Usar o celular errado pode te impedir de emagrecer? Especialista explica fenômeno

O uso do celular antes de dormir pode atrapalhar o emagrecimento ao prejudicar a qualidade do sono e interferir diretamente no funcionamento do metabolismo. Nesse contexto, o doomscrolling, hábito de rolar compulsivamente conteúdos no celular durante a noite, entra no radar de especialistas por intensificar a exposição às telas justamente quando o corpo deveria desacelerar. A prática favorece alterações hormonais, desacelera o gasto energético e pode aumentar episódios de fome durante a madrugada. Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviews ‘Runner’s face’ viraliza nas redes; dermatologista explica se correr envelhece Em entrevista ao TechTudo, a médica nutróloga especialista em emagrecimento, Ana Luisa Vilela, explica que a tecnologia pode confundir o relógio biológico do organismo: “A luz azul das telas age como um alarme falso para esse relógio, dizendo ao seu cérebro que ainda é dia. Isso inibe a produção da melatonina, o nosso hormônio do sono” . Imagem ilustrativa de um adulto utilizando o celular Reprodução/ FreePik Qual pode ser a causa do superaquecimento do meu iPhone? Tire dúvidas no Fórum do TechTudo Uso do celular pode prejudicar o emagrecimento? Veja, no índice abaixo, os assuntos que serão tratados nesta matéria. A confusão hormonal O "assalto" à geladeira O impacto no metabolismo lento Filtros de luz azul e modo noturno A janela crítica A confusão hormonal O impacto da luz azul no sono Reprodução/ pvproductions A exposição à luz das telas durante a noite pode interferir no relógio biológico e na produção de melatonina, hormônio que regula o sono. De acordo com o artigo Blue light has a dark side, da Harvard Health Publishingerva, a luz azul emitida por dispositivos eletrônicos tem maior potencial de atrasar o ritmo circadiano do que outras frequências luminosas, podendo deslocar o ciclo biológico em até algumas horas. Essa alteração compromete o descanso noturno e pode afetar processos metabólicos associados à regulação hormonal e ao gasto energético. Dra. Ana Luísa alerta: “Pense no seu corpo como se ele tivesse um relógio interno, que chamamos de ritmo circadiano. A luz azul das telas age como um alarme falso para esse relógio, dizendo ao seu cérebro que ainda é dia. Isso inibe a produção da melatonina, o nosso hormônio do sono.” A desregulação desse ciclo, segundo a especialista, pode impactar a qualidade do descanso e, ao longo do tempo, estar associada ao aumento do risco de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. O assalto à geladeira A ciência comprova que o hábito de levar o celular para a cama é um gatilho biológico para o ganho de peso. De acordo com o estudo Light Modulates Leptin and Ghrelin in Sleep-Restricted Adults, publicado na National Library of Medicine, apenas cinco dias de sono insuficiente são capazes de desregular os hormônios do apetite, reduzindo a leptina (saciedade) e elevando a grelina (fome). Na prática, a exposição à luz das telas durante a madrugada cria um desequilíbrio químico que anula o "freio" do organismo, explicando por que a navegação noturna costuma terminar em um "assalto" à geladeira em busca de prazer imediato e energia rápida. Imagem ilustrativa de uma jovem fazendo um lanche noturno Reprodução/ cottonbro studio O cérebro, exausto e enganado pela luz azul, tenta compensar a privação de energia real com calorias de rápida absorção, como carboidratos e doces. Esse comportamento cria um círculo vicioso: a tela impede o sono, a vigília gera fome noturna e o excesso de açúcar prejudica o descanso restante. Segundo a médica nutróloga, essa compulsão alimentar muitas vezes passa despercebida pelo usuário: “Quando nosso cérebro está confuso pela luz fora de hora, ele busca prazer e energia rápida. Alimentos ricos em açúcar e gordura liberam uma quantidade muito maior de dopamina do que alimentos saudáveis. É um mecanismo de sobrevivência que, no contexto moderno, se volta contra nós.” Esse cenário é agravado pelo consumo de conteúdos estressantes antes de dormir, que elevam o cortisol e potencializam a busca por "comida afetiva". O resultado é um consumo calórico excedente que o corpo não processa adequadamente durante a noite, culminando no ganho de peso progressivo. O impacto no metabolismo lento Além de estimular a ingestão calórica, a luz azul e o sono fragmentado reduzem a taxa metabólica basal, fazendo com que o corpo queime menos energia em repouso. Sem atingir as fases profundas do sono, a sensibilidade à insulina diminui, o que facilita o acúmulo de gordura, especialmente na região abdominal. É como se o metabolismo entrasse em "modo de economia", sabotando os esforços feitos durante o dia na academia, como enfatiza a Dra. Ana Luisa Vilela: “Pesquisas de alto impacto mostraram que dormir mesmo com uma luz fraca no quarto, como a de uma TV ligada ou a que entra pela fresta da porta, já é o suficiente para aumentar a resistência à insulina na manhã seguinte. Isso significa que seu corpo passa a ter dificuldade em usar o açúcar do sangue como energia, o que força o pâncreas a trabalhar mais e, a longo prazo, facilita o acúmulo de gordura, principalmente na barriga.” Imagem ilustrativa de um jovem sedentário Reproduçã/ rawpixel.com A interrupção do ciclo circadiano prejudica a termogênese e a oxidação eficiente de gorduras pelo organismo. Sob estresse digital, um corpo que não descansa adequadamente produz níveis elevados de cortisol, um hormônio que, em excesso, favorece a perda de massa muscular e a retenção de líquidos. Nesse cenário, o hábito de mexer no celular até tarde pode anular os benefícios de uma dieta equilibrada praticada durante o dia, sabotando o déficit calórico. A longo prazo, essa lentidão metabólica consolida um padrão difícil de reverter sem uma higiene do sono rigorosa e consistente. O esforço para emagrecer torna-se muito mais árduo quando o organismo passa a lutar contra si mesmo, preso em uma falta de sincronia biológica causada pelo excesso de luz artificial. Filtros de luz azul e modo noturno A indústria de tecnologia introduziu o "Modo Noturno" e filtros de software que deixam a tela amarelada para tentar mitigar os danos da luz azul. Apesar disso, o estudo Do blue light filter applications improve sleep outcomes? A study of smartphone users’ sleep quality in an observational setting, publicado na plataforma Taylor & Francis, indica que essas soluções digitais podem oferecer uma falsa sensação de segurança. A pesquisa mostra que tais aplicativos não melhoram significativamente a qualidade do sono, uma vez que a interatividade e o brilho, mesmo que atenuados, são suficientes para manter o cérebro em estado de alerta e vigília. O modo noturno oferece diversos benefícios em ambientes escuros Reprodução/FreePik O problema central é que o estímulo cognitivo de processar notificações, imagens e informações supera qualquer benefício da mudança na temperatura de cor da tela. A luz azul é apenas um dos fatores; a proximidade do dispositivo e a luz de fundo ainda são capazes de suprimir a melatonina de forma relevante. Portanto, embora o filtro possa reduzir o cansaço visual, ele raramente protege o ciclo metabólico de forma completa e eficaz. A Dra. Ana Luisa Vilela reforça que essas ferramentas são apenas paliativas: “É melhor do que nada, mas está longe de ser a solução. Os estudos mostram que, para proteger a melatonina, não basta mudar a cor da luz; é preciso diminuir drasticamente o brilho. E o mais importante: o filtro não faz nada contra o estímulo mental. Se você está rolando o feed de notícias ou respondendo e-mails, seu cérebro continua em estado de alerta total.” Nesse cenário, a melhor alternativa continua sendo o afastamento físico dos aparelhos, permitindo que a biologia natural assuma o controle sem interferências artificiais. Confiar apenas no "modo noturno" pode ser uma armadilha, mantendo o usuário conectado por mais tempo do que deveria sob a falsa premissa de estar protegido. A janela crítica A mudança de comportamento nos 60 minutos que antecedem o repouso é o passo mais desafiador e, simultaneamente, o mais eficaz para quem busca emagrecer. É nesse período que a produção de melatonina deve atingir seu pico, preparando o organismo para o jejum noturno e para a queima de gordura. Para reprogramar o metabolismo, a Dra. Ana Luisa Vilela recomenda o que chama de “apagão tecnológico”: “O ideal é desligar todas as telas, seja celular, tablet ou TV, pelo menos 30 a 60 minutos antes de deitar. Se você conseguir estender para duas horas, os benefícios serão ainda maiores. A dica de ouro é deixar o aparelho carregando fora do quarto e usar um despertador comum. Isso elimina a tentação e garante o ambiente escuro, que é crucial para a regulação do sono, do apetite e do metabolismo. É uma mudança de hábito que transforma a saúde.” Higiene do sono, um hábito necessário para um sono de qualidade Reprodução/ gpointstudio Substituir o scroll infinito por atividades de baixo estímulo, como leitura em papel ou um banho relaxante, cria o cenário ideal para a perda de peso. Ao priorizar o "escuro biológico" e quebrar o vício comportamental de levar o celular para a cama, o corpo recupera a capacidade natural de regular a energia. Embora o desafio inicial seja grande, os reflexos na balança e na disposição aparecem rapidamente, provando que o sono não é apenas repouso, mas um componente ativo de qualquer protocolo de emagrecimento bem-sucedido. Com informações de AASIM, Harvard Health Publishing, e Taylor & Francis Veja também: aplicativo para emagrecer sem sair de casa: como malhar com Nike Training Club Aplicativo para emagrecer sem sair de casa: como malhar com Nike Training Club