Bairro Industrial, em Juiz de Fora, ficou alagado após temporal histórico na cidade Reprodução/Redes Sociais Uma combinação de três fenômenos climáticos resultou na tempestade histórica que matou ao menos 28 pessoas e deixou dezenas de desaparecidos na Zona da Mata de Minas Gerais no início desta semana. Juiz de Fora, uma das cidades mais atingidas, registra até o momento 21 óbitos confirmados nas últimas 24 horas e ao menos 37 pessoas desaparecidas. Em Ubá, a cerca de 100 quilômetros de Juiz de Fora, sete mortes foram confirmadas e três pessoas estão desaparecidas. As cidades registraram deslizamento de encostas e soterramento de residências, com ruas alagadas, imóveis destruídos e centenas de desabrigados. Uma frente fria, impulsionada por um cavado e a formação de uma supercélula estão por trás da tragédia climática, explica Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK Metereologia. "Nós tivemos a passagem de uma frente fria pelo sudeste do Brasil, que acabou trazendo bastante instabilidade desde o litoral do Estado de São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro e também com acumulado significativo, ontem e hoje, na região da Zona da Mata Mineira", diz Sassaki. Essa frente fria encontrou uma condição perfeita para a instabilidade, explica a especialista, com temperaturas elevadas e bastante umidade disponível na atmosfera, o que favoreceu a formação das nuvens carregadas. "A chuva ficou presa entre as áreas do oceano e a região do relevo, com isso os maiores transtornos foram registrados em áreas de encosta, que têm uma condição de relevo propícia para prender essa umidade por algumas horas." Em Juiz de Fora, por exemplo, foram registrados 100 milímetros (mm) de chuva em menos de 12 horas, ante uma média mensal de 170 mm para o mês de fevereiro, diz a porta-voz da Tempo OK. Supercélula A frente fria que afetou a região provocou a formação de uma supercélula, uma nuvem gigante com uma corrente de ar ascendente e rotativa, conhecida como mesociclone. Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), das quatro classificações de tempestade (supercélula, multicélula, unicélula e linha de instabilidade), as supercélulas são as menos comuns, e também as mais severas. Ainda conforme a agência, as supercélulas podem produzir ventos fortes, chuva intensa com granizo, tornados mortais, enchentes e descargas elétricas. "É uma nuvem extensa e de grande extensão territorial", diz Sassaki. "Ela atinge uma área muito grande e é muito carregada de água, o que provoca uma chuva muito intensa, e em curto período de tempo, porque é uma nuvem tão pesada que as correntes de ar não conseguem sustentar toda essa água dentro dessa nuvem, o que acaba despejando-as de uma vez em pontos isolados." Cavado Já o cavado foi um fenômeno que ajudou na formação dessa "super nuvem", diz a especialista. Trata-se de uma região alongada de baixa pressão, geralmente em médios níveis da atmosfera, que favorece a subida do ar e a formação de nuvens e tempestades. É como se fosse uma área onde o ar está "mais leve" e em altitudes elevadas, o que cria um efeito de sucção, puxando a umidade do solo para o alto. "Imagina que o cavado é um vento que vai jogar ar úmido da superfície para a atmosfera. Esse movimento vai levando umidade para a nuvem, alimentando essa nuvem e vai trazendo mais condições para que essa nuvem cresça na atmosfera", diz Sassaki. "Quanto mais umidade, mais ingrediente ela tem para crescer. A supercélula nada mais é que uma cumulonimbus de grande extensão, muito intensa, que atinge uma vasta região." Questionada se o fenômeno tem relação com as mudanças climáticas e o aquecimento global, a especialista afirma que trata-se de algo típico dos meses de verão. "Esses fenômenos são comuns durante os meses de verão. Não é possível afirmar que um evento isolado esteja diretamente relacionado às mudanças climáticas, sendo necessários estudos mais aprofundados sobre o tema." O que esperar para os próximos dias Para os próximos dias, ainda há expectativa de chuvas na Zona da Mata de Minas Gerais, mas não tão volumosa quanto a já ocorrida. "Esses eventos extremos, essas chuvas muito acima da média, acontecem uma vez e demoram um certo tempo para acontecer de novo", diz a porta-voz da Tempo OK. "Em geral, não acontecem imediatamente dois eventos extremos numa mesma semana ou um dia depois do outro, mas ainda há previsão de chuva [na região] até a próxima sexta-feira [27/2]." Ainda que em menor volume, essa chuva é preocupante porque o solo da região já está encharcado, o que pode provocar novos deslizamentos, transbordamento do nível dos rios e enchentes, não só na região da Zona da Mata mineira, mas avançando também para outras regiões de Minas Gerais, como Vale do Jequitinhonha, Vale do Rio Doce e a região da bacia do Muriaé. "A partir de quinta-feira, essa chuva deve ser um pouco mais intensa e ainda mantendo esse potencial para transtornos nas áreas que já foram atingidas e nessas outras regiões que devem receber uma chuva mais intensa até o final da semana", diz a especialista. No Sudeste, também há potencial de chuvas volumosas no Espírito Santo, Rio de Janeiro e litoral norte do Estado de São Paulo.