No último sábado, um acidente de asa-delta causou comoção em São Conrado, na Zona Sul do Rio. O instrutor Rodolfo Pascoal Ladeira, de 43 anos, e a turista americana Jenny Colón Rodríguez, de 36 anos, morreram após caírem no mar. Da areia, a jornalista Anna Júlia Steckelberg presenciou tudo. Ela tinha acabado de saltar de parapente com o mesmo clube de voo onde Rodolfo trabalhava. VÍDEO: Instrutor e turista morrem em acidente de asa-delta na Praia de São Conrado Recordista de parapente e turista viajante: quem são as vítimas do acidente de asa-delta na Praia de São Conrado Leia o relato de Anna Júlia Steckelberg na íntegra: Era minha folga. E, poucas horas após viver um dos momentos mais felizes desde que cheguei ao Rio, eu vi duas pessoas morrerem na minha frente, na areia da Praia do Pepino, em São Conrado, na Zona Sul do Rio. O céu que minutos antes estava cheio de cores de asas-deltas e parapentes ficou vazio de repente, interrompido por um estrondo que ninguém ali vai esquecer. Naquele momento, eu não era apenas jornalista. Eu era testemunha. Eu estava ali desde o começo daquele dia, do café da manhã até o instante em que a bandeira do Brasil, que formava uma asa-delta que sobrevoava São Conrado, caiu no mar. Naquela manhã de sábado, dia 21, fui acordada pelo meu companheiro: “Vou te levar a um lugar hoje, é uma surpresa.” Cruzamos toda a Rua Barata Ribeiro, o túnel da Zuzu Angel, atravessamos a Rocinha e chegamos à Praia do Pepino. Íamos saltar de parapente. Aqui, meu coração se encheu de ansiedade e medo. Chegamos ao Clube de Voo Livre por volta das 8h e estava lotado, uma movimentação grande, muitos estrangeiros e pessoas que exalavam esporte, energia e adrenalina. Eu caberia ali? Ora, eu nunca estive no lugar mais certo e na hora mais certa do que naquele sábado para uma repórter, ali no Clube de Voo Livre de São Conrado. O céu que me chamou Paramos para tomar um café e fomos direto falar com a funcionária do clube. Ela fez nosso cadastro e nos explicou sobre como o Rio é referência brasileira em voo livre. Contou que eles estavam completando 50 anos de funcionamento e que era o maior espaço da modalidade no país. Eu estava admirada, pois sempre tive um imaginário muito grande sobre o Rio e toda a sua beleza. Toda vez que vinha aqui, dizia para mim mesma que um dia me mudaria para cá. E cá estou, há menos de 20 dias. Ao lado desse imaginário sobre a cidade maravilhosa, sempre esteve também essa admiração por ver a cidade do alto. Achava que era algo muito meu, mas, após ouvir uma das gestoras do clube, entendi que essa referência carioca foi justamente o que fez os voos livres chegarem até o imaginário de uma jovem moradora de Goiás. Chegou minha vez Às 9h10 já estávamos na pista de voo livre da Pedra Bonita. Um carro nos levou até lá. O clima não estava lá essas coisas: esperávamos um céu azul, limpo, mas havia nuvens. Na hora questionei se era seguro realizar o salto nessas condições ou se até fazia sentido, já que a paisagem estava um pouco escondida pelo cinza. Mas Maurício, o instrutor, disse que estava tranquilo. Eu iria pular primeiro. Na “fila” para o salto estavam eu e outros quatro ou cinco estrangeiros. Além do grupo do parapente, havia ainda algumas pessoas já na rampa da asa-delta. A essa altura, meu coração já estava na boca. Chegou a minha hora e não tinha segredo. Já presa a Maurício e segurando a câmera que faria todo o registro, um fiscal veio averiguar os equipamentos. Ele registrou uma tag que estava em Maurício, confirmou meu nome, minhas alças, capacete e mochila. Estava na hora. O trabalho era simples: caminhar um pouco mais rápido pela rampa que mirava o precipício e depois me encaixar numa espécie de banquinho, que na verdade era a própria mochila. “Você tem o melhor emprego do mundo, Maurício!”, foi a primeira coisa que gritei, abrindo os braços e mirando para o oceano Atlântico que se abria na minha frente. Maurício tem uma filha da minha idade. Durante o voo, que durou menos de oito minutos, contei que sou goiana e que tinha me mudado havia pouco tempo para o Rio para trabalhar no jornal. Ele percebeu que eu estava entrando em nirvana ali, atravessando aquelas nuvens. “Deixa eu te contar um segredo, Anna Júlia, agora que você sabe que pode voar… você pode fazer qualquer coisa nesse mundo.” Ele também parecia em nirvana. Talvez ali tenha percebido, de novo, que tinha o melhor emprego do mundo. E ali percebi que agora podia tudo. Tudo mesmo. Até numa folga. Cheguei ao chão. O voo foi muito tranquilo, muito mais do que imaginei. Aterrizamos com calma e, lá embaixo, a movimentação era ainda maior: turistas, instrutores, curiosos. Muita gente. Logo em seguida, chegou Artur. Compramos uma cerveja e sentamos ali no chão da calçada mesmo, tentando drenar toda a euforia. Eu suava, tinha sede, estava feliz, anestesiada. Sabe quando a gente escuta com precisão uma vela queimando, ou o último som das cordas de um violão quando os dedos raspam nelas? Ou até o barulho agora do teclado do meu computador. Era assim que eu me sentia. Meu corpo estava à flor da pele. E ali, ali mesmo, no chão, Artur me pediu em namoro. Eu estava à flor da pele. Feliz. O sol saiu, a cerveja estava gelada, eu tinha acabado de beijar na boca e só queria o mar. Entrei. Pulamos na água com ondas altas e densas, quase de roupa e tudo. Mergulhamos e devolvemos às águas toda aquela química eufórica dos nossos cérebros. Voltamos para a areia, olhamos o tempo, respiramos e começamos a contar as asas-deltas e parapentes que voavam sobre nós e pousavam ali atrás. Havia muitos. Contamos mais de 20 entre voos e pousos. Uma me chamou atenção. “Olha aquela, com a bandeira do Brasil… ela parece estar há tanto tempo no céu.” O barulho Decidimos ir embora. Havíamos acabado de chegar à calçada quando um estrondo enorme quebrou o silêncio. Parecia uma bomba. Olhamos para trás e ali, na água, estava a bandeira do Brasil que antes cortava o céu. No mesmo momento, a areia virou um caos. Uma correria enorme. Todas aquelas dezenas de pessoas que trabalhavam no clube correram para o mar. O que para mim parecia um grupo de 60 pessoas, de repente virou 150, 200. Instrutores, fiscais, surfistas e salva-vidas entraram na água. “Corta aqui!”, “Ajuda aqui!”, “Puxa!” Da calçada, eu ouvia tudo. Demorou um pouco, mas tiraram duas pessoas da água. Ficamos ali, com outros curiosos, apreensivos, esperando alguma notícia. Nessa hora, o céu, que antes estava cheio de cores cruzando as nuvens, ficou vazio. Restou apenas o azul. Já na areia, dois aglomerados se formaram em volta das vítimas. Muito rápido, chegaram dois helicópteros do Corpo de Bombeiros. Acho que eu nunca tinha visto nada assim tão de perto. O vento das aeronaves espalhava areia por todos os lados e expulsava os banhistas distraídos que ainda estavam ali. A gritaria e o desespero continuavam, mas eu ainda estava esperançosa. Eles sairiam com vida dali. Precisavam sair. As manobras não paravam. Já tinham passado 15 minutos e os bombeiros continuavam tentando reanimá-los ali mesmo na areia. Eu arrepiava de frio. Peguei meu celular. Era minha folga, mas peguei meu celular. Eu estava ali. Tinha que informar. Cheguei mais perto e fui imediatamente barrada por uma das cenas mais fortes que já vi: umas 15 ou 20 pessoas em volta de uma das vítimas. O instrutor no centro, numa corrente de oração. Colegas de trabalho, amigos e gente que simplesmente quis ajudar. Eu, que havia gritado por Deus agradecendo aquela imensidão azul lá do alto, pensei que aquele mesmo Deus agora estava ali também. Por todos os lados havia desespero. Pessoas ajoelhadas, chorando. O instrutor parecia em estado mais crítico. Do outro lado, a passageira ainda trazia alguma esperança para os socorristas. Aquela cena acabou comigo. Os rostos machucados, os cochichos sobre o que poderia ou não ter acontecido. Todo mundo nervoso. Decidi sair dali. Parecia que toda a adrenalina que eu tinha sentido foi embora. No lugar dela ficou outra coisa. Uma tristeza funda, um vazio. Era minha folga. O dia estava azul. O amor estava ao meu lado. Mas a vida de duas pessoas acabava ali, diante de mim. Eu pensava o tempo todo: foram poucas horas de diferença entre o meu abrir os braços no céu e o bater dos equipamentos na água. O que será que aconteceu? O que deu errado? Por que eles? Tomei a ducha um pouco mais adiante, perto de umas quadras de esporte na areia, e voltei. Tentaria buscar nomes, informações, falar com alguém. As vítimas ainda estavam ali quando a ambulância chegou. Os choros aumentaram. As pessoas estavam inconsoláveis na calçada. Sob a manta de alumínio, na maca, uma das vítimas deixou a areia. Rodolfo Pascoal Ladeira, de 43 anos, não resistiu. Jenny Colón Rodríguez, de 36 anos, morreu no hospital. Eu soube depois. Pular de parapente não foi tão assustador quanto imaginei. Não trouxe a sensação de estar à beira de um precipício, apesar dos quase 700 metros de altitude. Saltar daquela rampa me trouxe paz. Me trouxe Deus. Me trouxe sonhos. Pousar me trouxe amor. Mas, no fim, nada restou. Era a minha folga. E, como dizem por aí, jornalista às vezes não tem folga. Naquele dia, eu estava no lugar certo, na hora certa. Mas nem todos tiveram a mesma sorte que eu.