Ao defender a condenação dos supostos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o vice-procurador-geral da República Hindenburgo Chateaubriand Filho comparou o ex-milicano que implicou os irmãos Brazão a um traficante italiano que revelou ligações entre o PCC e uma das principais máfias da Europa. O paralelo foi traçado para como Orlando Araújo, testemunha do caso Marielle, revelou detalhes do “mercado de homicídios” do Rio de Janeiro, “a exemplo de muitos que ajudaram a desvendar os meandros de organizações criminosas” como a italiana. As declarações de Orlando foram citadas por Hindenburgo em sessão de julgamento da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal na manhã desta terça para ressaltar como os irmãos Brazão eram os líderes intelectuais de uma organização criminosa responsável por crimes de extorsão, usura e grilagem – e que também acabou planejando a morte da vereadora e do motorista em 2018. Antecipando a tentativa das defesas dos réus de questionarem os relatos de Orlando, o vice-PGR destacou o conhecimento e visão privilegiada dos fatos por parte do ex-miliciano, ponderando que os assassinatos de Marielle e Anderson lhes foram falsamente imputados. Nessa linha, Hindenburgo sustentou que o ex-miliciano – “traído, excluído dos ajustes ilícitos até então existentes” – decidiu revelar abertamente “o sistema de corrupção que circundava o “mercado de homicídios” no Estado do Rio de Janeiro, e o funcionamento dos grupos de extermínio que atuavam livremente na Capital”. E foi nesse ponto que o ex-milicano foi comparado a um integrante da máfia calabresa 'Ndranheta: Vicenzo Pasquino, que foi preso em maio de 2021 ao lado de Rocco Morabito, o "rei da cocaína", e extraditado em março de 2024. Segundo Hindenburgo, a extradição foi um “sucesso”, vez que, após o retorno ao país Natal, o mafioso elucidou os meandros de ligações entre a 'Ndranheta e o PCC. – Orlando tornou-se, assim, a exemplo de muitos que ajudaram a desvendar os meandros de organizações criminosas - e a Itália é seguramente o melhor exemplo -, um “pentito”, de cujo testemunho possuem verdadeiro horror os líderes dessas organizações, precisamente pelo fato de revelarem as suas estruturas, seus participantes e o seu modo de funcionamento – sustentou Hindenburgo. O depoimento de Orlando, conhecido como Orlando Curicica, forneceu aos investigadores informações sobre o domínio territorial dos Brazão em Jacarepaguá e a corrupção na Delegacia de Homicídios (DH). – Orlando fez o que dele se esperava: forneceu depoimentos que devo dizer são absolutamente coerentes com o contexto narrado na ação e prestados em estrita sintonia com os demais elementos de convicção colhidos nos autos – pontuou. Os detalhes foram usados para ressaltar que os irmãos Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, e Chiquinho Brazão, ex-deputado federal, se associaram a grupos de milicianos para se viabilizar “no mercado imobiliário irregular, caracterizado pela ocupação, pelo uso e pelo parcelamento ilícito do solo urbano, especialmente por práticas típicas de ‘grilagem’”. Na segunda sessão do julgamento, marcada pelas sustentações orais das defesas dos réus, o questionamento ao depoimento de Orlando é um dos principais focos dos advogados. A defesa do delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa, primeira a se manifestar, argumentou que o depoimento do ex-miliciano não tem valor probatório.