De conselho do pai à paixão pelo ofício: filha de piscicultor transforma pele de tilápia em artigos de moda e biojoias

Filha de piscicultor transforma pele de tilápia em artigos de moda e biojoias A pele de tilápia ganhou um novo destino no interior de São Paulo, a partir da iniciativa de uma moradora de Presidente Prudente (SP), que desenvolveu peças originais, como sapatos, bolsas e biojoias, que vão além da questão estética e também promovem impacto socioambiental. Ao g1, Katia Mastroto, de 52 anos, descreve a importância de sua marca, a UnaPele Couros, sob uma perspectiva pessoal e social. Tudo começou há 10 anos, quando o pai da empreendedora lhe mostrou o caminho que ela poderia seguir. Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Isso porque o pai de Katia, Sérgio da Silva Mastroto, era piscicultor e tinha tanques de tilápia em Presidente Epitácio, onde morava. Em 2016, porém, ele foi vítima de leucemia e não resistiu à doença, após sete meses do diagnóstico. “A sabedoria e a força dele, mesmo no leito do hospital, já nos seus últimos dias de vida. A lembrança mais forte é dele erguendo o dedo, com dificuldade, e me dando a direção que mudaria minha vida: ‘O peixe é seu, o peixe é o caminho’”, afirma Katia. Katia Mastroto criou a marca UnaPele Couros, a partir de pele de tilápia, no interior de SP Katia Mastroto/Reprodução Ao lado do irmão, Katia continuou os negócios da família, vendendo os peixes e descartando as peles, até que percebeu que poderia reaproveitar o material de alguma forma. “A semente foi plantada logo após o falecimento dele, quando abri a empresa de filés. A ‘dor’ de ver o descarte da pele no aterro sanitário, sob chuva e urubus, me fez prometer que daria um destino digno àquele resíduo”, relembra. A visualização real do couro aconteceu quando a empreendedora encontrou um pedaço de couro que o pai havia produzido entre os seus pertences. “Ele previu meu destino antes mesmo de eu conseguir enxergá-lo. Hoje, sou uma ‘apeixonada’ pelo que faço.” Iniciativa Para desenvolver a técnica, Kátia conta que foi um processo intenso de buscas. Começou procurando tutoriais no YouTube, mas a “virada de chave” ocorreu mesmo a partir do curso “Nova Olhar”, do Senar, onde ela conheceu a sócia Silvania Briganó. “Levamos um tempo maior porque a pandemia começou e tivemos que pausar nossos planos por um período, mas foi o tempo necessário para dominar o curtimento com tanino vegetal, garantindo um produto de excelência e 100% sustentável”, afirma Kátia. Katia Mastroto criou a marca UnaPele Couros, a partir de pele de tilápia, no interior de SP Katia Mastroto/Reprodução A marca UnaPele foi fundada oficialmente em abril de 2023, contando também com o apoio do terceiro sócio, Luiz Figueiredo, e hoje reúne artesãos da região de Presidente Prudente e Bauru, movimentando a economia de pequenos produtores e honrando um legado familiar. Além de fomentar a economia circular a partir da compra da matéria-prima, que é a pele de tilápia, a iniciativa também ganhou força após a família de Kátia perder os tanques herdados do pai, devido a um temporal que atingiu a região em 2022. O desastre causou prejuízo superior a R$ 1 milhão à Associação de Piscicultores de Presidente Epitácio e Região (Aspiper). “Hoje não trabalhamos mais com a criação nem com os filés; nós da UnaPele focamos no upcycling (reciclagem), comprando as peles de pequenos filetadores e frigoríficos, o que aumenta nosso impacto ambiental positivo”, diz. Trabalho coletivo Os sócios de Kátia, Silvania Briganó, de 55 anos, e o engenheiro agrônomo Luiz Carlos Figueiredo, de 59 anos, comentam quais motivos despertaram o interesse deles em participar da iniciativa. Eles moram em Ibirarema, na região de Bauru. Luiz Carlos descreve o mesmo sentimento que Katia sobre a marca: “Tem uma importância significativa para a sociedade, principalmente nos aspectos econômico (geração de emprego e renda), ambiental (sustentabilidade e aproveitamento de recursos) e social.” Já para Silvania, a marca não se resume a apenas produzir couro. “É saber transformar matéria-prima em valor, gerar empregos e construir uma história de crescimento e superação. Para mim, essa parceria representa coragem, união e a certeza de que juntos podemos ir mais longe.” Sócios da marca UnaPele Couros, que utiliza pele de tilápia, no interior de SP Katia Mastroto/Reprodução A média de valores dos itens produzidos pela marca varia entre R$ 150 e R$ 380, com o catálogo disponível nas redes sociais. Kátia explica que o sucesso entre os clientes se deve ao fato de que “o couro de tilápia encanta pela textura única e pela história de sustentabilidade que carrega.” “A UnaPele me abriu portas para o mercado da moda sustentável e da economia criativa. Participamos de diversas feiras nacionais, levando a história do peixe do Oeste Paulista para novos horizontes.” Kátia descreve a marca como “um ecossistema de impacto social e ambiental. É a transformação de um resíduo descartado em luxo sustentável”, reforçando o legado do pai. “Hoje entendo o que meu pai quis dizer. O peixe não era apenas alimento; era o caminho para a minha realização pessoal e para ajudar o planeta”, completa. Katia Mastroto criou a marca UnaPele Couros, a partir de pele de tilápia, no interior de SP Katia Mastroto/Reprodução Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM