Durante oito anos as investigações sobre os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes revelaram mais do que apenas os envolvidos nas mortes. Vieram à tona a existência de um Escritório do Crime, a rede de tráfico de arma e o envolvimento de policiais e políticos com criminosos. O julgamento dos cinco réus no caso está marcado para esta terça-feira (24) — um desfecho aguardado não apenas pelas famílias de Marielle e Anderson, mas por toda a sociedade, que acompanha o caso desde 2018 como símbolo da luta por justiça e contra a impunidade. Escritório do crime Objeto central das investigações em torno da execução de Marielle, a existência do Escritório do Crime, um grupo de extermínio formado por ex-agentes de segurança, da reserva ou da ativa foi revelada pelo GLOBO. O grupo era altamente especializado em execuções por encomenda, sem deixar pistas e tinha como chefe dos sicários o ex-capitão do Bope Adriano Mendonça da Nóbrega, acionado para executar mortes encomendadas por políticos e bicheiros. O Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ) passou a investigar a quadrilha e reuniu provas de que Adriano continuava sendo o chefe da milícia de Rio das Pedras e da Muzema. Em 22 de janeiro de 2019, o Gaeco deflagrou a primeira grande ofensiva contra o ex-militar e seus cúmplices: a Operação Intocáveis. O nome fazia jus à fama de Adriano, que, mesmo sob suspeitas reiteradas, conseguia escapar da Justiça enquanto seguia comandando crimes. Envolvimento de políticos e policiais Em 24 de março de 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação Murder Inc., que marcou a virada nas investigações do Caso Marielle e Anderson. Naquele domingo — uma data incomum para a realização de prisões — foram detidos Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e o ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa. Os nomes dos irmãos Brazão já circulavam na imprensa, mas a prisão de Rivaldo caiu como uma bomba: o delegado que havia conduzido os primeiros passos da apuração agora aparecia como um dos acusados de planejar o crime e de atrapalhar seu esclarecimento. Quase duas semanas depois, vieram novas prisões: o major Ronad Paulo Alves Pereira e Robson Calixto da Fonseca, o Peixe, ex-assessor de Domingos na Assembleia Legislativa. Com isso, a investigação rompeu um ciclo de incertezas e expôs, pela primeira vez, a rede de poder e de proteção que teria sustentado a execução da vereadora e de seu motorista. Como Chiquinho Brazão era deputado federal à época dos fatos, o processo foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro privilegiado. O caso ficou sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que recebeu a denúncia e tornou Chiquinho, Domingos, Rivaldo, Ronald e Robson réus. Em meados de 2024, foram ouvidas as testemunhas de acusação e defesa, além dos interrogatórios dos réus. Atualmente, todos permanecem custodiados em presídios federais espalhados pelo país. Armas O ex-PM Élcio de Queiroz, preso em 2019 suspeito de participar dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, deu detalhes sobre a morte da vereadora e do motorista em delação premiada com a Polícia Federal (PF) e com o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). No depoimento, Élcio diz que a arma que matou Marielle Franco foi extraviada de um incêndio Batalhão de Operações Especiais. Segundo ele, Ronnie Lessa já tinha uma relação de carinho com a submetralhadora HK MP5 por ter trabalhado no Bope. No depoimento, Élcio diz que Ronnie reformou a arma e deixou ela "cem por cento" depois da compra: "Houve um incêndio no Batalhão de Operações Especiais, no paiol, e essa arma foi extraviada. Essa e outras armas foram extraviadas nesse incêndio aí e essa arma ficou com uma pessoa que eu não sei quem é. Essa pessoa conseguiu fazer a manutenção dela e vendeu pra ele", disse Élcio. Ronnie Lessa também foi investigado pela Polícia Civil por suspeita de ser um dos maiores traficantes de armas do Rio de Janeiro. A Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos ( Desame) trabalha com a hipótese de que que os 117 fuzis encontrados em março de 2019 na casa de Alexandre Motta da Silva, amigo de Lessa há mais de 20 anos , seriam vendidos para diferentes compradores. Initial plugin text