Diante dos indícios de que os Estados Unidos estariam prestes a lançar um ataque americano contra o Irã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve um raro momento de neutralidade, ao ser questionado sobre o tema na Coreia do Sul. Lula concluiu a visita ao país asiático na manhã desta terça (noite de segunda no Brasil) com uma rápida conversa com jornalistas brasileiros, antes de seguir viagem para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos (EAU). A possibilidade de um ataque poderia ter consequências graves para os EAU e outros países da região que têm bases militares americanas. Em Abu Dhabi, Lula deve se encontrar com o presidente do país, o xeque Mohamed bin Zayed Nayan, também conhecido como MBZ. Apesar da alta temperatura em torno do assunto, Lula disse que a ameaça dos EUA ao Irã não está na pauta. — Eu não vou discutir a guerra com o Irã. Não sou representante da ONU, não sou do Conselho de Segurança como membro permanente da ONU. Eu vou discutir a relação comercial e política entre o Brasil e os Emirados Árabes, disse Lula. — Nós não estamos precisando de guerra, estamos precisando de paz, estamos precisando de investimento, desenvolvimento, que é isso que vai fazer melhorar a vida do povo. Eu não estou preocupado com o que os Estados Unidos vão fazer com o Irã. Estou preocupado em saber o que o Brasil vai fazer com os Emirados Árabes. Foi uma mudança em relação à postura do governo brasileiro. No ano passado, o Itamaraty e o próprio Lula não pouparam críticas aos EUA e a Israel pelos ataques lançados contra o Irã. Desta vez, o presidente optou pela cautela, num sinal de cautela para não comprometer o encontro com o presidente americano, Donald Trump, previsto para o mês que vem. Questionado pelo GLOBO se pretende conversar sobre as tensões entre Irā e Estados Unidos com Trump, Lula indicou que também em Washington essa não será uma prioridade para ele. Em 2010, o presidente ajudou a mediar junto com a Turquia um acordo para limitar o programa nuclear iraniano, mas ele não foi à frente por falta de apoio da Casa Branca, na época chefiada por Barack Obama. Desta vez, Lula não quis falar sobre a possibilidade de o Brasil se envolver numa intermediação. — Não sei. É porque se a gente ficar falando com muita antecedência o que vai acontecer na reunião [com Trump], não precisa ter reunião. Ou seja, eu tenho uma pauta com o presidente Trump, que é uma pauta eminentemente de interesse do Brasil, tem uma outra que é de interesse do multilateralismo, tem uma outra que é de interesse da democracia, e isso eu vou conversar com ele. Agora, ele também tem a pauta dele para mim. Só posso aguardar a reunião, ainda não está marcada. Lula sinalizou que a reunião com Trump deve ocorrer no dia 16 de março, “ou próximo a essa data”. O presidente reiterou que no alto de sua pauta estará o combate ao crime organizado. — Estou preparando um debate sobre a questão do combate ao crime organizado e o narcotráfico. Ele sabe que quando eu for aos Estados Unidos eu vou levar junto comigo a Polícia Federal, vou levar a Receita Federal, vou levar o Ministério da Fazenda, vou levar o Ministério da Justiça, e vou mostrar para ele que se ele quiser de verdade combater o crime organizado, o narcotráfico, o tráfico de armas, o Brasil será parceiro de primeira hora, porque nós temos expertise nisso com a nossa Polícia Federal. Ele sabe que o nosso desejo é colocar os magnatas da corrupção e do narcotráfico na cadeia, e para isso nós faremos qualquer sacrifício.