Os advogados dos acusados de serem os mandantes dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes se basearam, nesta terça-feira, em questionamentos à delação do ex-PM Ronnie Lessa e do ex-miliciano Orlando Curicica como principal estratégia de contestar o processo que pode levar os irmãos Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro; Chiquinho Brazão, ex-deputado federal, e outros três réus à prisão. As defesas se referiram aos relatos como “mentira” e “criação mental”, assim como alegaram “absoluta desconexão”, “absoluto jejum acerca das provas do processo”. Durante a tarde, a sessão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal(STF) foi dedicada às sustentações orais de advogados. Na ocasião, eles questionaram a imputação de organização criminosa e as relações entre os acusados. Até o momento, fizeram suas sustentações orais os advogados de Felipe Dalleprane e Marcelo Ferreira, fazendo a defesa do delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa; Cleber Lopes de Oliveira, pelo réu Chiquinho Brazão; e Igor Luiz Batista de Carvalho, advogado de Ronald Pereira, o ‘major Ronald’. Ainda vão falar os advogados do ex-assessor do TCE Robson Calixto Fonseca, o ‘Peixe’, e de Domingos Brazão. Um dos destaques da sessão foi uma declaração do criminalista Cleber Lopes, que defende Chiquinho Brazão. O advogado afirmou que é “angustiante” não saber “quem mandou matar” Marielle e Anderson, mas que “não se pode sacrificar a liberdade de pessoas ao arrepio das provas nos autos”. Segundo ele, a investigação deve continuar e a “sociedade merece e espera resposta para o bárbaro crime”. Veja a seguir os principais argumentos apresentados pelos advogados nesta tarde: Rivaldo Barbosa A defesa de Rivaldo Barbosa reforçou na Primeira Turma do STF o pedido de absolvição do delegado de Polícia Civil do Rio de Janeiro não sob o argumento de falta de provas, mas por negativa de autoria. Os advogados Marcelo Ferreira e Felipe Dalleprane sustentaram que Rivaldo não concorreu para as mortes de Marielle e Anderson e que teria ficado comprovado que ele não participou da empreitada criminosa. Os defensores de Rivaldo alegam que não ficou provada a motivação do delegado, tampouco suposto recebimento de propina. Questionaram os relatos de Orlando Curicica, testemunha cujo relato chegou a ser antecipadamente defendido pelo vice-procurador-geral da República Hindenburgo Chateaubriand Filho. Já ao tratar das revelações de Ronnie Lessa, executor do crime, a defesa se referiu ao acordo de delação como “mentiras”. Sustentaram ainda que os elementos da colaboração não foram corroborados. Também foram rebatidos pontos específicos da denúncia contra o delegado, com a exibição de vídeos de depoimentos colhidos durante a instrução do processo. Os advogados ressaltaram, por exemplo, que no celular de Rivaldo não foi encontrado nada que apontasse contato entre ele e os irmãos Brazão. Em seguida, foi exibido depoimento em que o delegado frisa não ter nem “relação espiritual ou transcendental” com Chiquinho e Domingos. Chiquinho Brazão A defesa de Chiquinho Brazão contestou especialmente a delação de Ronnie Lessa, o depoimento de Orlando Curicica e o enquadramento pelo crime de organização criminosa, inclusive com críticas diretas à manifestação do vice-procurador-geral da República. A defesa impugnou o conteúdo da delação e disse querer provar que a mesma é inconsistente, sem trazer informações seguras e precisas. O criminalista Cleber Lopes chegou a classificar a colaboração de Lessa como uma “criação mental”. Sustentou que seu manuscrito, anterior à delação, tinha ideias aprumadas, mas que, durante a instrução do caso, Lessa fugia, criando pausas estratégicas. Segundo o advogado, a delação conta com inverdades justificadas e esbarra nos fatos. [Lessa] mentem em relação aos homicídios”, disse. Sustentou ainda que a PGR “ficará com sua própria consciência” em caso de uma condenação que leve os irmãos Brazão à prisão. Com relação ao depoimento de Orlando Curicica, Lopes criticou o fato de o relato ser “festejado” pela acusação. O vice-PGR Hindenburgo Chateaubriand Filho comparou o ex-miliciano, que implicou os irmãos Brazão, a um mafioso italiano que delatou o PCC para rebater, de antemão, os questionamentos das defesas. — Não podemos perder a confiança no STF. Isso é grave — afirmou Lopes. O advogado também alegou “absoluta desconexão” entre a denúncia da PGR e as provas dos autos. Contestou, tecnicamente, a imputação de organização criminosa feita aos irmãos sob o argumento de que o enquadramento exige, tecnicamente, a participação de quatro denunciados. Segundo Lopes, o Ministério Público não descreveu a participação da quarta pessoa. Major Ronald A defesa de Major Ronald questionou a “lógica” do Ministério Público Federal, sustentando que “não faz sentido” as relações desenhadas na denúncia. O advogado Igor de Carvalho chaou a tese da PGR de “esquizofrênica” e sustentou que Ronald e o executor do crime, Ronnie Lessa, “eram inimigos e competiam entre si”. A alegação foi a de que não faria sentido “participar de um plano criminoso ao lado de um inimigo”. Com relação à delação do assassino de Marielle e Anderson, o advogado sustentou que o colaborador “constrói a partir das informações que lhe convém”. Em alguns momentos, o advogado Igor de Carvalho contestou diretamente o vice-PGR. Chegou a se referir à tese da PGR como um “lodaçal interpretativo” e alegou que a Polícia Federal, que investigou o caso, “nunca afirmou” o que a PGR afirma. Ao se referir a uma ligação telefônica de Ronald para suposto monitoramento de Marielle, sustentou que ela não foi completada e ironizou: “sinal de fumaça? código morse?”