Análise: Frustração de Trump por resistência do Irã indica erro de cálculo após captura de Maduro

A escalada de tensões com o Irã está causando incômodos no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Após o principal negociador de assuntos internacionais de Trump, Steve Witkoff, deixar escapar em uma entrevista no fim de semana que o republicano estava "curioso" com a resistência do regime iraniano em ceder a suas exigências, apesar do cerco militar posicionado por Washington nos entornos do país, fontes ouvidas em anonimato pela CBS News nesta terça-feira disseram que o presidente está "frustrado" com as limitações encontradas por sua abordagem de pressão militar — um sinal de que os cálculos estratégicos da Casa Branca não estão alcançando os resultados esperados. Análise: Para o Irã, rejeitar as exigências dos EUA para acordo nuclear é um risco que vale a pena correr Exercícios militares e novas diretrizes: Por dentro dos preparativos do Irã para a guerra e os planos de sobrevivência do regime A estratégia de Trump para forçar o Irã a assinar um novo acordo nuclear é comparável àquela adotada na Venezuela. O presidente americano enviou um poderio naval e aéreo para o Oriente Médio somente superado pelo contingente deslocado na guerra do Iraque, em 2003, prometendo consequências duras ao regime dos aiatolás em caso de desacordo. Em Caracas, a pressão por si só não foi suficiente para atingir o objetivo específico — o livre acesso às reservas de petróleo do país, como admitido por Trump —, fazendo-se necessária a "ação cinética" de 3 de janeiro, que o governo americano caracterizou como uma operação policial, a fim de evitar problemas com o Congresso, único autorizado a declarar guerra a uma nação estrangeira. Initial plugin text A frustração de Trump indica que ele esperava desfecho diferente ao usar da mesma tática contra o Irã. É possível que o republicano esperasse que o exemplo da queda de Maduro fosse suficiente para forçar o rival a ceder. O alvo neste caso era o Irã, mas a expectativa de que o efeito dissuasor fosse amplo chegou a ser exposto pela Casa Branca. Em breve participação na entrevista coletiva oficial convocada pela Casa Branca após a captura do líder chavista, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, ofereceu um vislumbre do raciocínio que levou à operação contra o território venezuelano. Ele disse que Maduro poderia estar "vivendo a vida" em outro lugar, afirmando que o destino de Maduro foi selado por tentar "bancar o valentão". Também advertiu que o caso guardava uma mensagem ao resto do mundo: "Não brinquem com este presidente [Trump] enquanto ele estiver no cargo, porque não vai acabar bem." Se as palavras de Rubio foram verdadeiras e a intenção de Washington era realmente de criar o que poderia ser chamado de "efeito de dissuasão erga omnes" — com repercussão geral, para além das partes envolvidas, naquele caso EUA e Venezuela —, o Irã parece demonstrar que a tentativa falhou. Aliados europeus já haviam mostrado isso anteriormente, durante a mobilização sobre a Groenlândia — embora ninguém imaginasse um confronto militar entre americanos e europeus no Ártico, apesar das ameaças do presidente dos EUA. Uma marcha em Teerã neste mês marcou o aniversário da revolução islâmica. O Irã enfrenta uma crise econômica e um grande aumento da presença militar dos EUA no Golfo Pérsico Arash Khamooshi / New York Times Analistas apontam que o regime teocrático vê risco existencial maior em ceder à pressão americana, por abalar as bases ideológicas e de defesa da soberania em que fincaram sua fundação, do que em um enfrentamento militar direto. A realidade específica da nação persa é o que parece ter sido ignorado por Trump — e provocado, em última instância, sua frustração, se bem descrita pelos interlocutores americanos. Agora, Trump está diante de uma encruzilhada. Na quinta-feira, uma nova rodada de negociação indireta com o Irã será realizada, com Witkoff e o genro do presidente, Jared Kushner, à frente da delegação americana. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, sugeriu que os termos do novo acordo nuclear poderiam ser apresentados durante a reunião. Fontes americanas ouvidas pelo jornal The Guardian afirmam que os negociadores americanos teriam a incumbência de avaliar, após a reunião, se Teerã está realmente disposto a negociar o fim de seu programa nuclear ou se as negociações são somente protelatórias. Essa análise, disseram as fontes, seria decisiva para Trump autorizar ou não um ataque contra o país do Golfo Pérsico — algo que já foi desaconselhado por aliados na região e mesmo por militares dos EUA, que fizeram ressalvas sobre possíveis baixas americanas e da ação se converter em uma guerra prolongada. Trump sempre se disse avesso a iniciar guerras, e analistas políticos afirmam que o republicano quer evitar a todo custo ter associado ao seu mandato cenas como as vistas durante as guerras no Oriente Médio no começo do século, com caixões de soldados americanos voltando para casa. O erro de cálculo sobre a abordagem da força pode acabar forçando o presidente a lançar um ataque de fato — desta vez, ao contrário da Venezuela, sem um prêmio à vista para oferecer (como a prisão de Maduro), e sem um desfecho previsível para nenhuma das partes.