A China vai restringir as exportações para empresas japonesas com vínculos com a indústria de defesa, na mais recente escalada da disputa que já dura meses entre Pequim e Tóquio em torno de Taiwan, sinalizando que Pequim não abandonará sua campanha de pressão contra Tóquio mesmo após a recente vitória esmagadora da primeira-ministra Sanae Takaichi. Confusão tarifária: Trump promete tarifa de 15%, mas taxa que entrou em vigor hoje é de 10% Pedro Doria: Se a China invadir Taiwan, geopolítica mundial mudará por completo O Ministério do Comércio incluiu os principais fornecedores militares japoneses — incluindo as divisões de construção naval e aeroespacial da Mitsubishi Heavy Industries, a JAXA, agência espacial do Japão; e a National Defense Academy of Japan, uma universidade de formação militar — em uma lista de controle de exportações, segundo comunicado divulgado na terça-feira. Em outra iniciativa, Pequim colocou mais 20 entidades, incluindo as montadoras Subaru e Hino Motors, em uma lista de monitoramento. Embora não se trate de uma proibição total, esse status submete os exportadores chineses a verificações mais rigorosas ao solicitarem licença para fornecer às empresas japonesas bens com aplicações tanto civis quanto militares. Initial plugin text As restrições têm como objetivo frustrar os esforços do Japão para expandir suas forças armadas, além de exercer pressão econômica. Pequim vem intensificando a pressão sobre Tóquio desde novembro, quando a primeira-ministra do Japão afirmou que o país poderia ajudar a defender Taiwan em caso de uma invasão chinesa. A China considera Taiwan, uma democracia autogovernada, parte de seu território. — A China claramente não está aliviando a pressão, apesar da vitória esmagadora da primeira-ministra japonesa — afirmou Dylan Loh, professor associado da Universidade Tecnológica de Nanyang. Soberania: Xi Jinping alerta Trump e chama Taiwan de tema mais sensível na relação entre China e EUA Segundo ele, as regras podem “restringir a alegada militarização e também desferir um golpe direto nessas empresas”. As medidas vêm na esteira de uma proibição mais ampla anunciada no início deste ano, que bloqueou exportações para o Japão com qualquer aplicação militar, embora o uso da lista de monitoramento pela primeira vez sinalize uma ampliação do escopo de alvos para controles adicionais de exportação. O Japão, até o momento, não retaliou diretamente as medidas de Pequim. Tóquio protestou contra as restrições junto à China e exigiu sua revogação, disse o vice-secretário-chefe do Gabinete, Kei Sato, a repórteres na terça-feira. Tarifaço: Ameaças de Trump travam comércio bilateral dos EUA pelo mundo e abrem espaço à China A notícia desencadeou uma onda de vendas nos setores de defesa e de maquinário pesado em Tóquio, com as ações da Mitsubishi Heavy Industries revertendo ganhos e chegando a cair até 3,6%. A Kawasaki Heavy Industries e a IHI Corporation ampliaram as perdas para mais de 5%. As ações da Subaru aprofundaram as quedas para até 4,6% após o anúncio chinês. Empresas incluídas na lista de controle de exportação Mitsubishi Heavy Industries Shipbuilding Co. Mitsubishi Heavy Industries Aero Engines, Ltd. Mitsubishi Heavy Industries Marine Machinery & Equipment Co., Ltd. Mitsubishi Heavy Industries Engine & Turbocharger, Ltd. Mitsubishi Heavy Industries Maritime Systems, Ltd. Kawasaki Heavy Industries Aerospace Systems Company KAWAJU Gifu Engineering Co., Ltd. Fujitsu Defense & National Security, Ltd. IHI Power Systems Co., Ltd. IHI Master Metal Co., Ltd. IHI Jet Service Co., Ltd. IHI Aerospace Co., Ltd. IHI Aero Manufacturing Co., Ltd. IHI Aerospace Engineering Co., Ltd. NEC Network and Sensor Systems, Ltd. NEC Aerospace Systems, Ltd. Japan Marine United Corporation JMU Defense Systems Co., Ltd. National Defense Academy of Japan Japan Aerospace Exploration Agency Empresas incluídas na lista de monitoramento SUBARU Corporation FUJI Aerospace Technology Co., Ltd. ENEOS Corporation Yusoki Co., Ltd. ITOCHU Aviation Co., Ltd. Leda Group Holdings Co., Ltd. Institute of Science Tokyo Mitsubishi Materials Corporation ASPP Co., Ltd. Yashima Denki Co., Ltd. Sumitomo Heavy Industries, Ltd. TDK Corporation Mitsui Bussan Aerospace Co., Ltd. Hino Motors, Ltd. Tokin Corporation Nissin Electric Co., Ltd. Sun Tectro Co., Ltd. Nitto Denko Corporation NOF Corporation Nacalai Tesque, Inc. As restrições marcam a mais recente escalada em uma disputa sobre comentários feitos por Takaichi no ano passado a respeito de Taiwan, quando ela sugeriu que Tóquio poderia mobilizar suas forças armadas caso a China use a força para tentar tomar a ilha. Takaichi tem se recusado a retirar suas declarações sobre a democracia insular, que a China reivindica como parte de seu próprio território. Restrições marcam a mais recente escalada em uma disputa sobre comentários feitos por Sanae Takaichi no ano passado a respeito de Taiwan, quando ela sugeriu que Tóquio poderia mobilizar suas forças armadas caso a China use a força para tentar tomar a ilha Bloomberg Pequim afirmou que as medidas mais recentes buscam conter a remilitarização do Japão e suas ambições nucleares. O ministério acrescentou que entidades japonesas que cumprem a lei não têm motivo para preocupação, embora os apelos de Takaichi por maiores gastos com defesa tenham irritado a China. As medidas são as primeiras ações punitivas de Pequim após Takaichi conquistar uma vitória expressiva em uma eleição antecipada no início deste mês, garantindo um mandato claro para sua agenda política, incluindo uma postura mais assertiva na política externa. Tarifas de Trump: ‘Essa falta de previsibilidade é negativa para os Estados Unidos’, diz especialista em comércio exterior Depois que Takaichi obteve uma maioria histórica, alguns autoridades japonesas esperavam que a China tivesse pouca alternativa a não ser suavizar o tom em relação a Tóquio. As mais recentes restrições sugerem que Pequim não pretende recuar, a menos que Takaichi retire suas declarações — um cenário politicamente impossível para ela no plano doméstico. O significado de cada lista A abordagem em dois níveis adotada por Pequim permite diferenciar melhor entre contratantes militares já conhecidos e aqueles suspeitos de fortalecer a capacidade militar do Japão. Para as empresas incluídas na lista de controle de exportações, a designação proíbe que exportadores lhes forneçam itens de uso duplo. Também impede que entidades estrangeiras forneçam a essas companhias tecnologia de uso duplo de origem chinesa. Initial plugin text Enquanto a ''lista de controle de exportação'' funciona como uma proibição total, a lista de monitoramento impõe uma fiscalização mais rigorosa sobre empresas como a TDK Corporation, fabricante de componentes eletrônicos, e outras menos ligadas ao setor de defesa. Para essas companhias, os exportadores agora devem apresentar comprovação documentada de uso final civil para superar as exigências mais rigorosas de licenciamento. De acordo com as regras de monitoramento, os exportadores não podem solicitar licenças gerais para essas empresas. Eles devem apresentar relatórios de avaliação de risco e compromissos por escrito de que os produtos não serão utilizados para fortalecer as capacidades militares do Japão, segundo comunicado do Ministério do Comércio. Qing Ren, sócio do Global Law Office, em Pequim, afirmou que a designação pode levar alguns exportadores chineses de itens de uso duplo a evitar empresas japonesas incluídas na lista de monitoramento. No entanto, as exportações desses produtos para uso civil ainda poderão prosseguir caso as companhias apresentem documentação que comprove que são as usuárias finais. As exportações de itens que não sejam de uso duplo não serão afetadas pelas medidas, acrescentou. Com aumento das tensões: Exportações chinesas de produtos de terras-raras caem enquanto disputa com o Japão ganha destaque Kazuto Suzuki, diretor do Institute of Geo-economics, com sede em Tóquio, disse que a medida foi uma tentativa de enviar um sinal político ao Japão e provavelmente não provocará grande impacto para as empresas japonesas. — Trata-se de uma questão de aparência. Desde que as empresas apresentem certificados de usuário final, elas ainda deverão conseguir obter materiais, desde que não venham do setor de defesa — afirmou. A lista chinesa de controle de exportações de itens de uso duplo inclui mais de 800 produtos, que vão de terras-raras, produtos químicos, componentes eletrônicos e sensores a equipamentos e tecnologias utilizados nos setores naval e aeroespacial. O que dizem as empresas A Mitsubishi Heavy Industries é uma das maiores fabricantes de máquinas do Japão, produzindo desde equipamentos para aeronaves e motores até usinas de energia e sistemas marítimos. A empresa já apontou a China como um mercado-chave para a venda de turbinas a gás e motores, além de ser um de seus principais polos de manutenção de equipamentos. A companhia também está avançando no desenvolvimento de tecnologia nuclear de nova geração. Parceria: Brasil e Índia assinam acordo sobre minerais críticos e terras-raras Um porta-voz da IHI Corporation afirmou que a empresa está analisando a questão e acompanhará a situação de perto. A Eneos Holdings, cujo braço de petróleo, Eneos Corp., foi incluído na lista de monitoramento, disse que adotará as medidas apropriadas conforme necessário. Também presente na lista de monitoramento, a Mitsui Bussan Aerospace informou que não comercializa produtos importados da China, em resposta a uma consulta da Bloomberg News. A ITOCHU Aviation declarou que não possui importações chinesas nem vínculos comerciais com empresas da segunda maior economia do mundo. O Japão continua altamente dependente da China para suas importações de terras-raras, sendo que o país respondia por cerca de 70% do fornecimento japonês em 2024. Essa vulnerabilidade persiste desde 2010, quando Pequim restringiu o fluxo desses minerais estratégicos durante uma disputa territorial, provocando fortes impactos entre os fabricantes japoneses. — É a China aprendendo — disse Brad Glosserman, assessor sênior do Pacific Forum, sobre as mais recentes medidas de Pequim. — Eles estão avançando para um sistema de ‘governo pela lei emulando os Estados Unidos para neutralizar eventuais reclamações, ao mesmo tempo em que criam uma estrutura regulatória que aproveita sua posição nas cadeias globais de suprimentos para influenciar governos estrangeiros que ajam de maneiras de que não gostam — ressaltou. Initial plugin text