O julgamento dos réus acusados de ordenarem e planejarem o assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, coloca frente a frente narrativas diferentes diante da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira. São réus no caso Domingos Brazão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ) e Chiquinho Brazão, ex-deputado federal; Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, acusado de ter atuado para impedir as investigações do homicídio; Ronald Alves de Paula, major da Polícia Militar, acusado de ter monitorado os passos da vereadora; Robson Calixto, ex-policial militar e ex-assessor, denunciado sob acusação de ter fornecido a arma do crime. Todos eles estão presos atualmente e se declaram inocentes. Caso Marielle: em que Ronnie Lessa errou ao tentar esconder provas da morte da vereadora? Entenda como será o rito do julgamento na Primeira Turma do STF O que diz a acusação Em sua delação premiada para Polícia Federal, Ronnie Lessa — que admitiu ser um dos executores dos assassinatos de Marielle e Anderson — relatou a existência de uma articulação, que, segundo o Ministério Público, teria como objetivo resguardar interesses relacionados à grilagem de terrenos em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste. Área de influência política dos irmãos Brazão. Homologada pela Justiça, a colaboração é contestada pelas defesas, que questionam sua credibilidade. No relatório, a própria Polícia Federal destaca os obstáculos para reunir provas físicas cinco anos depois do crime, quando a apuração estava sob responsabilidade de órgãos estaduais. Lessa ainda afirmou que a submetralhadora HK MP5, usada no crime, teria sido entregue pelos supostos mandantes por meio de Edmilson da Silva de Oliveira, o Macalé, apontado como amigo de Lessa e um intermediador das suas negociações. Lessa também afirmou que devolver a Macalé o equipamento, que segundo ele, seria da milícia de Rio das Pedras, fazia parte do acordo. Ainda disse que os cartuchos foram descartados em um riacho nos fundos da comunidade. A arma, assim como o veículo Cobalt de cor prata utilizado na noite do crime, jamais foram encontrados pela polícia. Saiba tudo sobre o Caso Marielle em 15 pontos; julgamento dos acusados de serem mandantes começa nesta terça De acordo com Lessa, após o crime, outro amigo, o ex-bombeiro Maxwell Simões Corrêa, o Suel, teria encaminhado o carro para o desmanche, além de ter quebrado a placa em pedaços e espalhado ao longo da linha férrea, do Méier a Rocha Miranda, na Zona Norte do Rio. Policiais foram nos locais indicados, mas não encontraram. Ao visitarem a localidade de Rio das Pedras, em busca dos projéteis, encontraram o córrego aterrado. Elementos técnicos Entre os elementos técnicos obtidos pela investigação, consta o registro de que os celulares de Ronnie Lessa e Domingos Brazão estavam conectados à mesma antena na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio, no fim de 2017. Quando teria acontecido o encontro entre os irmãos, Lessa e Macalé. Mas a defesa argumenta que Domingos reside na região, o que significa que, mesmo se estivesse em casa, a conexão se daria pela mesma estação rádio-base. A investigação também examinou iniciativas legislativas de Chiquinho Brazão que indicariam atritos com Marielle. Conforme a Polícia Federal, o embate teria se acirrado durante a tramitação de uma proposta na Câmara do Rio para flexibilizar regras urbanísticas e legalizar loteamentos irregulares. Segundo o delator, Marielle se opôs publicamente ao projeto, defendendo a regularização voltada a Áreas de Especial Interesse Social (Aeis) e afirmando que o texto beneficiaria grileiros e milícias. Para a acusação, a aprovação apertada, após sucessivos adiantamentos, é o marco do agravamento do conflito entre a vereadora e os irmãos Brazão. A acusação ainda menciona o depoimento de uma testemunha que confirma a versão de Lessa sobre a convivência entre ele, Macalé e os irmãos Brazão em um criatório de pássaros em Jacarepaguá. Mas os Brazão negam conhecer Lessa. O que diz a acusação Cleber Lopes, advogado de Chiquinho Brazão, afirmou que pretende contestar integralmente a delação. Em memoriais encaminhados aos ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia, sob relatoria de Alexandre de Moraes, ele sustenta que não existem provas que confirmem as declarações de Lessa e pede absolvição de seu cliente. — A principal prova é a delação e nada foi corroborado. O delator diz que devolveu a arma a Macalé, mas foi condenado por tê-la jogado no mar. É uma sucessão de mentiras. Como se pode condenar alguém com base apenas em um depoimento? — afirmou. Traficantes ocupam região que ex-PM diz que receberia pelo assassinato da vereadora Os representantes dos demais réus não comentaram o caso. A Procuradoria-Geral da República denunciou Domingos e Chiquinho Brazão, além de Rivaldo Barbosa e Ronald Paulo, por homicídio qualificado. Juntamente com Robson Calixto, os irmãos também respondem por organização criminosa. Antes de receber a sentença da Justiça do Rio, em outubro de 2024, a 78 anos e nove meses de prisão pelo duplo homicídio qualificado e pela tentativa contra a assessora Fernanda Chaves, Lessa decidiu colaborar com as investigações. A decisão ocorreu após a delação de Élcio de Queiroz, motorista do Cobalt, que admitiu participação no crime. Ele confessou após a promotora Simone Sibilio, da Força-Tarefa Marielle e Anderson, obter uma prova que seria usada contra ele no júri. RIO_22-02_teses-caso-marielle Initial plugin text