Em carta, Marcinho VP diz que filho Oruam errou e 'tem que pagar pelo que fez': 'Vai sair de lá maior'

De dentro da penitenciária federal de segurança máxima em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, passa os dias escrevendo cartas. Nos textos endereçados a seu advogado, o ex-desembargador Siro Darlan, comenta temas da atualidade, sobretudo política e debates sociais, além da própria situação judicial. Em uma das missivas, falou também das acusações contra seu filho, o rapper Oruam, réu por duas tentativas de homicídio qualificado contra policiais civis durante operação realizada em junho do ano passado. Von Richthofen investigada: em meio a disputa por herança, polícia abre inquérito sobre furto à casa do tio de Suzane 'Surubão do Arpoador': um ano após flagrante no réveillon, ponto turístico no Rio segue como palco de orgias públicas Atualmente, Oruam é considerado foragido após a revogação de um habeas corpus e o restabelecimento da prisão preventiva. Ele também responde por outros crimes, como resistência, desacato, ameaça e dano qualificado. Na carta, Marcinho VP admite que o filho errou e “tem que pagar pelo que fez”, mas opina que não seria justo atribuírem a ele condutas além das que, segundo sua visão, foram cometidas. “No que dizia respeito a meu filho popstar, firmeza total. Como pai, lamento muito por tudo que ele está passando, porém, ele também não vigiou, né?”, escreveu sobre Oruam em 25 de setembro do ano passado, pouco depois de o artista obter liberdade com decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). “Ainda assim, tem que pagar apenas pelo que fez de verdade, e não por acusações levianas e armas portadas como estão intentando fazer com o menino”, completou, acrescentando estar “tranquilo e confiante na Justiça”. Em outro trecho, ele conta que todos os filhos “cresceram na Igreja”. “Mauro era um menino bom, respeitador, obediente aos pais, humilde. Todavia, é insofismável que o sucesso fez ele tirar os pés do chão um pouco e se perder”, ponderou, ainda sobre Oruam, que adotou o nome de batismo escrito ao contrário como alcunha artística. Marcinho VP também relata a Siro Darlan a esperança de que o herdeiro saia da prisão “maior do que entrou”. “Meu filho não é, e nunca foi, nenhum bandido, mas sim um artista com potencial ímpar, que canta, compõe e arrasta multidões. Acredito que ele, se tiver juízo, vai sair de lá maior do que entrou”, vaticinou. No pé da carta, Nepomuceno critica o uso da teoria do “domínio do fato”, usada em processos criminais a que ele responde. A tese pressupõe a ciência de líderes de organizações criminosas sobre delitos cometidos por terceiros — “a teoria do alemão Claus Roxim que é distorcida aqui no Brasil”, nas palavras do próprio VP. Todas as cartas enviadas e recebidas por presos no sistema penitenciário passam previamente pela leitura de funcionários responsáveis por monitorar o conteúdo e verificar a eventual transmissão de ordens ou orientações criminosas para fora das unidades. No caso de Marcinho VP, o procedimento também se aplica às correspondências que ele escreve e às que recebe, analisadas antes de chegarem à cela. Trecho da carta de Marcinho VP a seu advogado Reprodução O detento reclama que o controle representa violação de privacidade e relata que, em algumas ocasiões, trechos das cartas chegam riscados com caneta preta. O monitoramento, no entanto, segue protocolo adotado nas penitenciárias e contribui para a demora na entrega das correspondências, já que todas precisam passar por esse processo de triagem. Custodiado no sistema penitenciário federal desde 2007 e submetido a regime de isolamento prolongado, VP está prestes a atingir o limite máximo de cumprimento contínuo de pena vigente à época da sentença, de 30 anos, e tem previsão de deixar a cadeia em setembro de 2026. Atualmente, porém, ele é alvo de uma prisão preventiva em um processo de 2024, associado a roubo de carros na Zona Norte do Rio, que impediria uma eventual saída da prisão. Acadêmico do cárcere Além do relato familiar e do tom opinativo das cartas, Marcinho VP também investe na produção literária. Segundo seus próprios relatos, ele já escreveu seis livros, dos quais quatro foram publicados, e trabalha atualmente no sétimo, intitulado “Os mutilados”. O detento faz parte da Academia Brasileira de Letras do Cárcere, ocupando a cadeira de número um, batizada com o nome de Graciliano Ramos, referência simbólica ao escritor que retratou a experiência prisional na literatura brasileira. Nas correspondências, VP sustenta que a condição de acadêmico funciona como estímulo permanente à sua produção. “Escrever é algo libertador”, definiu. Leia a íntegra da carta: "No que dizia respeito a meu filho Popstar, firmeza total. Como pai, lamento muito por tudo que ele está passando, porém, ele também não vigiou né? Ainda assim, tem que pagar (somente) apenas pelo que fez de verdade, e não por acusações levianas e armas portadas como estão intentando fazer com o menino. Fere os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade a imputabilidade do direito mais gravoso do que a pessoa cometeu. Está tudo filmado, gravado! E contra os fatos não há argumentos. As imagens são claras, assim como a loz solar de qual foram as infrações que ele d e forma imprudente cometeu, e também das que os agentes cometeram. Porém estou tranquilo e confiante na justiça porque sei que a longo prazo as acusações fabricadas de má fé, como uma pedra de quase cinco quilos que apareceu supervenientemente ao ocorrido não se sustentam. Depois de Deus, o tempo e o Juiz são mais perfeitos. É de luzidia evidência jurídica que meu filho errou, e não abono sua conduta. Ele tem que pagar pelo que fez. Entretanto, não é justo, e muito menos escorreito, intentarem atribuir a ele coisas na qual ele não fez. Podem aqueles que se dizem defensores da lei, da ética e da sociedade fazer injustiça em nome da Lei? Enfim, Deus sabe de todas as coisas. Os planos de Deus para nossas vidas foram estabelecidos, principalmente na esfera espiritual, antes da fundação do mundo, e creio piamente que é um bom plano como se vê em Jeremias 29:11 “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar danos, planos de lhe dar esperança e um futuro”(destacamos). Todos os meus filhos cresceram na Igreja. O Mauro era um menino bom, respeitador, obediente aos pais, humilde. Todavia, é insofismável que o sucesso fez ele tirar os pés do chão um pouco e se perder. Que o cativeiro sirva de reflexão para ele se apegar de novo a Deus, como fazia quando era menino, e procurar a sua melhora. Só não aceito quererem fazer com ele o mesmo que fizeram comigo aos 20 anos de idade: imputá-lo um monte de crimes para destruí-lo. Isso não podemos admitir jamais né? Pois meu filho não é, e nunca foi nenhum bandido. Mais sim um artista com potencial ímpar, que canta, compõe e arrasta multidões. Acredito que ele, se tiver juízo, vai sair de lá maior do que entrou. Lembra de José do Egito? A história de José nos mostra que muitas vezes em nossas vidas, Satanás acha que esta fazendo algo terrível para nos destruir de vez, e, no entanto, os planos de Deus são outros. Ele só finge aceitar a astúcia do inimigo para nos causar dano e arruinar-nos, mas em silêncio trabalha pelo nosso bem. Deus transforma mal em bem. Em Gênesis 50: “José diz a seus irmãos: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos”. Mistério profundo! Abração. Marcio"