Caso Marielle: PGR tratou de evitar descrédito da delação de Lessa e do depoimento de Orlando Curicica

O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, antecipou a principal linha defensiva esperada no julgamento: a tentativa de desqualificar a delação de Ronnie Lessa e o depoimento de Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica. Segundo ele, tanto Lessa quanto Curicica conhecem profundamente o submundo do crime organizado e, por isso, seriam capazes de revelar os meandros da execução da vereadora Marielle Franco. Caso Marielle: preso, miliciano Orlando da Curicica afirmou ao GLOBO, em 2018, que Rivaldo Barbosa recebia propina da DH Entenda por que Lessa decidiu delatar quem foram os dois mandantes das mortes de Marielle e Anderson Hindenburgo não ignorou o passado de Curicica como miliciano. Ao contrário, sustentou que sua condição de testemunha — sem qualquer benefício penal, diferentemente do que ocorre na delação premiada — reforça o peso de seu relato sobre a corrupção policial existente na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) à época do crime. Destacou ainda que o testemunho não foi isolado. Curicica apontou a participação do delegado Rivaldo Barbosa em um suposto esquema de propinas para travar investigações de homicídios. A citação de Hindenburgo lembra o depoimento importante, na fase das audiências de instrução, o do delegado Brenno Carnevale, que atuou na DHC no setor responsável por apurar mortes de agentes públicos. Ele relatou episódios de sabotagem enquanto conduzia investigações. Em um dos casos — o assassinato do policial militar e então presidente da Portela, Marcos Vieira de Souza, o Falcon —, Carnevale afirmou ter sofrido “embaraços”. Segundo ele, Rivaldo chegou a dizer que conhecia o promotor do caso e que poderia “ajudar”. Caso Marielle: em depoimento ao STF, delegado diz que ex-chefe da DH 'monitorava' investigação da morte do PM Falcon O vice-procurador recorreu ainda a um paralelo internacional. Lembrou que investigações contra a máfia italiana — como a 'Ndrangheta, organização criminosa com base na Calábria e considerada uma das mais poderosas e ricas do mundo — também se apoiam em depoimentos de colaboradores e testemunhas para avançar. A facção, segundo autoridades, mantém conexões com o PCC no Brasil. Sem informações vindas de quem conhece por dentro o funcionamento dessas engrenagens, argumentou, é praticamente impossível reunir provas contra estruturas criminosas complexas. Ao defender o valor dos relatos de Curicica, Hindenburgo afirmou: “Orlando tornou-se, a exemplo de muitos que ajudaram a desvendar os meandros da organização criminosa, um arrependido cujo testemunho provoca verdadeiro horror aos líderes dessas organizações, justamente por revelar suas estruturas, seus participantes, seus modos de atuação. Orlando fez o que dele se esperava. Forneceu depoimentos absolutamente coerentes com o que está narrado na ação e com os elementos colhidos nos autos. É isso que importa. Não importa que ele seja miliciano. O que importa é a coerência no que ele diz.” Rivaldo Barbosa: chefe de polícia preso por morte de Marielle teria prometido que mandantes ficaram impunes Hindenburgo também ressaltou a relevância das declarações do colaborador Ronnie Lessa, sustentando que diversas informações por ele apresentadas foram confirmadas ao longo da investigação.