GDF oferece imóveis públicos para captar empréstimos O governo do Distrito Federal entregou à Câmara Legislativa, no sábado (21), um projeto de lei que oferece 12 imóveis públicos como "garantia" para um empréstimo bilionário do Banco de Brasília (BRB). Entre os endereços oferecidos estão áreas verdes de parques, a sede da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) e o abandonado Centro Administrativo do DF (Centrad) (veja detalhes mais abaixo). ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 DF no WhatsApp. O objetivo do governo de Ibaneis Rocha (MDB) é aprovar o texto ainda nesta semana. Mas, segundo o presidente da CLDF, deputado Wellington Luiz, a matéria deve ser apreciada apenas a partir da próxima semana e contará com a análise das Comissões de Economia, Orçamento e Finanças (CEOF), de Assuntos Sociais (CAS) e de Constituição e Justiça (CCJ). O BRB e a Secretaria de Economia foram questionadas sobre o projeto, mas não deram retorno até a última atualização desta reportagem. À TV Globo, o governador Ibaneis Rocha disse que o critério para a escolha dos terrenos foi o "apetite no mercado". Veja detalhes dos 12 imóveis oferecidos 1. Setor de Áreas Isoladas Norte (SAI/norte): área destinada à Polícia Militar do DF entre o Noroeste e a rodovia EPIA Norte, região considerada nobre na capital. Este endereço também fica próximo ao Santuário Sangrado dos Pajés — terra ancestral indígena. 2. Centro Metropolitano, quadra 03, conjunto A, lote 01, em Taguatinga: endereço do Centro Administrativo (Centrad) do governo do DF. O local está desocupado há 12 anos. Em novembro de 2025, o governo enviou um memorando para a Secretaria de Economia avaliando integrar o Centrad ao capital do BRB. Em dezembro, Ibaneis Rocha declarou a intenção de vender o Centrad, já que seria necessário investir R$ 1 bilhão para o local funcionar. 3. Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), lote I: o local é uma área de serviço público que fica próximo ao Clube da Caesb, contígua ao Parque do Guará. 4. Parque do Guará, área 29 e 30: espaço natural e com vegetação, indicada como Proteção Integral/Conector Ambiental na proposta do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT). O g1 questionou o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) sobre o uso de uma área de reserva biológica neste caso, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. 5. Setor de Indústria Abastecimento (SIA), lote G: área de serviço público onde funciona o Parque de Apoio da Secretaria de Saúde do DF. É nela onde ficam a Central de Nutrição Domiciliar (CNUD), a Oficina de Órteses e Próteses e a Farmácia Central. 6. Setor de Múltiplas Atividades Sul (SMAS) trecho 3, lote 8: local fica próximo ao Setor Hípico de Brasília, mercados atacadistas e o Park Shopping, um dos shoppings mais movimentados do DF. 7. Setor de Área Isoladas Norte (SAIN) DEST CEB, Asa Norte: área institucional entre o Noroeste (área nobre da capital) e a rodovia EPIA Norte. 8. Setor de Habitações Individuais Sul (SHIS) QL 9 lote B, Lago Sul: área verde na margem próxima à Ponte JK, no Lago Sul — área nobre do DF. 9. Áreas Isoladas Santa Bárbara, lote 2 e áreas isoladas da Papuda, lotes 1 e 2, Setor Habitacional Tororó: área verde próxima ao Complexo Penitenciário da Papuda, parques e condomínios. 10. Setor de Industria e Abastecimento Sul (SIA/SUL) lote B, no Guará: área de serviço público onde funciona a sede da Novacap. Estes dois endereços abaixo não foram não localizados pelo GeoPortal da Secretaria de Desenvolvimento Urbano do DF: 11. Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), quadra 4, lotes 1710, 1720, 1730, 1740, 1750 e 1760. 12. Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), quadra 4, lotes 1690 e 1700. Entenda o empréstimo O empréstimo, que pode inclusive ser tomado junto ao Fundo Garantidor de Crédito, é uma das hipóteses citadas pelo BRB no plano "preventivo" entregue ao Banco Central há duas semanas, segundo apurou o g1. Se o empréstimo for tomado, esses recursos vão ajudar o BRB a melhorar o perfil de seus ativos – ou seja, reduzir o risco atrelado a seu patrimônio. O objetivo é garantir que o banco permaneça sólido e não gere desconfianças no mercado. Ou seja: evitar abalos à credibilidade do BRB. ⬆️ Com essa garantia do governo do DF, o BRB teria condições de captar recursos em condições mais favoráveis – com juros menores, por exemplo – para dar mais consistência ao balanço patrimonial do banco, abalado após as transações mal-sucedidas para a compra do Banco Master, nos últimos anos. ⬇️ Em compensação, caso não consigam honrar o empréstimo no futuro, o BRB e o governo do DF podem se ver obrigados a alienar (vender) esses imóveis para pagar o compromisso assumido. Ibaneis tem (ou tinha) maioria na CLDF Ibaneis Rocha, governador do DF, em 3 de fevereiro de 2026 TV Globo O governo informou ainda que quer tentar votar o projeto já na próxima terça-feira (24). O governador Ibaneis Rocha (MDB) tem ampla maioria de aliados na Câmara Legislativa – a Mesa Diretora já arquivou, por exemplo, quatro pedidos de impeachment contra Ibaneis protocolados por partidos de oposição nas últimas semanas. Em agosto de 2025, a Câmara deu aval à tentativa de compra do Banco Master pelo BRB apenas cinco dias após o governo enviar o projeto. O placar foi de 15 votos a 7. Meses depois, no entanto, a Polícia Federal deflagrou a operação Compliance Zero para investigar um esquema bilionário de fraudes financeiras com venda de títulos de crédito falsos pelo Banco Master. Desde então, aliados de Ibaneis na Câmara do DF têm tentado evitar o tema. Se for colocado em votação, o projeto de oferecer 12 imóveis públicos do DF como garantia para um empréstimo bilionário do BRB será o primeiro teste da situação de Ibaneis na Casa. BRB tem que recuperar patrimônio Sede do Banco BRB Getty Images via BBC O plano entregue pelo BRB ao Banco Central inclui uma série de medidas que podem ser acionadas pelo banco caso "naufraguem" as transações contratadas com o Banco Master em meses anteriores. Como o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central, contratos em andamento foram interrompidos. Pequenos investidores foram cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mas fundos de previdência e o BRB, por exemplo, não contam com a mesma garantia. ➡️️ Desde o fim de 2024, o BRB gastou bilhões para adquirir carteiras de créditos do Banco Master. ➡️ Meses depois, veio à tona que essas mesmas carteiras tinham sido compradas pelo Master de outra instituição por menos da metade do valor. ➡️ E o pior: o Master não chegou a pagar esses créditos, mas recebeu à vista ao revendê-los para o BRB. Todas essas "inconsistências" fizeram com que o balanço patrimonial do BRB ficasse mais frágil. Técnicos ouvidos pelo g1 e pela TV Globo nas últimas semanas afirmam que não há nenhum risco de falência ou de liquidação do BRB – até porque o acionista controlador do banco é o governo do Distrito Federal, que tem patrimônio suficiente para "socorrer" a instituição. Mesmo assim, é importante que o BRB reforce o capital – inclusive, para seguir cumprindo as regras mínimas de solidez e segurança previstas na lei brasileira para todo o sistema bancário. Investigação do Banco Master ➡️ Ao longo de 2025, o BRB tentou comprar boa parte do Master. A operação contou com apoio público de Ibaneis e do governo do DF, acionista controlador do banco público, mas foi barrada pelo Banco Central. ➡️ O Master foi liquidado em novembro pelo Banco Central, que identificou uma profunda crise de liquidez – ou seja, o banco não tinha recursos suficientes para honrar compromissos, como o pagamento de clientes e investidores. ➡️ O BRB injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master entre 2024 e 2025 — e o Ministério Público vê indícios de gestão fraudulenta nessas transferências. Segundo as investigações, cerca de R$ 12 bilhões foram para carteiras de crédito podres, que não pertenciam ao Master e não tinham garantias financeiras. Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.