Morte de 'El Mencho' abre disputa pela sucessão no Cartel Jalisco e ameaça novo ciclo de violência no México

Com a morte de Nemesio Oseguera, o "El Mencho", em uma operação conjunta das forças mexicanas e dos Estados Unidos no domingo, o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) agora enfrenta uma disputa pela sucessão. A organização criminosa, que se tornou uma das mais poderosas do México na última década, perdeu seu líder máximo em um momento em que boa parte de seu círculo familiar — tradicional base de comando dos cartéis — está presa, extraditada ou enfraquecida, abrindo espaço para uma possível guerra interna pelo controle de um império que vai do tráfico de drogas à extorsão e lavagem de dinheiro. 'El Mencho': Cartéis incendiam carros e fecham rodovias em represália por morte de líder; operação contou com apoio de inteligência dos EUA Medo de retaliação: Vídeo mostra pânico entre passageiros em aeroporto após morte de narcotraficante no México O filho do chefão, Rubén Oseguera, conhecido como "El Menchito", cumpre pena de prisão perpétua nos EUA desde 2020, condenado por tráfico de drogas e porte ilegal de armas. Um dos irmãos de El Mencho, Antonio Oseguera, responsável pela lavagem de milhões de dólares em receitas do CJNG, foi extraditado para Washington em fevereiro do ano passado. Meses depois, o México enviou outra figura-chave do esquema criminoso do Cartel Jalisco para os EUA: Abigael González Valencia, o "El Cuini", cunhado e braço direito de El Mencho. Outro irmão Oseguera, Abraham, foi capturado em fevereiro deste ano e está atualmente sob custódia mexicana. A viúva de Mencho, Rosalinda González Valencia, conhecida como "La Jefa", foi presa, mas libertada por um juiz em janeiro do ano passado. O governo de Claudia Sheinbaum criticou a decisão, citando-a como um exemplo de corrupção dentro do judiciário. Segundo o jornal El País, é possível que a liderança do CJNG seja substituída pelo clã González Valencia, que chefia o cartel Los Cuinis. A família, originária de Michoacán como Mencho, é composta por 18 irmãos, homens e mulheres. Initial plugin text De acordo com David Saucedo, especialista segurança baseado na Cidade do México, a linha sucessória do cartel foi quebrada, e os irmãos de El Mencho "ainda não têm influência suficiente entre outros comandantes do cartel". — Sem um membro da família Oseguera como sucessor evidente, é provável que um entre quatro ou cinco comandantes de alto escalão emerja como o próximo líder — afirmou Saucedo à rede americana CNN, acrescentando que, embora uma disputa violenta seja possível, os comandantes também podem negociar uma transição de poder estável. Esse vácuo de liderança, de fato, pode desencadear uma guerra interna, semelhante ao conflito que eclodiu dentro do Cartel de Sinaloa após a captura, em 2024, de Ismael "El Mayo" Zambada. O conflito em Sinaloa foi alimentado pela ausência de um sucessor familiar claro, já que a liderança dos cartéis costuma seguir um padrão dinástico — passando de pais para filhos, irmãos ou primos. Entre os possíveis candidatos, segundo a CNN, estão Ricardo Ruiz Velasco ("El Doble R"), Audias Flores ("El Jardinero"), outro conhecido como "El Sapo" e um quarto nome — o ex-chefe de segurança de El Mencho — sobre quem há poucas informações. Um relatório de setembro do ano passado da Diretoria de Inteligência Nacional dos EUA identificou El Sapo como Hugo Mendoza Gaytan e também mencionou o enteado de Oseguera, Juan Carlos Valencia González ("El Pelón"), além do genro Julio Alberto Castillo Rodríguez ("El Chorro"), como integrantes da liderança do cartel. O cartel Em 2014, a Justiça dos EUA incluiu El Mencho e El Cuini na mesma acusação. Documentos judiciais acusam ambas as organizações de tráfico conjunto de cocaína, metanfetamina e fentanil para os Estados Unidos, em uma organização criminosa que gera lucros de pelo menos US$ 10 milhões (mais de R$ 50 milhões, na cotação atual) anualmente. A acusação observa que o CJNG é responsável por "numerosos atos de violência, incluindo assassinatos, sequestros e atos de tortura", com o objetivo de garantir o "prestígio, a reputação e a posição" do cartel, promovendo o medo, expandindo seu império, disciplinando seus membros e coagindo autoridades públicas. Sob a liderança de El Mencho, o Cartel Jalisco expandiu-se por todo o México e também levou suas operações para outros países. A organização fez sua grande entrada no cenário do crime com uma imagem macabra: a exibição pública de 35 cadáveres, com sinais de tortura, na cidade de Boca del Río, em 2011. 'El Mencho': Saiba quem foi o ex-policial que fundou cartel mais violento do México e morreu em operação militar Na época, o grupo era conhecido como Los Matazetas (Os Matadores de Zetas), pois seu propósito era exterminar o cartel Los Zetas. Como este último tinha a reputação de ser sanguinário, o CJNG — que em seus primórdios tinha uma aliança com o Cartel de Sinaloa — replicou sua violência e a levou ao extremo da barbárie. Os pistoleiros de El Mencho chegaram ao ponto de amarrar dinamite aos corpos de seus rivais para explodi-los vivos. Los Zetas, no entanto, perderam influência, o CJNG rompeu sua aliança com o Cartel de Sinaloa e El Mencho se tornou o último alvo restante na lista de objetivos do governo, após a queda, um a um, dos principais líderes dos outros cartéis de drogas. No coração da capital, o CJNG orquestrou um ataque em 2020 contra Omar García Harfuch, o então secretário de Segurança da Cidade do México. Hoje, ele ocupa o mesmo cargo em nível federal e chefia a estratégia de combate ao narcotráfico no governo Sheinbaum.