamente, o que levou à abertura de mais shows, totalizando 58 apresentações em 24 cidades e mais de meio milhão de ingressos vendidos para 2026. Faltava o quê? O Rush vir ao Brasil, onde em 2002 gravou o álbum e DVD ao vivo “Rush in Rio”. Pois não falta mais: esta segunda-feira, o grupo anunciou para 2027 datas na América do Sul, no Reino Unido e na Europa de sua Fifty Something Tour. Cada show dessa turnê contará com uma seleção distinta de músicas, e o Rush montará o repertório de cada noite a partir de um catálogo de mais de 40 canções, incluindo seus maiores sucessos e favoritos dos fãs. Crítica: Bad Bunny dá baile no país que se orgulha de comandar o baile ‘Racional’: Rejeitado por Tim Maia e cultuado por fãs, disco ganha primeira reedição oficial em vinil Trazidos pela produtora 30e, eles começam a mini-turnê brasileira por Curitiba (Arena da Baixada) em 22 de janeiro, seguindo para São Paulo (Allianz Parque) dia 24, Rio de Janeiro (Estádio Nilton Santos – Engenhão) dia 30, Belo Horizonte (Estádio Mineirão) em 1º de fevereiro e Brasília (Arena BRB Mané Garrincha) dia 4. Clientes Itaú terão acesso a uma pré-venda com 15% de desconto em ingressos adquiridos com cartões de crédito do banco, a partir de quarta-feira, às 10h. A venda geral começa às 11h da sexta, pela Eventim Ao fim de duas semanas de ensaio com Anika Nilles e o tecladista americano Loren Gold (que já tocou com bandas como The Who e Chicago), Lee e Liefson conversaram por Zoom com O GLOBO. — Começamos com a Anika há quase um ano, em março passado. Ensaiávamos uma semana aqui, outra semana ali, mas, de alguma forma, esses últimos ensaios agora foram o ponto de virada, estamos realmente nos entrosando agora — informa Alex Liefson. — A Anika está ficando mais confortável com o material e o Loren está se saindo muito bem. As músicas estão soando bem e coesas... elas percorreram um longo caminho desde um ano atrás, com certeza. E acho que tanto eu quanto a Geddy estamos nos sentindo muito bem. Os dedos estão começando a ficar calejados e ainda temos alguns meses pela frente. Então, acho que estaremos em ótima forma quando tudo terminar. O guitarrista admite que ele e Lee tiveram que reaprender a tocar as canções do Rush: — Não tocamos muitas dessas músicas por muito tempo, na verdade por uns 10 anos. Quando nos sentamos para aprendê-las, percebemos o quão difíceis são as músicas do Rush. Quando você as toca todos os dias em turnê por anos e anos a fio, você nem pensa nisso. Você pode ler um jornal e tocar uma música ao mesmo tempo. Mas quando você está longe disso, primeiro, seus dedos não estão em forma para tocar tantas notas. E depois, quando você se envolve com a banda, a exigência de foco e concentração é incrível. Tem sido um trabalho árduo reconstruir isso e voltar a funcionar. A baterista alemã Anika Niles, que toca com o Rush Reprodução do Instagram Antes da chegada de Anika Niles, Lee e Liefson tocaram, em diferentes ocasiões, com alguns dos maiores bateristas em atividade no rock (inclusive Dave Grohl, líder dos Foo Fighters, em show homenageando Taylor Hawkins, o falecido baterista dos FF). Mas o baixista diz que só agora eles estão começando a se sentir novamente como uma banda. — Escolher um baterista para substituir Neil Peart é uma tarefa impossível, não importa quem tivéssemos escolhido, de outras bandas famosas ou não. Acho que a profundidade do talento de Anika é uma vantagem, mas além disso, seu conhecimento musical e sua disposição para se expor não podem ser subestimados, porque é um trabalho muito difícil, e ela parece não só destemida, como também disposta a assumir o desafio e ser o mais fiel possível ao espírito de Neil — explica Lee. — E isso não é fácil de se pedir a um baterista. Claro, ela terá momentos em que será exatamente ela mesma. Mas quando é importante para ela homenagear Neil, ela não tem problema nenhum em fazê-lo. É tão divertido tocar com Anika que ela está nos fazendo sentir jovens de novo! Além disso, ela quer participar dessa jornada e quer nos fazer felizes, assim como aos fãs. Geddy Lee conta que há 11 anos tem ouvido a mesma pergunta: “Você sente falta do público?” — Para ser sincero, não. Sinto falta é da alegria, da magia de estar em um palco com outros músicos, todos focados em um único objetivo: tocar nossa música da forma mais perfeita possível, com o máximo de coração que conseguimos colocar nela — diz. — E em uma noite em que isso funciona, essa é a melhor sensação que alguém pode esperar na vida. É realmente incrível, e é disso que eu sentia falta. E é por isso que, quando Alex e eu começamos a tocar essas músicas novamente, nos olhamos e pensamos: “Recuperamos a posse dessas canções porque colocamos nosso coração e alma nelas.” É disso que se trata essa turnê para mim. Quero resgatar aquela capacidade de estar no meio da música, tocando com toda a minha energia, me dedicando ao máximo e, então, olhar para a plateia e ver sorrisos em seus rostos. Isso é magico. Mamonas Assassinas: Relembre tragédia que interrompeu no auge a trajetória da banda que marcou os anos 1990 Eles, que sempre foram três no palco, são quatro caras agora. Mas não importa. — Quero que as pessoas sintam que ainda é o Rush, mas não é o mesmo Rush. Não estamos tentando copiar o que fizemos. Não estamos tentando substituir o Neil. Isto é uma celebração de todos esses anos, é uma celebração da música que Neil, Alex e eu criamos ao longo de 45 anos de nossas vidas, o período mais criativo de nossas vidas — diz o baixista. — Então, ter essas outras pessoas conosco agora é um bônus. No cerne dessas músicas, estão três instrumentos. E Lauren agora tira um pouco da pressão de eu tocar com os pés (que ele usava para acionar sintetizadores), para que eu possa fazer melhor meu trabalho com as mãos e a voz. Geddy Lee e Alex Liefson, que eram amigos de infância em Toronto, formaram o Rush em 1968 e chegaram a gravar um álbum, “Rush” (1974, de estreia), com outro baterista, John Rutsey. Audições para um substituto (já que Rutsey começou a padecer com a diabetes) o levaram a Neil Peart, que acabaria virando não só um grande amigo, mas o autor das elaboradas e imaginativas letras do Rush. — Ele teve a tarefa mais difícil porque entrou para o grupo em 1974 e se juntou a uma amizade que já era como um pequeno clube. Então, ali estava esse cara vindo de uma origem diferente, com uma experiência de vida diferente. Alex e eu éramos muito próximos e falávamos nossa própria língua, mas Neil não se intimidou — conta Lee. — Acho que (tudo deu certo porque) ele não só tinha uma visão brilhante da vida, mas também um ótimo senso de humor e porque queria fazer parte daquilo. Basicamente, nos conhecemos duas semanas antes de partirmos para nossa primeira turnê americana. Então, estávamos meio que nos observando, pensando quem era essa criatura nova no nosso meio. Mas logo estávamos fazendo as mesmas piadas, e encontramos um terreno comum graças ao humor. Neil Peart, com o Rush, no Maracanã, em 2002 Ana Branco Em 23 de novembro de 2002, o Rush fez um lendário show no Maracanã, de encerramento de sua turnê mundial, que daria em “Rush in Rio”. — A plateia foi simplesmente incrível. Quando estávamos mixando o álbum no estúdio, em um dado momento, abaixamos todos os canais da banda e deixamos só a plateia. E durante “YYZ”, todo mundo cantou junto. “YYZ”, uma música instrumental, que não tem letra nem nada! Eu fiquei arrepiado, aquela plateia foi sensacional — recorda-se Alex Liefson. Geddy Lee assina em baixo. — O público desses shows no Brasil nos impressionou muito, e me lembro até do Neil ter ficado chocado, agradavelmente surpreso. E nos sentimos meio bobos, de certa forma, por nunca termos realmente entendido a nossa popularidade no Brasil (eram seus primeiros shows no país). Nos sentimos um pouco desinformados, por assim dizer — diz. — Acho que aquela foi uma ocasião especial para nós. Foi nossa primeira turnê em muito tempo, depois de tudo o que Neil passou e das reviravoltas trágicas em sua vida (anos antes, o baterista havia perdido a filha em um acidente automobilístico e, logo depois, a mulher para um câncer). Então, encerrar essa turnê monumental dessa forma pareceu apropriado, uma maneira de preservar a memória delas. Hermeto Pascoal: Nave Mãe e demais discípulos mantêm viva a obra do gênio da música que se foi em 2025 Para o baixista, parte do inesgotável apelo que o Rush tem para os seus fãs de longa data “reside no fato de tentarmos tornar nossa música interessante em si mesma, na arquitetura interna de cada canção”. — Elas têm pequenas complexidades. Você pode ouvi-las uma vez, mais 10 vezes, e ainda descobrir algo novo em cada uma delas. Então, isso faz parte do segredo. Acho que isso dá longevidade à música — arrisca. — Mas também acho que muitos dos nossos fãs, quando nos descobriram, eram talvez os únicos entre seus amigos que nos conheciam. E para eles, nos tornamos uma espécie de prazer secreto. Eles se orgulham de terem sido os primeiros a nos descobrir e adoram apresentar nossa música para outras pessoas. Quando jovem, eu mesmo me orgulhava de conhecer umas seis bandas de rock progressivo que nenhum dos meus amigos as conhecia! O Rush é uma banda que passou por diferentes fases ao longo de sua carreira. — E ninguém quer que suas bandas favoritas mudem, porque querem que ela continue a fazê-los felizes da mesma forma que quando a descobriram. Mas se você ama música progressiva como eu amava, você fica ansioso a cada lançamento de um álbum do Yes, porque era um desafio para mim tentar entendê-lo — admite Geddy Lee. — E acho que, para os jovens de hoje, cada álbum do Rush, independentemente do período, seja a fase hard rock, a fase mais progressiva com teclados ou a fase grunge mais minimalista, todos esses discos são um desafio para eles. E são desafios igualmente importantes. Tanto quanto o som do Rush, importavam as capas dos LPs: elaboradas, fantásticas e misteriosas, criadas pelo artista gráfico Hugh Syme. — Neil era o letrista e Hugh o intérprete artístico de como essas letras se expressariam visualmente. Eles trabalhavam muito juntos, e acho que sempre houve a ideia de que os conceitos dos discos se refletissem nas capas. São capas bem únicas, quase místicas ou fantásticas, e esse é um estilo que Hugh desenvolveu muito bem ao longo dos anos — diz Alex Liefson. Capas de discos do grupo canadense Rush Reprodução Geddy Lee complementa: — Sei que o Hugh pedia uma cópia das letras assim que o Neil estivesse satisfeito com elas. E eles se aprofundavam bastante, mesmo quando estávamos fazendo um álbum que não era conceitual. Mas mesmo nesses, havia um conceito, a gente simplesmente não anunciava isso aos quatro ventos. Em seu estilo próprio, Hugh descobria como interpretar aquilo. Era muito interessante, nós meio que crescemos juntos. Alex Liefson reconhece que hoje vivemos em tempos estranhos, mesmo para os fãs do Rush. — Tudo progride, tudo avança. Mas estamos em um desses períodos em que a mudança é muito mais profunda do que talvez tenha sido no passado, quando tivemos a disco music, o punk e outros movimentos semelhantes. Acho que a música pop é enorme agora, maior do que nunca, existem muitos gêneros diferentes dentro dela. É um desafio para o mundo do rock — acredita. — Não prestamos muita atenção ao que está acontecendo atualmente, estamos ocupados com nossos próprios projetos, tentando desenvolver algo mais tradicional, algo que achamos que os fãs realmente vão curtir: uma grande apresentação ao vivo, com muita interação no palco e tudo mais. Os dias de ficar sentado na sala de estar com a capa do álbum, ouvindo a música e lendo a capa repetidamente... Isso é coisa do passado. Infelizmente acabou e não acho que vá voltar. Crítica: 'Days of ash', do U2, deixa Bono e companhia com a consciência limpa, mas os fãs mereciam mais Com as novas tecnologias, Geddy Lee vê uma “desvalorização da música”. — Mas, ao mesmo tempo, as pessoas hoje precisam de música provavelmente mais do que nunca. Só que você precisa navegar por todas as plataformas de streaming para encontrar e descobrir algo novo. É muito mais difícil para novos artistas sobreviverem e muito mais difícil para compositores sobreviverem. Então, todas essas coisas se tornaram desafiadoras, inclusive para o ouvinte — discorre. — Acho incrível que o vinil voltou a ser relevante, é bom para a música quando as pessoas compram vinil, isso muda a forma como você vê a música. Porque se é algo precioso, um pedaço de vinil que pode ser destruído, você tende a cuidar mais dela e a se importar mais com ela. Com o foco todo voltado para a turnê, o esforço em deixar todas as músicas prontas, Alex Liefson diz que não há tempo para pensar em composições novas para o Rush: — Mais para frente, no entanto, quem sabe o que pode acontecer? Quero dizer, existe uma inspiração que surge simplesmente ao tocar essas músicas antigas. Quando estou tocando em casa, percebo que acabo tocando músicas diferentes, coisas diferentes. Então, talvez haja mais para frente uma faísca que me inspire, e eu possa dar boas risadas, tomar um café e depois fazer alguma coisa.