Após mais de 15 anos tentando abrir o mercado da Coreia do Sul para suas exportações de carne bovina, o Brasil terá que esperar um pouco mais por um desfecho positivo. A expectativa era de que o tema fosse finalmente destravado com a visita ao país do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta segunda-feira, mas ainda não há garantias nem prazos. O governo, porém, está confiante de que a abertura ocorrerá em breve, já que os sul-coreanos se comprometeram a enviar uma missão ao Brasil com esse propósito. De acordo com o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, que reuniu-se com autoridades locais sobre o assunto em Seul, há motivos para se acreditar que a missão resultará na liberação das exportações brasileiras para o mercado sul-coreano, no qual o consumo anual de carne bovina é estimado em torno de 600 mil toneladas, um dos mais altos da Ásia. — O compromisso deles em fazer a auditoria da carne brasileira ficou firmado em documento. Na hora que fizerem auditoria irão abrir o mercado, porque eu tenho certeza de que eles encontrarão lá qualidade sanitária nos melhores padrões mundiais — disse Fávaro ao ser questionado pelo GLOBO em Seul, sem no entanto querer adiantar quando ocorrerá a missão e qual a estimativa de volume que o Brasil poderá exportar. — Será muito em breve. O volume a Deus pertence. O Brasil dá conta de tudo o que eles precisarem. Apesar do otimismo, a notícia deu um certo ar de anticlímax à viagem de Lula, já que havia a expectativa de que haveria uma sinalização mais clara em relação à abertura. Pela manhã, durante a visita de Lula à Casa Azul, como é conhecido o palácio presidencial sul-coreano, a abertura era dada como praticamente certa. O mercado de carne bovina sul-coreano é um dos quatro na Ásia que o governo brasileiro considera fechado por uma barreira política imposta por pressão dos Estados Unidos: Japão, Vietnã, Turquia e Coreia do Sul. A abertura dos três primeiros está encaminhada. Na visita a Seul, o tema esteve entre uma das prioridades da agenda do presidente Lula, que o citou algumas vezes durante a segunda-feira em seus pronunciamentos públicos. Primeiro, ao lado do presidente do país, Lee Jae Myung, quando disse ter pedido a conclusão dos procedimentos sanitários para a exportação de carne bovina brasileira para “beneficiar os consumidores coreanos”. Mais tarde, ao encerrar um fórum empresarial dos dois país, voltou ao assunto, com tiradas de humor. — Quando o povo da Coreia quiser ter acesso à proteína, não se preocupe que o Brasil estará pronto para atender à demanda. E mais ainda, vocês correm o risco de, se comprar carne dos EUA, estarem comprando carne brasileira — disse, numa alusão à revenda do produto à Ásia por comerciantes americanos. — Porque o Brasil está em todos os lugares do planeta, produzindo proteína para atender à demanda do povo que quer comer muito, mas não quer engordar. Atualmente, quase metade das importações de carne bovina feitas pela Coreia do Sul é dos Estados Unidos. Por outro lado, vêm do Brasil 85% do frango importado pelo país. A abertura do mercado sul-coreano depende de um diálogo mais próximo entre os país, para aumentar a confiança, disse Eddie Park, diretor-gerente da Highland foods, uma das maiores importadoras de frango brasileiro. A visita do presidente Lula é um empurrão importante para que as coisas aconteçam, afirmou em conversa com O GLOBO. — Tudo se resumirá a conversas entre os países sobre os pontos sensíveis, como tarifas e o aumento da confiança. A indústria do frango tem se saído muito bem nesse aspecto. Já estive no Brasil, vi as fábricas de processamento e elas são excelentes. O problema é que muita gente na Coreia não sabe disso — explicou. — Sei também que o Brasil é um pouco sensível às tarifas para, digamos, eletrônicos vindos da Coreia, ou até mesmo carros, automóveis. Então, é uma via de mão dupla.