Governo Trump prepara expropriações para construir muro na fronteira com o México

O governo Trump deu à professora Nayda Alvarez cinco dias para decidir se permitirá que um muro na fronteira cruze seu quintal. Caso ela se recuse, dizem, sua casa às margens do Rio Grande, no Texas, será expropriada. O presidente republicano fará seu discurso sobre o Estado da União ao Congresso nesta terça-feira, em um primeiro ano marcado por medidas anti-imigração e planos para reforçar a fronteira sul dos Estados Unidos com o México. 'El Mencho': México controla represália de cartel por morte de líder e confirma perda de 27 agentes de segurança; colaboração dos EUA se limitou a inteligência Leia também: governo do Canadá recomenda que indígenas portem passaportes na fronteira com os EUA Em Laredo, no Texas, uma cidade com mais de 250 mil habitantes predominantemente hispânicos, a comunidade cresceu às margens do Rio Grande, a fronteira natural entre os dois países. Casas, parques, trilhas para caminhada e ciclismo, áreas de pesca e até um cemitério familiar estão localizados às margens do rio, sem muros. Mas, em fevereiro, pelo menos 60 proprietários receberam uma carta do governo federal com o seguinte aviso: "Aviso de Interesse: Propriedade próxima a projetos de construção na fronteira." A casa de madeira do americano Antonio Rosales Jr., de 75 anos, fica nessa área: "Recebemos uma carta do governo dizendo que vão demolir parte da minha casa e que tenho cinco dias para assinar os papéis", lamenta ele. Para Édgar Villaseñor, ativista do Centro de Estudos Internacionais do Rio Grande, "o problema em Laredo e em todo o sul do Texas, e em todas as propriedades ribeirinhas, é que estão realizando uma apropriação de terras em larga escala". Governo Trump prepara expropriações para construir muro na fronteira com o México Ronaldo Schemidt/AFP O governo planeja construir um "muro inteligente" ao longo de seus mais de 3.000 km de fronteira com o México. Um terço dessa extensão já possuía muros antes do segundo mandato de Trump. O plano inclui mais muros físicos ou, dependendo da área, barreiras aquáticas, estradas de patrulha e tecnologia de detecção. "Para alcançar o controle operacional da fronteira, a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) deve, de acordo com a lei, construir a infraestrutura física necessária", disse um porta-voz da agência à AFP. Portanto, "eles estão em processo de contato com proprietários de terras como parte do processo de aquisição das terras necessárias para acesso e/ou construção do muro". As opções "No primeiro ano de mandato do presidente Trump, conquistamos a fronteira mais segura da história dos EUA", disse a Secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, no início de fevereiro. Janeiro marcou o nono mês consecutivo sem a entrada de "imigrantes ilegais" nos Estados Unidos, afirmou Noem, que recentemente publicou uma foto sua assinando um contrato para a compra de aço para o muro. "Esse muro passaria bem pelo meu quintal", diz Álvarez, de 54 anos, em La Rosita, uma comunidade de cerca de 300 habitantes, a 140 km a sudeste de Laredo. Em fevereiro, pelo menos 60 proprietários receberam carta do governo federal com aviso sobre alterações na região Ronaldo Schemidt/AFP O documento, datado de 13 de fevereiro, descreve três opções: "Eles te dão mil dólares para permitir o acesso à sua propriedade para que possam fazer o que precisam fazer, permitem que você negocie um acordo de compra ou servidão com o governo ou, se você não aceitar, eles expropriam sua propriedade", explica ela. Ela ainda está avaliando o que fazer. Em Laredo, a organização de Villaseñor apoia os afetados, ajudando-os a se informar antes de aceitar ou se preparar para se defender. Ela explica que alguns proprietários, devido à pressão, medo ou falta de informação, assinaram, mas que a maioria se opõe. Danos ao Rio O principal parque da cidade de Eagle Pass, a 180 km a noroeste de Laredo, foi militarizado em janeiro de 2024. Boias foram colocadas ao longo da margem do rio, e o acesso a ele foi bloqueado com cercas e arame farpado. Isso dizimou o negócio de Jessie Fuentes, de 65 anos, que oferece passeios de caiaque. A prioridade do governo "é apenas a segurança" e "eles não se importam com o fluxo da água, se permitem que os animais venham ao rio para beber água ou se a flora e a fauna prosperam". "Tudo está morto atrás de mim", diz ele por trás de uma cerca que bloqueia o acesso ao rio. Perto dali, na cidade de Quemado, o governo Trump construiu muros em 2025. Ao pé do muro estão as sepulturas de migrantes cujos corpos foram encontrados na área nos últimos anos, a maioria deles não identificada. Para Villaseñor, a narrativa de que os migrantes vêm para causar danos não é verdadeira. "A necessidade do muro é completamente falsa. Quem diz isso são pessoas de Washington, D.C. Quem vive às margens do rio não tem medo de nada." Em Laredo, o que Rosales Jr. teme é perder sua casa. "Vai ser estranho para nós irmos embora depois de tantos anos, mas o governo é o governo e pode fazer o que quiser."