O presidente dos EUA, Donald Trump, tem se mostrado "curioso" em relação à resistência do Irã em não ceder mesmo em meio ao aumento da presença militar de Washington no Oriente Médio e às ameaças de um possível ataque caso não se chegue a um acordo sobre o programa nuclear de Teerã, disse o enviado especial do presidente americano, Steve Witkoff, à imprensa americana no sábado. Segundo assessores do presidente americano, o mandatário considera um ataque em maior escala para derrubar a liderança iraniana caso a diplomacia ou um possível ataque inicial não vinguem. Sob pressão americana, Teerã vê as concessões exigidas por Washington — que, em sua visão, poderiam comprometer sua ideologia central e soberania — como uma ameaça maior à sua sobrevivência do que o risco de uma guerra, e alertou que qualquer ataque será recebido "ferozmente". Ultimato: Trump alerta Irã para 'coisas ruins' se não houver acordo e sugere risco de ação militar se pacto não for alcançado em 10 dias Exercícios militares e novas diretrizes: Por dentro dos preparativos do Irã para a guerra e os planos de sobrevivência do regime — Não quero usar a palavra "frustrado", porque ele [Trump] entende que tem muitas alternativas, mas está curioso para saber por que eles não... Não quero usar a palavra "capitular", mas sim por que eles não capitularam. Por que, sob esse tipo de pressão, com a quantidade de poder naval e marítimo que temos lá, por que eles não vieram até nós e disseram: "Declaramos que não queremos armas, então aqui está o que estamos dispostos a fazer?" No entanto, é difícil levá-los a esse ponto — disse Witkof à Fox News. Diante das ameaças do presidente americano, que disse na quinta-feira que o Irã tinha no máximo 10 dias para fechar um acordo ou "coisas ruins" poderiam acontecer, o Ministério das Relações Exteriores de Teerã reiterou nesta segunda-feira que qualquer ataque, mesmo que limitado, "seria considerado um ato de agressão". — Qualquer Estado reagiria ferozmente a um ato de agressão, como parte de seu direito inerente de autodefesa, e é isso que faríamos — disse o porta-voz do ministério, Esmaeil Baqaei, em uma coletiva de imprensa em Teerã, acrescentando que os iranianos nunca se renderam em nenhum momento de sua História. Com Forças Armadas mobilizadas: Trump considera ataque limitado ao Irã para forçar acordo nuclear, diz jornal Negociadores dos Estados Unidos e do Irã têm um encontro marcado para esta quinta-feira em Genebra, no que parece ser uma última tentativa de evitar um conflito militar. No entanto, Trump tem avaliado opções para ações dos EUA caso as negociações fracassem. Embora nenhuma decisão final tenha sido tomada, disseram assessores, Trump tem se inclinado a realizar um ataque inicial limitado nos próximos dias, e considera um ataque em maior escala para derrubar a liderança iraniana nos próximos meses, se necessário. EUA posicionam 'Armada' ao redor do Irã: Navios de guerra e jatos militares estão mobilizados no Oriente Médio Arte/O GLOBO O governo Trump afirma querer que o Irã concorde com o enriquecimento nuclear zero para garantir que o país não possa construir uma arma nuclear. Autoridades americanas também têm insistido, por vezes, em limitar o alcance dos mísseis balísticos iranianos e em acabar com o apoio do país a milícias aliadas na região. Por sua vez, para o Irã, que afirma que seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos, o enriquecimento de urânio é um direito defendido pelo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e que seus oficiais não podem abandonar. Além disso, o Irã considera a posse de mísseis capazes de atingir até Israel como crucial para sua autodefesa. Essa discrepância de percepções é o motivo pelo qual os esforços para negociar um acordo sobre as capacidades nucleares e militares do Irã parecem cada vez mais frágeis, dizem especialistas, e um novo conflito regional parece quase inevitável. — Evitar a guerra é, de fato, uma alta prioridade, mas não a qualquer custo — disse ao New York Times Sasan Karimi, cientista político da Universidade de Teerã que atuou como vice-presidente adjunto de estratégia no governo anterior do Irã. — Às vezes, um Estado político, especialmente um ideológico, pode dar tanta importância ao seu lugar na História quanto, ou até mais do que, à sua sobrevivência imediata. O vice-presidente, JD Vance, disse à Fox News na semana passada que, apesar da ameaça de guerra, os iranianos "ainda não estão dispostos a reconhecer e resolver" as exigências do presidente. No entanto, é justamente essa percepção de fraqueza do Irã que, segundo especialistas, motiva Teerã a resistir. — Para o Irã, submeter-se aos termos dos EUA é mais perigoso do que sofrer outro ataque americano — disse Ali Vaez, diretor do International Crisis Group para o Irã. — Eles não acreditam que, uma vez que cedam, os EUA aliviarão a pressão. Acreditam que isso apenas encorajaria os EUA a atacar o ponto fraco. A resposta de Teerã Segundo Farzin Nadimi, analista de defesa especializado no Irã do Instituto de Washington para Política do Oriente Médio, um centro de estudos, Teerã provavelmente buscará absorver ataques limitados e restringir sua retaliação a ataques contra bases americanas no Oriente Médio. Tradição esvaziada: Sem diplomatas de carreira, Trump entrega negociações com Irã e Ucrânia a aliado e genro Caso Trump opte por ir mais longe, as forças americanas, provavelmente com a ajuda de Israel, como em junho passado, teriam que agir rapidamente nos primeiros dias para neutralizar o máximo possível das capacidades militares do Irã, a fim de impedir uma tentativa de retaliação muito mais feroz e abrangente. Isso exigiria "um esforço extenso tanto dos EUA quanto de Israel — não apenas do poder aéreo, mas também de forças terrestres — para garantir que sua ameaça de mísseis seja neutralizada", disse Nadimi. Em junho passado, os ataques combinados dos EUA e Israel atingiriam instalações nucleares militares importantes, e uma série de altos funcionários militares iranianos foram mortos em questão de horas. Mas Teerã aprendeu lições com a "guerra dos 12 dias", dizem autoridades iranianas e regionais, e preparou várias camadas de liderança para substituir qualquer pessoa morta. Isso visa garantir que o sistema sobreviva ao conflito, mesmo que o aiatolá Khamenei e outros líderes não sobrevivam. Guga Chacra: Contra uma guerra no Irã O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, discursa em encontro com apoiadores em Teerã, em 17 de janeiro de 2026 KHAMENEI.IR / AFP Novos protestos Enquanto o Irã lida com a pressão dos EUA, apoiada por um aumento da força militar no Oriente Médio, estudantes universitários começaram um novo semestre com protestos antigovernamentais, revivendo slogans de protestos nacionais que atingiram o ápice em janeiro e foram recebidos com uma repressão mortal. Nesta segunda-feira, vídeos geolocalizados pela AFP e divulgados nas redes sociais mostraram estudantes de uma universidade em Teerã queimando a bandeira iraniana adotada pela República Islâmica após a revolução de 1979 que derrubou a monarquia. Conversas indiretas: Sob pressão dos EUA, Irã diz que ‘princípios orientadores’ foram acordados em negociações nucleares A multidão, composta principalmente por mulheres, no vídeo gritava "abaixo a República Islâmica", ecoando os cânticos contra o líder supremo e as autoridades clericais durante os protestos que começaram em dezembro devido à prolongada crise econômica no país, atingido por sanções. Os protestos, que atingiram o auge nos dias 8 e 9 de janeiro, foram reprimidos pelas forças de segurança com violência, deixando milhares de mortos. A agência de notícias Human Rights Activists News Agency (HRANA), sediada nos EUA, registrou mais de 7 mil mortes, a grande maioria de manifestantes, embora grupos de direitos humanos afirmem que o número real de vítimas seja provavelmente muito maior. As autoridades reconhecem mais de 3 mil mortes, incluindo membros das forças de segurança e civis, mas afirmam que a violência foi causada por "atos terroristas" instigados pelos inimigos do Irã, os Estados Unidos e Israel, que, segundo elas, sequestraram protestos econômicos legítimos. Com New York Times e AFP.