Projeto recupera entrevistas de programa de TV que marcou história da redemocratização

O jornalista Alexandre Machado, que comandou o programa "Vamos Sair da Crise", na TV Gazeta, mantinha até o ano passado em sua casa as fitas VHS que eram as únicas cópias sobreviventes das entrevistas que fez com as principais figuras políticas do país no período de redemocratização. Diversas pérolas desse acervo estão sendo publicadas hoje em versão digitalizada. Transmitido entre 1983 e 1993, o programa registrou com periodicidade diária o que pensavam os políticos, economistas, ativistas e outras lideranças da época. O período abarca tudo o que ocorreu entre a derrocada da ditadura militar e o turbulento governo Collor. 'Não sou o carnavalesco': Lula reage a críticas ao desfile de escola de samba que o homenageou no Rio Os cinco primeiros anos de programa se perderam no tempo, porque não foram gravados. Na época, videotape era um material caro as emissoras de TV menos abastadas, e só depois de alguns anos no ar Machado conseguiu recursos para gravações. Uma boa parte das fitas que guardaram o restante foram recuperadas agora pelo projeto "Cenas da Redemocratização", da Fundação FHC, dedicada ao estudo da democracia à preservação dos arquivos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O período em que o "Vamos Sair da Crise" foi preservado vai de 1988 a 1993, e inclui a Assembléia Constituinte de 1988 e as eleições presidenciais de 1989. De Bolsonaro a Moro: Relembre julgamentos no TSE por campanha antecipada ou abuso de poder Praticamente todos os protagonistas da política nacional passaram pela mesa de entrevistas de Machado na época, em entrevistas longas, de 1h45m de duração. Entre as relíquias resgatadas estão aparições com todos os candidatos a presidente em 1989 (Fernando Collor, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Lula, Mário Covas, Paulo Maluf...). Também aparecem quase todos os ministros da fazenda que passaram no cargo naqueles anos (Delfim Netto, Mailson da Nóbrega, Bresser Pereira...), além de governadores, arcebispos e lideranças importantes da sociedade civil (Benedita da Silva, Fernando Gabeira, Ailton Krenak...). Foram poucos, talvez nenhum, os jornalistas do período que tiveram acesso exclusivo a tantas figuras importantes do Brasil quanto Machado teve. Hoje, é difícil imaginar que toda essa história tenha sido viabilizado por um programa de baixo orçamento, numa emissora pequena, sem transmissão em cadeia nacional. — Talvez até pelo fato de a emissora ser pequena é que foi possível desenvolver isso, porque as emissoras grandes da época não abriam muito espaço para o debate público, sobretudo para o debate político — conta Machado. — Elas estavam ainda traumatizadas com as punições da ditadura. O Brasil foi abrindo sem que tivesse regras claras, e as TVs ainda estavam testando os espaços. Esse tipo de liberdade ainda não era absolutamente claro pra todo mundo. Algumas das entrevistas que foram recuperadas agora mostram, inclusive, uma tentativa de atingir um público mais amplo num período de profunda desilusão com a política. — Não se pode fazer democracia sem política, e não se pode fazer política sem políticos. Condenar, assim, de plano, os políticos é acabar com a política. E acabar com a política é acabar com a democracia — discorre um confiante Ulysses Guimarães, presidente da Constituinte, em uma das fitas recuperadas. — Onde não há políticos e não há política é na ditadura. Crise sem fim O nome do programa de Machado fazia referência ao tema que era a grande pauta do país à época da abertura: a aparentemente interminável crise financeira marcada pela inflação. Em uma das entrevistas memoráveis do acervo, a ministra da Economia de Collor, Zélia Cardoso de Mello, fala de seu recém-lançado plano para controlar a escalada inflacionária, em 1990. Ela sugere ao jornalista mudar o nome do programa, confiante de que a crise mencionada em seu título seria derrotada pela medida de confisco do Plano Collor (hoje lembrado inequivocamente como um fracasso econômico). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então deputado constituinte, aparece em uma entrevista comentando outro plano fracassado do período, do governo Sarney, que trocou a moeda de Cruzeiro para Cruzado. O projeto gozou de grande popularidade nos primeiros meses, que Lula atribuía ao uso da máquina estatal. — Eu estou convencido de que o povo brasileiro reage de acordo com a quantidade de informações que tem — disse o metalúrgico e líder sindical. — Se nós temos ainda no Brasil centenas de milhares de pessoas que não acreditam que o homem chegou na Lua ainda, da mesma forma muitas pessoas acreditaram que o plano Cruzado iria ser a salvação da lavoura. O "Vamos Sair da Crise" foi tirado do ar em 1993, um ano antes de o Plano Real conseguir controlar a onda de inflação que já tinha uma década. O que se convencionou chamar de 'fim' daquela crise, porém, não teve nada a ver com o encerramento do programa. Na época, a Gazeta adquiriu um acervo de filmes em longa metragem, que a direção da TV queria veicular à noite, no mesmo horário das entrevistas de Machado. O jornalista passou a ir ao ar, então, só duas vezes por semana. — Eu ainda fiquei lá durante um pequeno tempo, mas o programa não sendo diário perdeu muito a atração. Ele tinha um tipo de ritmo na relação com o público que se perdeu — conta. — Então nós acabamos resolvendo encerrar o "Vamos sair da Crise", e eu saí da Gazeta depois de mais de mil vezes que o programa foi ao ar. A primeira parte do acervo de Machado que foi liberada agora consiste de 160 horas de gravação tirados de 126 entrevistas. Há outras ainda passando por trabalho de recuperação. O material está disponível a partir de hoje no site do acervo da Fundação FHC. Foi produzida também uma pequena série documental para Youtube com dez episódios curtos contendo coletâneas de declarações de alguns dos entrevistados. A fundação promove hoje às 15h um debate sobre o projeto Cenas da Redemocratização em sua sede no Anhangabaú, em São Paulo, com presença dos jornalistas Alexandre Machado, Fernando Gabeira e Eliane Cantanhêde, mediado pelo cientista político Sérgio Fausto.