‘Gilmarlândia’: projeto em Mato Grosso cria cidade para ministro do STF ‘chamar de sua’

Decano do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Gilmar Mendes pode batizar uma nova cidade de Mato Grosso. Lançada no fim de semana pelo empresário Eraí Maggi, conhecido como o Rei da Soja, a criação de um distrito administrativo recebeu o nome informal de “Gilmarlândia”, e agora ganha força entre empresários, políticos da região e amigos do ministro a oficialização do nome. A discussão ganhou espaço nas redes e virou tema de discussão local. 'Anuência da chacota': Michelle Bolsonaro reage à declaração de Lula sobre ala de desfile em homenagem a ele Pode ou não pode? Enredo sobre Lula no carnaval reforça terreno pantanoso da pré-campanha Pelo projeto de Eraí Maggi, a cidade planejada — com o nome provisório de Nova Aliança do Norte — será construída em uma área no limite dos municípios de Diamantino — onde Gilmar Mendes nasceu e o prefeito, Chico Mendes, é seu irmão — e São José do Rio Claro. O distrito reunirá terras doadas por Eraí e pela família Mendes, segundo o projeto. Após a implantação, a ideia é desmembrar a área e criar um novo município, que ficará a pouco mais de 300 quilômetros da capital Cuiabá e poderá receber o nome do ministro. Primo do ex-governador Blairo Maggi, Eraí chegou a chamar o local, num áudio que circulou na internet convocando para o lançamento do projeto e uma homenagem ao ministro, de “Gilmarmendeslândia”. Para “Gilmarlândia” virar realidade, além da construção dos imóveis e infraestrutura — que incluirá escolas, rede hospitalar e outros prédios públicos —, a nova cidade terá de vencer a burocracia de criação de um município. Cerca de 400 processos aguardam há dez anos a aprovação de uma lei complementar que regulamente a nova legislação de fusão, incorporação e criação de municípios e impõe regras mais rígidas, ao contrário das aplicadas nos anos 1990, quando houve um grande número de emancipações, incluindo cidades sem viabilidade econômica. Pela nova legislação, os processos devem ser conduzidos pelas assembleias legislativas, após aprovação de 20% dos eleitores da área geográfica a ser emancipada. No caso de fusão ou incorporação, esse percentual cai para 3%. Também é preciso ter uma população mínima por região: no caso de Mato Grosso (Centro-Oeste), seis mil pessoas. Nesses dez anos, apenas uma cidade conseguiu se emancipar: Boa Esperança do Norte (MT). Sem a lei complementar, o processo foi parar no Supremo, e Gilmar deu o voto que garantiu, em outubro de 2023, o surgimento da nova cidade. Caso seja criada, a nova cidade, a 143ª de Mato Grosso, teria uma infraestrutura de serviços planejada e concentraria famílias de trabalhadores do agro da região, que hoje moram em locais distantes, muitos a mais de cem quilômetros das fazendas em que trabalham e dos municípios-mãe do novo distrito. Durante discurso no lançamento do projeto, no último sábado, o Rei da Soja lembrou a distância das fazendas de escolas, hospitais e serviços públicos, o que justificaria a construção da nova cidade. Compareceram ao evento, além de Gilmar, o presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), Max Russi (PSB), prefeitos da região e empresários, favoráveis à “Gilmarlândia”. Em entrevista ao portal Alvorada MT, Gilmar disse ser importante a criação de um núcleo de apoio (distrito administrativo) às famílias e trabalhadores da região: — Eu acho importante essa iniciativa de se ter um núcleo de apoio para as famílias e pessoas que trabalham nessa região. Já temos a experiência da Deciolândia e agora temos esse projeto que há muito era sonhado pelo Eraí Maggi e que começa a ter desdobramentos — disse Gilmar, ao se referir a Deciolândia, localidade com características semelhantes ao futuro distrito. Já Max Russi afirmou não haver barreiras na ALMT para a criação da nova cidade, garantindo apoio da Casa. Procurado por meio da assessoria de imprensa do Supremo, Gilmar Mendes não comentou o projeto. Desde o Império A prática de batizar cidades com nomes de integrantes dos Poderes é antiga no país. Desde o Império, a iniciativa é considerada uma homenagem invejável. Cidades como Petrópolis e Teresópolis, na Região Serrana do Rio, tiveram nomes inspirados no imperador Dom Pedro II e na imperatriz Teresa Cristina, respectivamente. Sua filha, a princesa Isabel, chegou a motivar um projeto de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o Barão de Paty do Alferes, para a criação de Isabelópolis. A cidade ficaria no alto da hoje reserva biológica de Tinguá, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Mas um surto de cólera atrapalhou os planos do barão. Do lugarejo que daria origem a Isabelópolis, Sant’Anna das Palmeiras, sobraram apenas ruínas. Outros cidades ganharam nomes de chefes de Estado brasileiros e estrangeiros, como Getulio Vargas (RS) e Presidente Kennedy (ES). No período da ditadura, as homenagens voltaram a ganhar força e distritos emancipados receberam nomes de presidentes militares ou inspirados neles, como Medicilândia (PA), em referência a Emílio Médici.