A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) começa, nesta terça-feira, a julgar os cinco acusados de planejar o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. São réus na ação penal o deputado federal cassado Chiquinho Brazão, o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio (TCE-RJ) Domingos Brazão, o ex-chefe da Polícia Civil do Rio Rivaldo Barbosa, o policial militar Ronald Paulo Alves Pereira e o ex-assessor do TCE-RJ Robson Calixto da Fonseca. Todos negam participação nos crimes. Saiba quem são eles: Chiquinho Brazão Francisco Inácio Brazão, conhecido como Chiquinho, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro, mas teve o mandato cassado pela Câmara dos Deputados neste ano por faltar às sessões, já que está preso. Oriundo de uma das famílias mais influentes da política fluminense, mantém forte base eleitoral na Zona Sudoeste do Rio. Segundo a Polícia Federal, ele e o irmão Domingos estão envolvidos em esquemas de grilagem de terras na região — apontados como o motivo do assassinato de Marielle. Foi preso em 24 de março, por ordem do relator Alexandre de Moraes. Segundo a PGR, um dos fatores que motivaram o crime foi a tramitação do Projeto de Lei Complementar 174/2016, de autoria de Chiquinho Brazão, que buscava regularizar lotes de terra em áreas irregulares de Vargem Grande, Vargem Pequena, Itanhangá e Jacarepaguá, regiões na época controladas por milícias. O projeto enfrentava resistência do PSOL, partido de Marielle, na Câmara Municipal do Rio. De acordo com as investigações da Polícia Federal, o ex-policial militar Ronnie Lessa relatou que, no segundo trimestre de 2017, Chiquinho, então vereador do Rio, demonstrou "descontrolada reação" à atuação de Marielle na "apertada votação do projeto". Domingos Brazão Irmão de Chiquinho, Domingos Inácio Brazão é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) desde 2015, quando deixou a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Ele e Chiquinho são apontados como mandantes do crime. Ronnie Lessa relatou na delação que teve três encontros, entre 2017 e 2018, com os irmãos Brazão. A PF descobriu que o local desses encontros para o planejamento do homicídio de Marielle Franco ficava a dois quarteirões da casa do conselheiro do TCE. Rivaldo Barbosa Delegado de carreira, Rivaldo Barbosa foi nomeado chefe da Polícia Civil do Rio em março de 2018, dias antes do assassinato, durante a intervenção federal no estado. De acordo com a denúncia da PGR, Rivaldo teria atuado para proteger os mandantes e garantir a execução do plano, chegando a sugerir que o crime não ocorresse na porta da Câmara Municipal para evitar associação direta com a política. Segundo a PF, Rivaldo usou o cargo para obstruir investigações iniciais e influenciar os rumos do inquérito. Nos depoimentos, Lessa ainda relatou que Barbosa foi uma peça-chave para que os homicídios fossem consumados a mando dos Brazão. Ao delegado, caberia garantir uma espécie de imunidade aos envolvidos, ou seja, de alguma forma o inquérito que se sucederia não poderia chegar nos responsáveis pela empreitada criminosa. Robson Calixto, o “Peixe” Policial militar reformado, Robson Calixto Fonseca atuou como assessor de Domingos Brazão. É acusado de participar do elo operacional da trama. Seu nome aparece na delação do ex-policial militar Ronnie Lessa — autor confesso dos disparos — e em apurações da PF como peça-chave na ligação entre mandantes e executores. Segundo o ex-PM contou em depoimento à PF, coube a Peixe providenciar a submetralhadora HK MP5 usada para matar a vereadora e o motorista. Major Ronald Paulo Alves Pereira Oficial da Polícia Militar do Rio, o major Ronald Paulo Alves Pereira foi apontado pelo Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio (Gaeco) como um dos chefes da milícia da Muzema, comunidade que durante anos foi controlada pelos paramilitares na Zona Sudoeste do Rio. Segundo a PF, ele monitorou Marielle no dia do atentado, auxiliando na fase final do crime. Outra ação A Procuradoria-Geral da República ofereceu, no último dia 13 de fevereiro, uma outra denúncia contra os delegados da Polícia Civil do Rio Rivaldo Barbosa de Araújo, Giniton Lages e Marco Antônio de Barros pelos crimes de associação criminosa e obstrução de Justiça. As acusações se referem a um suposto esquema para atrapalhar as investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Segundo o MPF, os delegados atuaram para "garantir a impunidade de crimes de homicídio praticados por organizações criminosas, por meio de obstrução às investigações". De acordo com o procurador, o grupo ocultou provas, incriminou terceiros sabidamente inocentes, utilizou testemunhos falsos, fez diligências inócuas, desapareceu com provas e "teria se aproveitado de um contexto de "mercantilização de homicídios existente no Estado". Já foram condenados Ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, presos desde 2019 Pablo Jacob e Alexandre Cassiano / Arquivo / Agência O Globo Além dos cinco réus que serão julgados pelo STF, já foram condenados Ronnie Lessa, ex-PM e autor dos disparos, e Élcio de Queiroz, ex-PM que dirigiu o carro usado na emboscada. Ambos firmaram delações premiadas que ajudaram a consolidar a denúncia contra os mandantes.